Fuga

 

Procurei me refazer por sobre o que sobrou dos sentimentos que neguei ter. Neguei mesmo e negaria até hoje se pudesse. Se eles não estivessem tão escritos em mim, tão sobressalentes que não fossem texto marcado com tinta de tatuagem. Mas estavam desenhados sob a minha pele, passeavam pelas veias. O caminho era longo e a estrada era monótona, mas eu me animava ainda com os pneus engolindo a terra e deixando seus restos para trás. Eu não dormia porque alguém lá em cima me guiava atentamente. Não permitia que eu me desviasse, embora me distraísse constantemente com os pensamentos indevidos de tudo que havia ficado para trás.

Abri a janela para que ventasse em meu rosto. Assim, manteria os olhos na estrada. Não fora simples colocar o seu carro para funcionar, com aquela chave entortada, mas dei um jeito. Você não teria tido paciência para isso.

Você me liga, quer que eu volte. O telefone toca misturando-se à música do toca-fitas – ainda, o carro é tão velho que tem toca-fitas e eu tenho que gravar José Gonzales em cassete pra ter a trilha sonora correta para sumir.

É mentira. Não venha me dizer que quer que eu volte. Você quer mais é que eu suma, mas o carro lhe faz falta. Você não sabe? Eu vou voltar. Como sempre. Então não me ligue mais. Me deixe. Será só um bate-volta para ver o mar. Para respirar de toda essa loucura urbana pela qual você me faz passar. Sabe, não dá para viver assim. É preciso mar, ar, cheiro de vida. Não essa fumaça asfixiante que você respira com tanto gosto, respeita com tanta vontade. Põe para dentro com tanta voracidade quanto a comida que eu cozinho. Você precisa de mim para sobreviver e nem sabe.

Você tem aflição de ver cortarem as asas de um passarinho e dó de o meterem numa gaiola, mas não vê problema em podar as minhas como se fossem rosas, achando que crescerão mais bonitas.

Qualquer dia desses pego o gato e sumo de vez. E o felino nem vai sentir sua falta. Ele gosta mais de mim. Sou eu quem dá colo, comida e para quem ele corre se eu assobio. Você bem podia não existir na vida dele.

O carro come a poeira da estrada a minha frente e penso se será agora. Se vou mesmo voltar para buscar o gato ou se me livro de uma vez por todas do fardo que viramos nós.

Faz um calor abafado de morte no deserto entre eu e meus pensamentos. Parece que nunca vou conseguir alcançá-los; alçaram-se tão longe que para chegar a seus pés eu teria que subir de foguete. Tenho no máximo um balão que sobrevoa meu chão, minha realidade, observa-a já de longe, mas não tem forças para chegar onde gostaria. Volto à terra.

Seus olhos me furam de raiva. Antevejo essa imagem. Vai querer me bater quando eu voltar. Mas não pode, não ousa arriscar. Tenho segredos seus que nem você mesmo admite incrustados no fundo do cérebro. Te conheço há tanto… Desde sempre.

Sempre volto… me desespero e volto. Já me vejo diante dos degraus da casa, o gato no muro ao lado a me esperar. Não há porque contestar que essa porta aberta me atrai. Que estar de volta é sempre bom, mesmo com aquele ar irrespirável. É o que há. É o cheiro de casa. E seu costume de deixar a cozinha cheirando a bolo às vezes me comove. Posso trocá-lo pela minha liberdade? Talvez sim. Talvez seja exatamente esse o preço da minha liberdade. O de saber que estou em casa, o de sentir-me parte de alguma coisa. Quantas vezes irei, e quantas voltarei ainda, até que eu perceba que não há caminho sem volta. Sem que eu passe um segundo sequer tentando entender minha própria identidade. Volto para dar com os traços parecidos com os meus, porém mais envelhecidos. Para ver seus olhos tristes e vagos depois que a raiva passou. Para ouvir atrocidades que você diz apenas da boca para fora. Há tanta vida lá fora. Há tanto. Quando é que você vai fugir comigo ao invés de se enterrar?

