Me Chama

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Me manda o endereço que eu passo por aí. Entro pela porta, me aconchego nos seus braços e finjo que o mundo não existe. Estou com saudades daquela sua camisa que ficaria melhor de vestido em mim e que eu nunca vesti. Me diz quando posso chegar, quando posso pisar na ponta dos pés o seu assoalho e engatinhar na sua cama. Assim fica tudo mutuamente resolvido. Você admite que me quer e eu paro de fingir que tenho coisa melhor para fazer do que ficar de pijama lendo o que você escreve para uma mulher imaginária que se encaixa nas minhas curvas. A sinuosidade do seu discurso fica melhor no meu ouvido, num gemido baixinho quando não há espaço entre seu corpo e o meu.

Não está certo ficar passando vontade. Querer que fosse pele o que preserva meu calor. Querer que fossem as suas mãos a me acender, quando o que tem hoje em casa é o vazio do sabor da vontade de um alguém que não é meu.

Manda o endereço que eu vou tirar o pijama, soltar o cabelo, colocar um sorriso na cara e daqui a pouco estou aí, deixando você dizer do que gosta e fazer o que deseja. Você é meu convidado. Ou devo ainda pedir licença para entrar na sua vida? Me convida então. Mas tem que ser convite de boca. De beijo roubado na porta. Promessa feita na madrugada. Calafrio de quem se procura e se encontra num encaixe.

Eu apareço, prometo. Mas só se for para ficar, porque hoje está frio. E eu não tenho a menor pressa… Se eu for, é para acordar de manhã no seu travesseiro com você respirando perto do meu pescoço, quase colado.

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A imagem é da fotógrafa Tamara Dean. O nome da obra é Divine Rites 05.

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Poema do Grito

4 T

Abaixem as armas e levantem uma bandeira

O orgulho nunca foi tão bem-quisto

se é orgulho pela pátria.

Que de mãe gentil ultimamente não tem nada,

Mas que de repente acordou as entranhas

E nas mãos de quem sai às ruas grita.

Grita a dor de uma mágoa por séculos comedida.

Quem é sinhô manda

Quem é povo fica,

Sim, sinhô. E marcha de cabeça baixa…

Como peão em jogo de xadrez a dançar.

Dança meu povo a frenética dança das bombas,

dos salões de baile das avenidas,

coreografada pela política.

Dançam também as quadrilhas.

Numa grande festa que não foi feita para eles.

Que foi construída para o povo, pelo povo,

mas dela só participa rei. Dançam todos felizes em Brasília, longe do grito,

Versailles reconstruída. Democracia-demagogia.

Quem é povo, não mais obedece.

Chega de tanta obediência!

Não há mais lugar para decência, moral ou condenação.

O povo todo é um, e deve assim agir.

O povo sou eu, é você, e aquele que ainda acha que tudo é pouco.

Quem é povo grita.

Quem é povo grita.

QUEM É POVO GRITA.

Não há maior violência que o silêncio forçado.

Mas hoje o dia amanhecerá sem pena

A cidade desgarrará sua resiliência.

Não será nunca mais a mesma.

Quem é povo grita.

Quem é povo grita.

QUEM É POVO GRITA.

E até mesmo nas profundezas da terra

se ouvirá o tremor do chão

a balançar sob pés de quem não mais marcha,

mas caminha na direção do horizonte.

 

 

 

A imagem é o quadro Navio de Emigrantes de Lasar Segall. Me pareceu muito apropriado.

GUARDE A DATA!!!

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Meus queridos amigos,

é com grande satisfação que peço a vocês que reservem a tarde do dia 8 de junho para compartilhar comigo um grande momento.

Para os que não sabem ainda, vou publicar meu primeiro livro de contos com apoio da Editora Multifoco. Teremos uma tarde de lançamento e autógrafos.

Logo, logo, vem o convite oficial! O evento, etc…

Mas, por hora, compartilhem por aí!

Beijos a todos!!!

Quando eu te encontrar

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Quando eu te encontrar, nossos olhos se cruzarão em meio à multidão e a rua se abrirá para nos receber de esquinas abertas.

 

Quando eu te encontrar, as bocas vão se dar em meio a sorrisos e os beijos serão felizes como se os dias não pudessem acabar. Como se as noites fossem apenas um favor do tempo de nos deixar amar à meia luz. E as estrelas fossem um sinal de que nada pode nos apagar.

