Ser a Noite

 

Poderia. Dentre todas as coisas que eu faria, eu poderia fazer a certa. Pisar nos caminhos pré-escolhidos e seguir a feliz trajetória de todas as escolhas já testadas, de todas as escolas consagradas. Daria certo? Daria. Mas e daí? Para que eu teria vivido se fosse apenas para replicar receios? E do que eu seria feita se fosse apenas uma cópia revivida. “Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência.” Meu caro Pessoa, se você soubesse como temo a noite! E como pertenço tão poderosamente a essa coisa que temo. E a todas as coisas outras que temo. E como não pertenço a nada nem a ninguém porque também temo. Temo ser e pertencer ao que não posso tolerar e ao mesmo tempo, não é essa uma maneira de ser também o medo? Sentí-lo é tê-lo, tê-lo é sê-lo. E ser portanto algo incontrolável. Assim como o pescador é um pouco do mar, é também seu melhor amigo, mas também seu maior inimigo. O mar é o pescador e o pescador é o mar. Não somos todos portanto mar e pescador? Somos uma busca. Temos isso em comum. E é isso que nos confunde. Que nos emaranha nas mesmas dúvidas. E que também às vezes nos afoga.


Ser a noite seria como poder estar a espera sem a ansiedade de esperar. Vagar apenas tranquilamente por entre a escuridão e sonhar – não o desespero dos sonhadores que querem acordar para no dia a seguir perseguir aqueles sonhos, mas com a paz e a solenidade de quem contenta-se no sentir o sonho como se o sonho fosse o real e o acordar apenas uma dor desnecessária. Ser a noite como um guardador de promessas. Mais do que um rebanho, guardar os segredos que o rebanho confessa à profundeza escura do Universo fiando-se apenas no brilhar das estrelas. E ter as estrelas como parte de si. Ser a noite para confessar às estrelas também segredos e saber que elas, subalternas à noite, jamais os revelariam.

Queria antes ser a noite, o fim e o começo de tudo. Não o meio. Não a ponte. Não o sereno que cai sobre todos. Não ter a tarefa constrangedora de me expor ao julgamento da vida e de testar minhas próprias teorias. Não ser a luta. Era tão mais fácil ser qualquer coisa certa – uma coisa que não teme. Não são as paredes monótonas do meu quarto que dizem o caminho, mas o caminho por si só é que se conta. Ele é que contem a história. A história só se percorre ao caminhar.

 

Mas como ser sensível a tudo isso e não assustar-se perante um dia escuro. Não é preciso cair a chuva para temer que ela venha. O sensível ouve o trovão mesmo na voz do mar que rebate uma onda qualquer na praia. Há quem não anteveja no falso trovão a chuva. E como não observar o escuro do dia cinza e antever a noite. Perceber que a noite não foi de todo embora. Que ela aguarda a hora correta de se deitar sobre o mundo. Há quem não tema, porque faz a coisa certa. Ora, a única certeza que poso ter é a de ser o medo, a busca e um dia, mesmo sem que eu queira, ser a noite, porque também ela nos tomará e nos renderá como faz às estrelas.

 

 

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Espaço

kyle_Thompson

Estico os dedos, estalo os joelhos e me viro de lado na cama. Não há outro corpo. Há o estio. O vazio da madrugada que se enche de névoa. Há um espaço entre mim e a minha própria pele. Há o ópio de um sonho que se espalha nas minhas narinas. Na imprecisão, uma inquietude, uma costura torta, uma deformação ausente no lençol, tão arrumando, tão preciso, tão impreciso. Quando o desarrumado parece mais certo que o alinhado, é quando se sabe estar realmente vivendo. O resto é um espaço de tempo entre isso e aquilo. Entre esse vazio e o que poderia existir.

Há o vislumbre da manhã, nos mesmos lençóis em que há uma falta, há uma presença: da tênue luz lunar que invade o quarto a me dizer que ainda não é hora de estar acordada, mas envolta em prata de sonho. Mal emerge no mundo, você já imerge no sonho. Ninguém se atreve a acordar a pequena réstia de esperança que nasce – do asfalto? De dentro? Do nada. Deixa-o a dormir dentro da lembrança do que poderia ser.