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Entre dúvidas

 

Você passeia comigo e passeia em mim. E meus olhos passeiam em você com uma espera quase ingênua de que você seja um sonho moldado em carne e fibras. Fico a contar que você tenha a coragem de um sonho e não a tristeza de uma realidade de manhã de segunda-feira. Que te aflige? Senão o passar das horas pelo seu rosto, na mudança de luz que se dá pelo passear das nuvens na janela, com nada deve se preocupar ou inquietar o seu corpo. Tempo é pouco tempo para quem sabe esperar e muito tempo apenas para quem se desespera. Não abra os olhos quando o vento estiver forte. Nem se deixe estremecer pela frieza com que alguém o trata. Para algumas situações é mais fácil se abster de sentir. Não sinta tudo. Sinta apenas o que de fato merece um outro sentido. Clareza vem também de uma escolha. A de saber com o que se importar.

Travo uma batalha com as suas preocupações. Uma fina camada de pó se acumula sobre elas. Devem ficar para trás como fotos da infância: uma recordação sem vida. Não te atinge, porque está longe, deixada no passado. A poeira deve tomar as entranhas desse brinquedo velho que é o desejo sem o sentimento que o preencheria se pudesse. Mas você insiste em o polir como se fosse de metal, sempre pronto a ficar novo e brilhante, assim que flanelado.

Deixe de polir o orgulho que a prata velha e embaçada, sem vida, tem mais a contar, porque se deixa entumecer no suor da pele de quem a usa e frequenta assim os verdadeiros bailes de quem a carrega como a preferida e não como um inútil utensílio perfeito de quem a guarda na gaveta para mais tarde.

Para que viver debaixo do tapete, quando se pode deitar sobre a grama verde e olhar para o céu? Para que se deixar ferver no cinismo; para que tanto pejo, embaraço ou rubor? Quando na próxima esquina pode haver inspiração.

 

 

Malemolência ou Delírio

 

Ando meio atravessada por uma malemolência dúbia. Não sei se é o calor, se são os dias que tem passado por mim rápidos o suficiente para que eu não os perceba. Só sei que se abala sobre meu corpo a tal malemolência, que o tempo me atravessa e não reajo.

Eu posso suportar esse calor; posso suportar porque ainda existe água. Porque posso me encher dela quando estou cansada de outras coisas, de dar voltas em mim mesma sem chegar a lugar algum. Depois de dar muitas voltas pelo apartamento, gastar um pouco esse piso que brilha demais, resta-me a parada em frente ao filtro. Gelada, entorno corpo adentro a água antes mesmo que o copo adquira sua temperatura. Posso suportar esse calor, mas não as grades. Não sei ser um corpo preso nas invisíveis grades da segurança de um quarto de hotel, do seu coração que pensa que me ama ou da sua paz de me olhar como se eu fosse algo garantido. Sabe, eu tenho pernas, e elas foram feitas para andar por um motivo. Sou livre. Posso não ter asas, mas se você me pegar discutindo futebol vai achar que possuo um belo par delas, de dragão. Não, eu não vou concordar com você, ou torcer para o seu time só para te agradar. Não há ninguém que me faça votar em político com cara de avestruz e muito menos abdicar das minhas escolhas e dos caminhos a-religiosos que eu resolvi tomar, embora eu às vezes fraqueje e reze. Eu não colocaria aquele vestido branco. Nem por você e nem por ninguém eu deixaria de fazer aquela viagem e passar o tempo necessário absolutamente longe de tudo. Nem mesmo pelos absurdos que os seus lábios insistem em sussurrar longe dos ouvidos, mas ao pé dos meus lábios, tão próximo que os toca às vezes; nem mesmo pelo beijo que incrusta o segredo mais absurdo como presa entre nossas bocas. Não há nada que me separe de mim mesma, nem mesmo você, que poderia muito bem ser confundido com um pedaço de mim.