 

Quando seu olhar cruzar o meu, vamos parar de existir para sermos uma nova presença. Rodaremos em meio ao caos do vão que nos separa e chegaremos juntos ao cais que nos abriga; o destino dos nossos corpos será o corpo do outro, e não haverá adeus, apenas clichês e domingos no parque.

 

Quando meu enlace forem os teus braços, o meu apoio o teu peito, serei a voz que te sussurra ao ouvido tudo que há de bom num só pedido, tudo que há de perfeito no pervertido, de delicioso no ardido de uma paixão queimada de sol.

 

Que se eu te faço num desejo meu, é porque tantos desejos tive antes de existir alguém como você, que fosse a junção de todos os pedidos perdidos, de todas as vontades sem nome, de tudo que há de vingar e não tem vez de ser.

 

Seja. Tudo que me acontecer. De bom, ou de louco. Quero o amor mais insano, mais oblíquo e indiscreto. Um sujeito com gosto de alma, uma boca com gosto de céu. Uma força que seja abrasiva, uma dor que seja amarga – mas que deixe ao final uma tristeza doce.

 

Jogar-me ao encontro ou mergulhar no absurdo. Tudo com você. Que eu ainda hei de encontrar. Em meio à multidão. Em meio à multidão, nossos olhos se cruzarão.

bocas, sumos e desejos

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Cortei a pêra aos bocados com a faca e fui dissolvendo um a um os pedaços na boca até só sobrar a casca e mastigá-la. Sempre que como pêra me lembro daquele filme em que a Meggie Ryan morre só porque foi comprar pêra para o namorado-anjo-que-virou-humano. E toda vez eu me perco no pensamento de como as coisas podem não ter descrição. E em como eu insistentemente tento descrever coisas que são indescritíveis.

Contar história de amor é das coisas mais frustrantes desse planeta. Me incomoda saber que os detalhes serão perdidos pelo contar que já não é mais lembrar, que também já não é mais o viver. Viver o momento tem um gosto muito melhor. Como o gosto da pêra que eu não sou capaz de te dizer de que jeito é, mas você entende só de eu dizer que dissolve na boca. Você sabe que gosto não se explica. Gosto de boca não se discute. Que cada boca tem um gosto, um jeito e um desejo. E cada combinação de duas bocas nunca é igual a outra. Cada combinação de dois desejos dá um só samba de letra e poesia únicos. Quando os desejos mudam, dá novo samba. E quando mudam as bocas, dá outro ainda.

Se a sua boca fosse pêra, me pergunto, será que dissolvia no meu desejo como areia dissolve na onda do mar que a beija?

Ou virava uma combinação tão louca que dava outro gosto? Como seria o gosto dessa vida?

Me devora. Do mesmo jeito que se come fruta madura direto do pé, sentado no galho. Se lambuza nessa gota que escorre dos meus lábios de sumo doce. Toda gota do meu amor é mais que uma fruta inteira de qualquer outro sentimento. A fonte nunca se esgota; a vontade nunca seca.

 

 

O que somos

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O que dizer do espaço fino e estreito por onde penetram as palavras e os gritos? E por que achar que a esperança ainda mora no peito se não há motivo.

Por que viver se não há luz e se nada mais parece estar vivo

Se tudo apenas parece funcionar como máquina

e toda sorte de gente parece máquina

 

E toda sorte de bicho parece sobreviver

E toda sorte de gente parece sobreviver.

O que dizer de uma saudade que não quer sair do corpo e partir

E de um corpo que não quer partir porque prefere viver na saudade?

 

Este tempo ´ inda é de partido. E de partidos e repartições e compartimentos.

Onde estão os homens inteiros?

Embaixo de alguma superfície plástica craquelada.

Buscam

– talvez –

uma saída ou uma chegada.

Uma resposta

Um motivo

Uma piada

Uma vida, uma sobrevida, uma migalha

 

Este tempo de pirraça, de olho por olho

de gente que se diz artista, mas não passa de caroço

De pouco fazer e muita falácia

Pouca briga e muita chorumela

Só de pirraça

de músicas iguais

de gente igual

de passos iguais

ideias – que ideias?

são todas reprodução, cópia, pirataria vagabunda.

 

Tempo de pouca audácia

De reprimir os sentidos

e cumprir os horários

Sacar o dinheiro

Gastar no boteco

Perder-se nas esquinas

Gastar-se nos buracos

Esconder-se no infinito do finito das horas

Que não são mais que tempo perdido

 

Somos o que não somos. E vivemos pelo que fomos. Seremos o que não queremos e nossos sonhos estarão só nos sonhos.