Correnteza

 

Captura de tela 2013-08-09 às 21.53.05

 

Fez-se um rio.

De um choro muito profundo, uma amargura tão grande,

veja só,

Fez-se um rio.

 

Que na mente de quem se engana podia bem ser riso.

Eu rio

você rio

o nosso pranto riu.

 

Do nosso pranto, rio

Do nosso pranto, veja,

corre agora um fio.

 

Do meu pranto

Espanto!

Vejo agora um riso.

 

E o fio que passa pelo meu peito,

passa no teu pensamento por um fio.

Passa como um rio, o riso da desfeita

que o chorar fez doer.

 

Faz-se fim,

Faz-se uma troça do nosso fim,

um atropelo.

Parto de mim

Parte-se em mim num relâmpago

Um tropeço,

Passa por mim esse presságio de silêncio

Calo, e logo choro, e rio.

E mais uma vez sou silêncio.

 

Ressabiado o choro recanta e soluça.

Ah, fosse o choro um riso ou um rio.

Fosse um rio passava por nós

Passava e carregava de mim um pedaço para si, de si um pedaço para mim.

 

Ai rio, mas corres num só sentido e assim me deixas sem resposta!

 

Um rio que passa leva-me toda e deixa mais nada.

O sorriso que fica, não tem sentido.

É só farsa.

De quem não tem mais nada a passar dentro de si.

 

Ah, choro, se fosses riso, era como um rio que passava dentro de mim.

.

.

.

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Foto de Olivia Bee

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Poema do Grito

4 T

Abaixem as armas e levantem uma bandeira

O orgulho nunca foi tão bem-quisto

se é orgulho pela pátria.

Que de mãe gentil ultimamente não tem nada,

Mas que de repente acordou as entranhas

E nas mãos de quem sai às ruas grita.

Grita a dor de uma mágoa por séculos comedida.

Quem é sinhô manda

Quem é povo fica,

Sim, sinhô. E marcha de cabeça baixa…

Como peão em jogo de xadrez a dançar.

Dança meu povo a frenética dança das bombas,

dos salões de baile das avenidas,

coreografada pela política.

Dançam também as quadrilhas.

Numa grande festa que não foi feita para eles.

Que foi construída para o povo, pelo povo,

mas dela só participa rei. Dançam todos felizes em Brasília, longe do grito,

Versailles reconstruída. Democracia-demagogia.

Quem é povo, não mais obedece.

Chega de tanta obediência!

Não há mais lugar para decência, moral ou condenação.

O povo todo é um, e deve assim agir.

O povo sou eu, é você, e aquele que ainda acha que tudo é pouco.

Quem é povo grita.

Quem é povo grita.

QUEM É POVO GRITA.

Não há maior violência que o silêncio forçado.

Mas hoje o dia amanhecerá sem pena

A cidade desgarrará sua resiliência.

Não será nunca mais a mesma.

Quem é povo grita.

Quem é povo grita.

QUEM É POVO GRITA.

E até mesmo nas profundezas da terra

se ouvirá o tremor do chão

a balançar sob pés de quem não mais marcha,

mas caminha na direção do horizonte.

 

 

 

A imagem é o quadro Navio de Emigrantes de Lasar Segall. Me pareceu muito apropriado.

O que somos

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O que dizer do espaço fino e estreito por onde penetram as palavras e os gritos? E por que achar que a esperança ainda mora no peito se não há motivo.

Por que viver se não há luz e se nada mais parece estar vivo

Se tudo apenas parece funcionar como máquina

e toda sorte de gente parece máquina

 

E toda sorte de bicho parece sobreviver

E toda sorte de gente parece sobreviver.

O que dizer de uma saudade que não quer sair do corpo e partir

E de um corpo que não quer partir porque prefere viver na saudade?

 

Este tempo ´ inda é de partido. E de partidos e repartições e compartimentos.

Onde estão os homens inteiros?

Embaixo de alguma superfície plástica craquelada.

Buscam

– talvez –

uma saída ou uma chegada.