 

 

Imagem do pintor René Magritte

Quase um Bilhete

Ouça-me bem amor,

preste atenção o mundo é um moinho

Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos

Vai  reduzir as ilusões a pó

Engulo um choro sofrido porque nele cabem todos os meus sonhos. Deixo que os sonhos desçam garganta abaixo onde devem ficar – escondidos. É preciso sobreviver, dizem eles.  Esquecer dos seus desejos e acostumar-se à frieza da vida. É, afinal, de olhos abertos que se vive verdadeiramente. Mas só de olhos fechados que se vive o que gostaria. Que grande ilusão! Que grande cinismo! Reduzir os dias a uma sobrevivência mesquinha, a uma função ou a uma necessidade. Onde está, onde estará e onde fica a felicidade senão no estar de olhos fechados mas caminhando como se de olhos abertos?

Devo alimentar de sonhos um corpo que não tem outro destino senão o de sobreviver? A que venho? A realidade é uma estúpida feiticeira. Carrega-me com ela nas costas desde pequena e é de mãos dadas a ela que caminho hoje; a morte n´outra ponta a esperar que o caminho se cumpra, que a trilha acabe, que o sonho se eternize numa falta de respirar.

Devo render-me a esse sádico destino, trair minha vontade e deixar-me adormecer pelo resto dos dias que ainda respiro? Deixar que o corpo seja levado no embalo de uma rotina áspera? Carregar nas costas o peso do mundo mais uma vez? E sorrir, para que nada pareça se passar? Talvez cante um samba para fingir uma dor menor que a minha. Se cantar a minha sou capaz de antes engasgar e voz nenhuma sairá.

O mundo é um moinho, verdadeiramente, um moinho, Cartola, a triturar meus sonhos – nem tão mesquinhos. Carrego um traço de saudade, uma nostalgia pela minha própria inocência de acreditar que seria possível. Que eu deveria, de fato, encontrar um dia comigo, conversar e acertar os modos de chegar ao abrigo de uma felicidade até sensível. No lugar encontro-me a uma tristeza sem fim que em melancolia se monta. Traio todos os meus sonhos de uma só vez num duvidar. Em que acreditarei agora, não sei. Talvez tenha que fingir acreditar, tenha que fingir um ideal ou uma posição, para suportar o quase eterno caminhar. Talvez eu termine tudo num desespero pueril de me jogar ou numa coragem abrupta. E esse sim será o modo certo de encarar a vida: negando-a.

 

 

 

imagem de Bet Orten, samba de Cartola.

Seu nome era Eva

Eva se distrai com o rádio. A faca passa a brutais dois milímetros de seus dedos, o suficiente para assustar-se com o ar que se movimentou, mas não para se cortar. Ainda atenta para o rádio, embora tenha se desviado brevemente para ver se os dedos estavam no mesmo lugar. Muito perto, pensa ela. Tira o celular de vinte e quatro prestações do bolso e telefona. A filha mais velha atende. Onde está seu irmão? Saiu. Faz tempo? Faz.

Pelo desespero, Eva teria saído naquele mesmo momento, abandonado a cebola meio cortada, enxugado as lágrimas no pano de prato e corrido ao socorro, até que tivesse certeza absoluta de que apenas cismara com uma bobagem. A praticidade a levou a arredar na ideia. Retomou o corte da cebola e o choro. Chorava por um motivo que nem conhecia ainda. Chorava usando a cebola de desculpa. Cinco minutos. O telefone nas mãos mais uma vez. Chegou? Não. E o ciclo se repetiu ao menos umas vinte vezes entre aquele momento e o fim do expediente.