Um broto. Guarda dentro de si uma expectativa. De sim. Um espaço. Que espera ser preenchido por tempo. Espera ser preenchido mas já está cheio de uma coisa insubstituível e amarga que se alastra. Quanta falta e quanta existência! Numa só ausência de essência, é flagrante a decepção do ruidoso cheiro de lençóis limpos. Quanta matéria desfalece num só sopro de indiscrição. Numa desatenção que poderia passar desapercebida por olhos menos atentos, por vidas menos importantes, por pessoas menos de carne, mais do mesmo. Mas não passa e desata. A batida da pequena asa da borboleta que vira-se em tufão. O pedaço de fita sem laço, só ponta solta. O resto é um rolar outra vez para o outro lado da cama e ver a fresta da janela aberta ao invés de todo o tudo que nada o é porque não pode ser.


fotografia: Kyle Thompson

Por favor, tire

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Tire. Tudo. Tire tudo. De dentro de você. Tire – cada pedaço do que se esconde nas entrelinhas e ponha à mostra. Faça amostras. E depois esbanje. Tire tudo que o circunda e olhe no espelho, só pele. Mesmo que faça frio. Tire as camadas externas, as que se acumulam. Talvez você precise chorar um pouco. Tire. Sue.

Retire. 

 

Tire. Todas as suas rotinas, julgamentos, ilusões, disfunções, credos, e até mesmo as roupas e atire. Atire tudo pela janela. Atire através das visões que existem a seu respeito. Desfigure para reconstruir. Mas, primeiro, tire.

Todos os excessos e até as coisas fundamentais e necessárias. Viva um pouco sem elas. E quando elas voltarem, serão, de fato, as coisas fundamentais e necessárias. Muito do que você pensa ser fundamental, é demais. Tire. 

Tire a sorte grande. De onde a sorte parece fugir. Tire do destino com suas mãos o poder que o destino tem sobre você. Tire onda. Se retire. Trilhe como um tiro certeiro um caminho inesperado. Aí sim, se atire. Trace, calcule e realize. Tire a luz para sentir falta e depois provoque outra vez a chama. Atice.

 Tire da cabeça os enganos e as tristezas. Me tire. Para dançar. Para dançar, me tire de pé de chumbo. Se surpreenda quando me tirar. Me atire. Se surpreenda quando te chamar de pé de ouvido. E te tirar de fininho da multidão para nos retirarmos da asfixia desse mundo assolador e te tirar dos lábios o beijo livre de tudo que se deve para trás deixar.

Nos tire dessa vida louca e nos prenda num estalo de silêncio compartilhado: voz que se retira. Olhos que se encontram mudos: um olhar despido. 

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imagem de Angela Strassheim  

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Todas aquelas coisas que não se diz

dreams_oliviabee

Quando te vi dar as costas e seguir em direção à estação Paulista da linha amarela, meu corpo ainda apoiado à baia do metrô Consolação, não pude senão pensar em o quanto você era idiota. Dois trens passaram, eu muito perto de você, você muito distante de mim. Eu quis gritar mas não tinha forças para isso. Era vingança aquilo? Ou você só não sabia como dizer que não era para ser eu. Sabe, pelo menos quando eu resolvi namorar outro cara eu te disse isso com todas as letras. Eu não preciso iludir ninguém. E só porque eu estava nos braços de outra pessoa, também não quer dizer que te esqueci, ou que não quisesse ser nada nunca mais na sua vida.

Nunca te beijei. Sempre quis. Sempre quis saber como seria ter seus lábios nos meus, já que temos os dois os lábios nos mesmos assuntos e nas mesmas histórias muitas vezes. Por que não usá-los juntos, só para variar? Ao invés de um de cada vez, deixa os lábios falarem juntos dessa vez. Só dessa. Ou quem sabe mais umas outras.

Talvez você esperasse que eu corresse na estação, gritasse seu nome, chamasse por você alto para todo mundo ouvir, depois baixinho, só no seu ouvido, a sós. Talvez você esperasse que pudéssemos compor uma música inteira, pelo menos, juntos. Mas não tivemos projetos duradouros.

Talvez você nem pense nada. E queira mesmo ser um amigo, apenas. Mas então por que segurar minha mão? E onde está você agora?

Sabe, é difícil achar alguma coisa mais interessante do que um Caravaggio. Quando tem ele numa sala, só costumo olhar para ele. E só tem um jeito de eu achar algo mais interessante do que um quadro e de me confundir com eventos históricos – é eu estar apaixonada. Não sei por que achei que você seria uma boa ideia naquele momento em que estávamos sentados um ao lado do outro. E não sei por que fazia tanto tempo que eu pensava em você como alguém e não qualquer um. Não faz mais diferença. Faz tempo que não acho nada, nem deixo de achar.