Uma resposta

Um motivo

Uma piada

Uma vida, uma sobrevida, uma migalha

 

Este tempo de pirraça, de olho por olho

de gente que se diz artista, mas não passa de caroço

De pouco fazer e muita falácia

Pouca briga e muita chorumela

Só de pirraça

de músicas iguais

de gente igual

de passos iguais

ideias – que ideias?

são todas reprodução, cópia, pirataria vagabunda.

 

Tempo de pouca audácia

De reprimir os sentidos

e cumprir os horários

Sacar o dinheiro

Gastar no boteco

Perder-se nas esquinas

Gastar-se nos buracos

Esconder-se no infinito do finito das horas

Que não são mais que tempo perdido

 

Somos o que não somos. E vivemos pelo que fomos. Seremos o que não queremos e nossos sonhos estarão só nos sonhos.

Sutilezas caóticas

Falo um milhão de vezes um nome que não existe,

me abalo através do espaço nesse confessionário.

Nado entre a catarata e o riacho.

Onde há uma fenda que me engole.

Respiro, embora encoberta por água.

 

Se o espaço me cobre,

devo me aquecer no seu acolhimento.

Me entregar a um desfecho estranho e caótico; não devo resistir.

O óbvio é o que menos ocorre

também o que menos atinge.

São as sutilezas

com que a vida diz o que de fato importa

o que carrega este fato todos os dias dentro de um corpo.

 

Maré,

maré, que não existe em água doce,

me dança.

Mesmo que no leito do rio,

neste ritmo composto com a lua.

 

Acalanto dos mares,

me atira, como se respirar fosse fácil

debaixo da trama complexa que fazem as correntes e também as trilhas.

Me alcança um tanto mais por dentro

Me abandona um tanto mais para o lado

Do lado de quem vem

E não daquele de quem se vai.

 

 

 

 

 

 

 

 

foto de Eliot Lee Hazel

Olhos que não me dizem

 

Dançam as coincidências e contradições num único semblante:

O seu, que reluz mesmo à sombra, numa pacífica luz branca de corpo nu.

 

Devem os teus olhos possuir luz própria; cintilam,

ainda que tudo à volta seja puro breu.

 

Que o breu seja o grande negro das minhas incertezas,

seriam os teus olhos a solução.

Era de amar impontualmente que nossos corpos agitavam-se.

Um desencontro de espaço-tempo: momentos apartados.

Seria o teu profundo olhar incrustado no meu uma premonição,

ou um aviso? Dirá sim ou não? Será uma confirmação

ou somente um deboche?

 

Afagam-me as horas que não são mais um sofrimento.

Apenas aproximam-me do exato momento da descoberta,

da revelação dos sentidos.

Não me custam porque, ainda que lentamente, passam.

E sinto-me um passo a frente de mim mesma há pouco tempo atrás.

 

Estamos tão perto, e tão longe.

Mas estamos no mesmo caminho,

sentidos opostos,

rumo ao encontro.

 

Farejo o teu enlace na minha inspiração.

 

 

fotografia de Vivian Maier

Fim de papo!

Os fundamentos teóricos desse amor não me interessam.

Dê aula a quem quiser, mas deixe-me aprender com a vida.

Não há começo que não tenha um fim num penhasco ou na favela, num capítulo de novela.

Num samba, num incêndio ou num olho molhado cheio de ramela.

Não quer drama, não se apaixone.

 

Sossego é para os fracos e covardes

E eu encaro a vida sem churumela.

Ai quanta dor que não me causaria se fosse de fato amor!

Mas é antes aula de geografia, de biologia e de ensino religioso:

tudo aquilo que eu mais detestava do colégio.

É melhor definido como enfado.

 

É uma querela, um fado, essa tua queixa de abandono.

Um soneto em verso arrematado, trova, estrofe e rima ABAB

Sou verso livre de braços abertos!

Nada de amputar meus sonhos com regras e alinhamentos

Se sobra um pedaço de inferno é ali onde meu céu começa.