Evanilde! – Berenice, apoiada no batente da porta, com a bolsa em mãos, era a única que se atrevia a chamar Eva dessa maneira. Era uma das poucas que não achava o nome da doméstica um exagero, uma complicação ou uma inutilidade. Achava que era que era e pronunciava o certo. Já a patroa, pela falta de adjetivo pior, simplesmente achava feio – desconcertada com a possibilidade de se ver reproduzindo palavra tão horrenda, apelidou-a logo de Eva, que era mais “fácil”. Berenice não se acometia pelos desejos da patroa. Sacudira sua carcaça da mesma terra de Eva, era feita do barro do mesmo lugar, balançara-se de onde o pó se levantava antes do Sol até a cidade cinza, abandonando a cor laranja com que tudo se portava de onde saíra – tudo refletia a dor e a doença do ar seco que salgava a pele e grudava as pálpebras. Não era agora, depois de tudo que enfrentara nessa vida, que cederia aos caprichos de uma dondoca – ao menos não a esse. Alguma mínima parte de sua integridade deveria permanecer. Chamava isso de orgulho. Se achava uma idealista, sem saber ou sequer ter ouvido a palavra alguma vez. Achava-se, mesmo assim, uma coisa que não sabia explicar, mas que sentia quando o sangue circulava mais rápido e lhe corava a tez. Sentia-a todas as vezes em que queria estapear as frescuras da patroa e dar-lhe uma dose de realidade nas fuças.

Eva sentia-se mais Eva do que Evanilde, como se tivesse se esquecido de sua vida antes da patroa, antes da casa, das crianças. A vida antes daquilo era um embaço – uma lama que se misturava à saliva da boca e dava ânsia. Era ao mesmo tempo uma nuvem preta e um abrigo que nunca chegava. Era uma cama sem paixão, mas com obrigações – isso não havia mudado. Não era Evanilde mais, era Eva. A única que ainda lhe fazia lembrar a desgraça de sua vida anterior, obrigando-a a não se queixar da atual, era Berenice. Embora Berenice fosse astuta para falar pelas costas, diante da patroa se portava como uma lady, na medida do possível. Era cortês e dinâmica, prestativa, eficiente. Seu café era gostoso. Seu caráter impecável. Eva se fiava na força da colega quando havia um momento mais difícil. Esse era o dia, pensava. Não saberia se resistiria.

A espera foi longa. Notícias ruins chegam rápido, mas quando se espera por elas, o tempo se estica. Foi uma longa noite de vela e de angústia. O rádio de sua pequena casa tocava agora músicas românticas. Roberto Carlos cantava Pai. Eva se assusta com a maçaneta girando, o barulho de chaves. Uma pequena esperança renasce e arde dentro de seu peito cansado. Entra o bêbado-clichê, marido da doméstica-trabalhadora. Andava sumido já havia dois dias. Voltava para casa com a mesma cara da saída. Eva rezava todos os dias para que um dia ele fosse e não voltasse nunca mais, que se perdesse no caminho. Separados há anos, ainda o aturava sob o mesmo teto porque só havia aquele. E a escritura estava no nome do traste. “Pai, senta aqui que o jantar tá na mesa, fala um pouco tua voz tá tão presa / Nos ensina esse jogo da vida, onde a vida só paga pra ver”. Eva se questionou se deveria ou não dizer o que havia ocorrido – nem sabia se havia ocorrido alguma coisa, mas seus instintos de mãe e as circunstâncias não indicavam o contrário. O cheiro de pinga era forte, mas percebia-se que o traste não estava de fato bêbado, apenas cansado e sonado da gaiatisse que fizera nos dias anteriores. Sujo, sem banho e com cara de bordel e ranço. Sentou-se na única cadeira restante diante da mesa e balbuciou alguma coisa como “não se põe mais comida nessa mesa”. Eva teria argumentado, esbofeteado aquele merda, mas não era dia para isso. Apenas calou-se. Quanta miséria, pensava ela. Quanta migalha!

O dia já nascia baixo e coberto de neblina quando o telefone tocou. Eva havia adormecido um sono leve e insuficiente, apenas o inevitável, aquele que os bocejos não foram suficientes para retardar mais. Do outro lado, a voz é a temida. Ao menos está vivo. O que fizeram ao meu filho? Meu filho não fez nada. Tenho certeza. Bem, a Senhora que se dirija à delegacia, fazendo o favor, com seu advogado. A ocorrência já foi registrada, mas em tratando-se de um menor infrator, é preciso que se registre a ocorrência com o responsável.

