PROJETOS 2012

A autora deste blog anda muito ocupada escrevendo!

Vários projetos foram começados esse ano. E já que estamos no meio dele (já estamos no meio!!! aaaaahhh ) resolvi contar o que anda acontecendo.

Depois de publicar meu primeiro romance, esse ano começamos bem. Tive um conto publicado pela MyMag e comecei a escrever para a ObviousMagazine (desde março). Paralelamente, ando tocando alguns projetos a longo prazo. São eles:


Primeiro: Está em fase de revisão um livro de contos reunindo uma seleção de publicações desse blog. Logo, logo, ele sairá do forno!

Segundo: Não deixei de escrever romances, mas tenho que confessar que eles estão me dando um trabalhão! Sim, eles; são dois. Conto mais a respeito mais tarde. Por enquanto deixo vocês com o gostinho de um deles. Se tudo der certo, até o fim do ano pretendo tê-lo terminado para revisar.

Espero que gostem! E aceito comentários e críticas!!! Obrigada a todos os que andam acompanhando essa jornada literária.

“O pai se aproximava pelo corredor. Ouvia os passos. Não deveria estar ali àquela hora. Nem a hora nenhuma. Mas aquela curiosidade das coisas que nunca  lhe foram contadas o impeliam a caçar pelo escritório. Acontece que seus pais não contavam saudosistas de uma viagem para a praia de moto, de um repente que os enfiou num avião para a Europa, nem o fato dos pais de Fernanda serem contra o casamento e de serem fugitivos. Aquelas histórias embaraçosas foram seguidas por uma trágica seqüência de acontecimentos que queriam esquecer, e com eles foram todas as outras lembranças. Também não soube por eles de todos os amigos que já tiveram, nem das contas de restaurantes, da moto que o pai tinha na faculdade, do vestido curto que sua mãe usara na graduação, das contas de motel, da ultra-sonografia, da jaqueta de couro marrom que o pai colocava sobre os ombros da mãe depois de sair do cinema.

Os pés chegavam à frente da porta. É isso, pensou Guilherme, vou ser descoberto. Não havia qualquer desculpa que pudesse usar. Ele era um rapaz criativo, mas não tão engenhoso quanto gostaria de ser. Apreciava isso em Giovanna e também em Gisele. Talvez, quando novas, fizessem suas armadilhas juntas, arquitetassem seus planos como mentes gêmeas. Guilherme nunca ousou falar sobre a irmã com Giovanna. Ela tampouco lhe dirigiu a palavra sobre o assunto. A amizade das duas parecia a de irmãs siamesas, unidas pelo sentimento. Num flash uma imagem das duas juntas sentadas num balanço do jardim surge diante dos olhos de Guilherme. As duas cerram os olhos pela metade em direção a ele. Giovanna cochicha no ouvido da cúmplice. Ele percebe que é o assunto e corre, fugindo daquelas meninas perigosas.

Um milagre acontece. A mão pousa sobre a maçaneta, mas não a gira. Felipe vira-se dando meia volta. Dirige-se à cozinha. Guilherme respira aliviado, mas a curiosidade o ataca novamente. Ouve os passos não se dirigirem para o quarto, abre a porta e segue o pai que chega à cozinha, abre a geladeira, apóia-se no balcão, verte o líqüido branco dentro do recipiente transparente – coloca para si mesmo um copo de leite gelado até a metade. Toma-o de uma só vez. Sai pela porta. Coloca os pés na grama, sem os chinelos – os deixou na soleira. Felipe respira profundamente e, agora sim, longe da mulher, chora. Soluça.

Guilherme assiste a tudo isso com um sentimento que lhe é estranho. Dessa vez sente-se culpado por estar ali. Não deveria ver seu pai chorar. Não era certo. Ainda que o pai não o visse. Não era certo estar ali espreitando um homem crescido, um homem que era seu exemplo, desmontar-se daquela maneira diante de seus olhos. Não queria ver aquele homem descalço com os pés na grama. Ele não choraria se soubesse que estava sendo assistido, pensava Guilherme. Atraído pela humanidade daquela cena, o garoto não conseguia sair da cozinha. Não conseguia afastar-se. Isso porque nunca estivera tão próximo da real figura de seu pai. Era a primeira vez que parecia vê-lo agir como um ser humano e não uma máquina mais ou menos treinada, apática.

Analisou as lajotas da cozinha. As panelas em cima do fogão. Esticou o braço para o copo que antes estava nas mãos do pai. A marca dos dedos no suor do lado externo do copo, fruto do leite gelado que antes ocupava o espaço interno, ficara desenhado como impressões digitais. Guilherme colocava os dedos sobre o desenho, tentando fazer sua mão ocupar o espaço antes ocupado pelos dedos do pai. Percebia que aquele espaço fora ocupado por dedos muito grandes, maiores que os seus, porém no mesmo formato. Cresceria para ocupar aquele espaço? Não sabia.