Eu só queria dizer que tem espaço para alguma coisa nova que não é você. Que quando eu me frustro eu como brigadeiro, danço na sala seminua e canto alto Pride, in the name of love, com o disco rodando na vitrola – sabe, Rattle and Hum foi número 1 nas paradas no dia em que eu nasci -; que quando eu giro até ficar tonta, até não ter mais como pensar em nada e a euforia tomar conta do meu estômago, a única coisa presente em mim é eu querer me sentir mais uma vez assim, com outro alguém. Que tem um vazio à espera de uma nova droga, um novo entorpecente tão bom que não me deixe pensar nem em todas as coisas que eu penso quando estou sozinha.

 foto de Olivia Bee

Me Chama

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Me manda o endereço que eu passo por aí. Entro pela porta, me aconchego nos seus braços e finjo que o mundo não existe. Estou com saudades daquela sua camisa que ficaria melhor de vestido em mim e que eu nunca vesti. Me diz quando posso chegar, quando posso pisar na ponta dos pés o seu assoalho e engatinhar na sua cama. Assim fica tudo mutuamente resolvido. Você admite que me quer e eu paro de fingir que tenho coisa melhor para fazer do que ficar de pijama lendo o que você escreve para uma mulher imaginária que se encaixa nas minhas curvas. A sinuosidade do seu discurso fica melhor no meu ouvido, num gemido baixinho quando não há espaço entre seu corpo e o meu.

Não está certo ficar passando vontade. Querer que fosse pele o que preserva meu calor. Querer que fossem as suas mãos a me acender, quando o que tem hoje em casa é o vazio do sabor da vontade de um alguém que não é meu.

Manda o endereço que eu vou tirar o pijama, soltar o cabelo, colocar um sorriso na cara e daqui a pouco estou aí, deixando você dizer do que gosta e fazer o que deseja. Você é meu convidado. Ou devo ainda pedir licença para entrar na sua vida? Me convida então. Mas tem que ser convite de boca. De beijo roubado na porta. Promessa feita na madrugada. Calafrio de quem se procura e se encontra num encaixe.

Eu apareço, prometo. Mas só se for para ficar, porque hoje está frio. E eu não tenho a menor pressa… Se eu for, é para acordar de manhã no seu travesseiro com você respirando perto do meu pescoço, quase colado.

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A imagem é da fotógrafa Tamara Dean. O nome da obra é Divine Rites 05.

Poema do Grito

4 T

Abaixem as armas e levantem uma bandeira

O orgulho nunca foi tão bem-quisto

se é orgulho pela pátria.

Que de mãe gentil ultimamente não tem nada,

Mas que de repente acordou as entranhas

E nas mãos de quem sai às ruas grita.

Grita a dor de uma mágoa por séculos comedida.

Quem é sinhô manda

Quem é povo fica,

Sim, sinhô. E marcha de cabeça baixa…

Como peão em jogo de xadrez a dançar.

Dança meu povo a frenética dança das bombas,

dos salões de baile das avenidas,

coreografada pela política.

Dançam também as quadrilhas.

Numa grande festa que não foi feita para eles.

Que foi construída para o povo, pelo povo,

mas dela só participa rei. Dançam todos felizes em Brasília, longe do grito,

Versailles reconstruída. Democracia-demagogia.

Quem é povo, não mais obedece.

Chega de tanta obediência!

Não há mais lugar para decência, moral ou condenação.

O povo todo é um, e deve assim agir.

O povo sou eu, é você, e aquele que ainda acha que tudo é pouco.

Quem é povo grita.

Quem é povo grita.

QUEM É POVO GRITA.

Não há maior violência que o silêncio forçado.

Mas hoje o dia amanhecerá sem pena

A cidade desgarrará sua resiliência.

Não será nunca mais a mesma.

Quem é povo grita.

Quem é povo grita.

QUEM É POVO GRITA.

E até mesmo nas profundezas da terra

se ouvirá o tremor do chão

a balançar sob pés de quem não mais marcha,

mas caminha na direção do horizonte.

 

 

 

A imagem é o quadro Navio de Emigrantes de Lasar Segall. Me pareceu muito apropriado.