O menino parecia um passarinho acuado. Jogado ao canto com vergonha de si mesmo por existir, parecia ver-se enlaçado num pesadelo do qual não acordaria senão com um balde d´água. E o balde veio. A vergonha era tão grande! Mas a mãe do outro lado das grades era uma afronta ainda maior. Vê-la escutar os desaforos dos outros presos. Ter que engoli-los antes de revoltar-se. Era preciso não arrumar mais encrencas. O que seria da mãe sozinha se nem ele estivesse em casa para lhe cuidar, pensava. Que seria da irmã? Com aquilo que chamava de seu namorado – a cega -, não via que estava armando sua própria arapuca e que seria a vítima de uma jaula igual a da mãe. O pequeno era grande por dentro, mas sua ossatura e músculos não eram suficientes para esbravejar. Como fez com a polícia, fez com os outros detentos: calou-se, prevenindo qualquer mal que pudesse. Fez de seu corpo um abrigo. Prometeu fechar as orelhas e manter os olhos abertos apenas por educação. Esqueceria tudo aquilo. Esqueceria… Não, não esqueceria.

Quanto mais rezava, mais as coisas se complicavam. Agora já era visita em dia certo, não mais a suja delegacia. Tentava se proteger dos meninos mais fortes. A idade era a mesma, mas enquanto ele era apenas um pequeno pássaro, os outros eram águias famintas. Fizeram dele o que quiseram. Os guardas riam-se da covardia. Não queria acumular memórias, mas elas se amontoavam numa gaveta de sua mente que tentaria para sempre fechar. Às vezes se abriria para atormentá-lo. Queria fugir, mas os muros eram altos. E havia a mãe. Não era a hora de fugir, mas de se conformar. Se ao menos pudesse provar que não fora sua culpa. Se ao menos pudesse desmentir os polícias. Mas quem acreditaria num garoto? Quem acreditaria no assobiar tímido de um passarinho, enquanto os brutos urravam a desonra?

Não deu dois meses, Eva perdeu o emprego. As patroas do prédio munidas de seus preconceitos e futilidades, logo decidiram que não havia lugar para mãe de presidiário naquele condomínio. Ninguém se importou em saber se era justo ou não. Nem achou-se estranho que, sendo Eva uma mulher de tanta integridade, sua cria fosse exatamente o contrário. Não. A segurança acima de tudo. Naquele mesmo imediato mês aprovou-se uma subida de mais um metro no muro em toda a volta do conjunto de edifícios e o acréscimo de uma cerca elétrica, mais duas portarias eletrônicas e a troca de todos os funcionários do prédio por uma empresa terceirizada confiável – e por confiável entenda-se a empresa de algum dos condôminos. Eva recolheu as tralhas, recolheu o nome, engoliu o orgulho em troca de uma carta de recomendação e prometeu não confissionar nunca mais seus problemas a ninguém, exceto Berenice.

Encaminhou-se em direção ao elevador de serviço, poucas tralhas e a carta de recomendação em mãos. Quebrado, como sempre. Voltou para traz. Apertou o botão e torceu para que o outro elevador estivesse vazio. Não estava. Abriu a porta para ver caras feias se fazerem. Fechou de novo a porta, se encolheu mais um pouco, voltou. Sobrava-lhe a escada. Não queria ver mais caras feias. Ela era menos que os outros. Sempre seria menos diante das pessoas do elevador social. Mesmo havendo espaço para seu pequeno corpo, o espaço tornava-se infinitamente menor quando os olhos das “pessoas importantes” se colocavam sobre ele.

Chegou à casa abafada, as janelas fechadas. O traste não dava sinal havia quatro dias. Será? – pensava ela. Ao menos isso podia lhe acontecer de bom. Ligou o rádio. Sentou à mesa. Pois-se a fazer contas. Seria um longo mês, sem o salário certo. Sua mente percorre momentos passados. O dia da festa de seu casamento. Usava um vestido tramado que pareceu-lhe bonito no corpo. Sua mãe chorara. Tinha só catorze anos. Ele mais de trinta. Parecia uma boa promessa. Pensou no primeiro filho, no segundo – que virou anjo cedo demais -, e na menina. Todos seriam sempre muito pequenos, mesmo que não coubessem mais em suas mãos. Eva olhou à sua volta em busca de coisas que pudesse vender para garantir mais algum tempo. Não havia nada. Mesmo o rádio era velho demais para ser vendido.