Ao ver o pai desmoronar, pela primeira vez Guilherme achou que seria capaz de um dia ocupar aquele espaço largo demais, forte demasiado, que o pai ocupava. Como se os olhos do pai estivessem à mesma altura dos dele e não a olhar de cima, como sempre estiveram. O pai não era um Deus, nem era o pai mais. Ele era o espelho. Era ele. Uma versão mais velha, mais forte e mais errada, talvez. Mais dobrada pelo mundo. Mais mansa, acomodada, cansada; mais responsável, menos aventureiro. Ainda assim, era ele. Era as cartas de um baralho viradas na mesa. Seguiria aquele destino ou fugiria dele? Aqueles passos: deveria contemplá-los de longe, ou arrumar sapatos feitos da mesma sola, preparados para o mesmo caminho?

Volta o copo para a bancada, sai de manso, ainda de frente para o pai, costas para a porta. Felipe sentou-se na soleira ao lado dos sapatos e tenta conter-se, diminuir o choro. Guilherme caminha para seu quarto. Pés leves, nenhum ruído no piso de madeira.

Mas um ruído se faz. Olha para os próprios pés buscando seu passo em falso. Não foi seu. Olha para a frente. É Giovanna. Os olhos a ressabiar nos passos  leves surpreendidos de Guilherme. Que ele fazia acordado? Quis passar por ele e ir beber água na cozinha. Não pôde. Estava decidida a fazê-lo, mas Guilherme não a deixou passar. Lembrou-se da cena frágil do pai. Imaginou que ele seria surpreendido por Giovanna e para protegê-lo segurou-a pelo braço.

Giovanna assusta-se. Faz menção de reclamar ou dizer alguma coisa, mas ele tampa sua boca com a palma da mão ainda gelada do copo que antes segurara. Seus lábios fazem um chiado a espera que isso a cale. Ela quer reclamar. Não entende por que ele a segura; por que a cala. Tenta se remexer, soltar.

imagem de Bet Orten (http://www.betside.com/)

Guilherme a segura mais forte. Dessa vez apóia-se contra ela e a joga de costas para a parede. Não diga nada. Não grite e eu tiro a mão. Percebendo que o que mais a incomodava era a sensação de não poder respirar pela boca, Guilherme baixou a mão deixando que os lábios de Giovanna fossem novamente livres. Ela olhava assustada, em silêncio, esperando uma explicação – que não veio.

Aquela situação em que estava era incômoda, mas não sabia sair dela.

Arrumara os sapatos iguais aos do pai e nem sabia. Ainda se iludia ao pensar que a escolha era sua. Lábio contra lábio, nem sabia como tinha chegado àquele lugar. Sentia as mãos gelarem de nervoso. Olhos fechados de medo. O cheiro dos cabelos dela estava perto demais. Ela estava perto demais. Ele estava próximo demais do perigo. Lembrou-se mais uma vez de correr das meninas perigosas e vendo-se lábios colados com uma delas descolou-se tão rápido que foi parar de costas para a parede contrária do corredor, mãos agora grudadas para trás, afastando-se o mais que podia dela. Como se ela o tivesse seduzido para aquela situação perigosa e não ele. Como se não fosse ele a segurá-la pelo braço, mas ela, a segurá-lo com os olhos. Ela a tragá-lo indefeso, a fazer com que descesse os dedos devagar e depois colocar seus lábios no lugar, para calar aquela boca aflita… aquela boca linda… que agora balbuciava palavras inaudíveis – palavras que não seriam ouvidas nunca. Por que você fez isso? Guilherme não escutava nada. Como se uma bomba tivesse explodido a seu lado. Não poderia sequer distinguir as palavras olhando para o movimento que os lábios fizeram. Estava extasiado com o sentimento do beijo. Momentaneamente surdo, mudo, a vista também não funcionava perfeitamente, turvava. Ela o observava sem saber o que pensar. Quando escutou os passos pesados e arrastados de Felipe que voltava da cozinha, puxou o atônito rapaz a sua frente para dentro do cômodo mais próximo e fechou a porta tentando não fazer ruídos. O armário de vassouras era estreito e incômodo. Guilherme era muito grande para o pé-direito. Giovanna muito agitada e claustrofóbica para a largura. Mesmo assim mantiveram-se os dois quietos. Guilherme aos poucos se recuperava de sua perda de consciência momentânea. Giovanna procurava manter-se respirando naquele espaço contido e para isso procurava recusar os pensamentos que sua cabeça queria ter. “

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