Botou a cabeça para fora, pela janela. Precisava de ar. Os moleques das outras mulheres brincavam na quadra improvisada no conjunto habitacional. À sua frente, muitos andares de favela, com suas ruelas estreitas se desenhavam e faziam uma linha tortuosa no céu.

Viu a tarde se tornar noite. Pensou em andar até o culto. Em ouvir música e uma palavra de consolo. Em ouvir o pastor gritar os gritos que não tinha coragem ela mesma de esboçar sequer. Desceu as escadas – ao menos não precisava se preocupar com o elevador -, andando firme em direção à igreja. Estancou em frente ao bar. O traste apoiava-se no balcão de fórmica, quase inconsciente. Um microfone pendurado. A banda pronta para tocar. Naquele pedaço de favela que era também virado para a rua, para a cidade legalizada, os bêbados entretinham-se com os copos, as mulheres com os bêbados, e os sóbrios com as mulheres. Eva sabia que no dia seguinte estaria na casa de uma nova patroa. Que o bêbado voltaria para casa, mendigando seu próprio teto. Que o filho não sairia da prisão porque não havia dinheiro para safá-lo. A filha, estava perdida nas mãos de uma jaula como a sua própria. Que faria sozinha nesse mundo? Que faria de si mesma? Sobreviveria, apenas. Sobreviveria?

Caminhou em direção ao microfone que sobrava sem dono no palco. Puxou o fio, e começou. Cantou a única coisa que sabia cantar. Com a pouca paixão que ainda lhe restava, puxou as palavras de Roberto Carlos

Menina / Me ensina / O que eu ainda não sei / Me fala / De coisas / Que eu nunca te falei.

Berenice, que passava pela calçada, escuta a voz que já ouvira cantarolar antes pela casa, fazendo a faxina. Espanta-se de ver a amiga no palquinho, saia até os joelhos, cabelos presos num rabo baixo. Era tão judiado aquele rosto. Era judiado como o seu próprio, reconhecia Berenice. Mas era mais doce que o seu. Mais triste. Como se pedisse um afago.

Segredos / Me conta / Me aponta, me diz / Me beija / Me abraça / Me faz feliz.

Eva continuava ecoando as palavras pelo microfone que às vezes falhava.

Me olha / Me embala / Me pega do seu jeito / Me agarra / Me esfrega / Me aperta no seu peito.

E quando / Na cama / Se deita / Me ama / Se esquece de tudo / Num grande amor. Vive nos meus sonhos / Mora em minha vida / Rola no meu corpo quando quer / Beija a minha boca / Dorme em meus braços / Chamo de menina essa mulher.

Te amo / Menina / Você não sabe quanto / Perdido / Me encontro / Na selva deste encanto / Às vezes / Confuso / Abusa de mim / O nosso amor é sempre assim.

Os hinos da Igreja já começavam a se misturar aos versos do bar, escutados ao longe. Berenice observa a amiga descer do palco e se dirigir a ela. Eva tem olhos meigos, baixos, dóceis. Os de Berenice são grandes e fortes. É toda sua feição um pouco bruta, mas seria bonita não fosse o tempo e o Sol. Berenice acolhe Eva nos braços. Pela primeira vez em muito tempo, há choro. Um choro quieto, calado, quase seco, apenas soluçado.

Eva se aperta no peito da amiga. Berenice a leva apoiada para casa. Estão debruçadas uma sobre a outra. Estão as duas no único lugar que conhecem em que não há dor: entre as suas confissões. O Sol finalmente se põe e é escuro. Amanhã será outro dia de luta. Mas esta noite será de rendição.

 

Dedico este conto à Flavia.

As imagens são obras do pintor Paul Gauguin.

Na Sua

Pássaros mortos num cinzeiro, a espera de um gato que os coma. Mas o gato não se interessa por aquilo que não pode mais bater asas. Que vire cinzas! Fascina-se com a liberdade que pretende acorrentar, mas não sabe se deleitar numa entrega voluntária. Serão só cinzas os olhos que me engolem ou será que ainda brilham numa faísca falsa? Febrila uma luz amarela e embaçada. Tremula impura sob as pálpebras, como as mãos que as esfregam, rejeitando as lágrimas que se aproximam da superfície, que custosamente esmalta a íris, antes seca, e molha os cílios. Mãos sujas, olhos limpos. Impregnados os dois de uma mentira que não se apura jamais.

Você se vira de lado. Dissimulado. Meu corpo de gato se aninha na sua recusa. Vejo de longe o seu contorno girar para que não o desminta; para que você não se traia. Se não vejo seu rosto como posso saber, meu bem? Mas seu pescoço o trai. Suavemente inclina-se para o lado o suficiente para que seu perfil trace enfim os meus contornos lentamente, enquanto a boca simula uma respiração calma. Seu coração acelera quando você faz isso, não acelera? Seus lábios tremem. O fingimento de sua respiração é inútil. Suas mãos suam. Vejo-o retrair os dedos, encolher as falanges num movimento desenhado. Você tenta disfarçar o suor que percorre da palma às unhas. Agora coloca as mãos nos bolsos. Você está me vendo sorrir em sua direção; sabe que estou marcando um território que, de fato, já é meu, mas tenta de todas as maneiras não me dar certezas. O que você não entende é que o farejo de longe. Sinto seu corpo responder ao meu através do ar que se rarefaz à nossa volta – nós o consumimos rapidamente. Você exala o que não pode segurar, sinto o cheiro da sua vontade de me possuir. Vejo o seu peito levantar com um suspiro profundo. Você nem está prestando atenção ao que aquele sujeito à sua frente tenta provar. Às vezes você ri. Rir é o mais antigo fingimento que alguém pode fingir. Quem inventou foi uma mulher antes de mim, seu nome se perdeu na pena de algum historiador.

Aquela fresta por onde eu sempre entro, vou escancará-la da próxima vez – vou entrar pela frente em todos os seus pensamentos. Me perdoe se eu me exaltar, mas é preciso um grande gesto. Quero te desconcertar. Melhor que isso, quero te governar. Nós vamos dar uma festa e eu descerei a escada da sua casa escorregando pelo corrimão, para comemorar a tomada da sua ilha. Não se abale, nem discuta. Eu não vou ouvir se o fizer. No fim sabemos os dois que só há espaço para mim nessa fissura que você enseja, deseja e almeja. Que o meu espaço está exatamente entre a largura do alcance dos seus braços. Dançarei nesses limites.

 

Vou lhe fazer rir, mas não vai ser fingimento. Quando o sangue estiver passeando de euforia por todas as partes de seu corpo, se deixe sorrir. Serei eu a provocá-lo de perto, a dizer besteiras no seu ouvido. Vou dizer as verdades que você teme sentir. Se eu passear pela sua pele com a minha, você responderá com um arrepio, ou será seu corpo a produzir uma oração. Minha boca hipnotizará a sua, até que não haja mais uma parte sequer que consiga dizer não. Você vai se entregar até que a entrega seja minha. Quando minha curiosidade acabar, você se tornará algo mais delicioso e enigmático. E vou querer, mais uma vez, me enredar nessa cama de gato.

 

a foto é de Ruven Afanador

Entre quatro paredes (ou quatro parágrafos)

 

A sala se movimenta a nossa volta. O apartamento desarma as cortinas e as enrosca em nós dois. A luz que entra pela janela é de velório. O morto está dentro de nós. Olhamos para a cama como se ele estivesse ali, mas não está. Quando percebemos, é a cama que nos observa, por detrás da porta meio-aberta do quarto; nem se abre, nem se fecha.

Ou você se abre ou tranca a garganta. Das suas mentiras eu já me cansei. Se você me traiu, que traia; se me esqueceu, que esqueça. O que eu sinto continua sendo exatamente a mesma coisa, só que com raiva, só que amarga. A sua boca amarga com o gosto da nossa separação que não vem, que não existe. Não há você sem mim. Nascemos no mesmo dia, na mesma hora, no mesmo minuto – aquele minuto em que nossos olhos se chocaram, naquela mesma dor solitária que se findou no começo de uma confusão abrupta. O piso se desloca. Você vai se segurar em meus braços ou vai se jogar no chão? Nesse mesmo chão eu e você já choramos, já nos batemos, já nos amamos. Esse chão sempre foi nosso confessionário. Conte a ele seus pecados. O fogo está atravessando seus olhos e você me diz que não há nada, que sente o frio se alojar entre nós dois como uma voz anunciando o fim do mundo. O mundo que se acabe a nossa volta! O apartamento é o mesmo, as cortinas, as mesmas, nada mudou. Fomos nós dois então? As paredes não são mais estreitas. Lhe parece que são? A cama. O morto. A única coisa que me ocorre é necrofilia. Quero amar esse morto tanto quanto o amava vivo. A mortalha servirá de véu no nosso casamento. Nós vamos nos casar, você sabe? Debaixo daquela árvore que você odeia. Com seus galhos tenebrosos. Eu te asseguro meu amor: a única coisa que você deve temer não são nem os galhos da árvore, nem o fim do meu amor, mas a você mesma. Dentro de você uma cobra se aninha. Será o nosso fruto ou o fruto de uma traição? Será você mesma a se trair, ou será alguém além de nós a tomar-lhe a mão?

Deixe-me beijá-la como a morte que chega sorrateira, soprando nos ouvidos dos velhos e dos recém-nascidos. Mordiscarei sua boca para sentir o denso e tenro gosto do seu sangue novo a pulsar pelo corte imprimido por mim em seus lábios. Há uma desonra tão grande no seu negar, que seu sangue mereceria ser limpo. Quem sabe o meu amor não o faça. Quem sabe eu não desista e bata asas para as profundezas de onde você saiu, em busca de outra como você ou de uma resposta para essa sua dor que não compreendo.

Você não se importa. Procura pela janela, uma saída. Tome um gole, engula, agora me diga de novo a mesma sórdida maliciada mentira. Você não pode. Mas quer. Sua boca quer dizer, sua cabeça quer falar, mas seu corpo denuncia. Seus olhos compartilham a minha dor e a gravidade parece não existir quando nos encontramos. Naquele estreito segundo em que eles se livram das amarras de sua expressão, brota aquela pequena verdade, aquela enorme verdade. Não diga nada. Seus olhos são mais que o suficiente. E quanto mais você se esconde, mais se entrega. Ainda são meus os seus olhos. Seu corpo transpira. Exala as palavras escondidas. Sua boca, ao contrário repete o mantra até o fim. Uma ladainha sem nexo. Pare de se explicar. Apenas se renda. Não quero suas instruções de uso e suas ávidas tentativas de manualizar-se como um objeto. Tudo bem sentir, meu amor. Tudo bem não saber mais como agir. Descalça e desarmada. Vamos desenterrar um corpo. Vamos, Viva. Transita nas suas mãos a vontade e a centelha como um baralho de cartas sendo misturado. Me pergunto se seu truque final será desaparecer. Seus dedos se encolhem contra o parquet, arranhando o verniz. Você se unha, nervosa. Depois desmonta. Se a batalha fosse o fim da guerra, eu ganhava. Há todos os dias a mesma batalha. E é sempre uma nova batalha. Não importa. A de hoje deixaremos no passado. Com a de amanhã nos preocupamos quando a encontrarmos. Por hora, deixe-me descansar nos seus braços.

 

essas imagens instigantes são da fotógrafa Lauren E. Simonutti
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