Espaço

kyle_Thompson

Estico os dedos, estalo os joelhos e me viro de lado na cama. Não há outro corpo. Há o estio. O vazio da madrugada que se enche de névoa. Há um espaço entre mim e a minha própria pele. Há o ópio de um sonho que se espalha nas minhas narinas. Na imprecisão, uma inquietude, uma costura torta, uma deformação ausente no lençol, tão arrumando, tão preciso, tão impreciso. Quando o desarrumado parece mais certo que o alinhado, é quando se sabe estar realmente vivendo. O resto é um espaço de tempo entre isso e aquilo. Entre esse vazio e o que poderia existir.

Há o vislumbre da manhã, nos mesmos lençóis em que há uma falta, há uma presença: da tênue luz lunar que invade o quarto a me dizer que ainda não é hora de estar acordada, mas envolta em prata de sonho. Mal emerge no mundo, você já imerge no sonho. Ninguém se atreve a acordar a pequena réstia de esperança que nasce – do asfalto? De dentro? Do nada. Deixa-o a dormir dentro da lembrança do que poderia ser.

Um broto. Guarda dentro de si uma expectativa. De sim. Um espaço. Que espera ser preenchido por tempo. Espera ser preenchido mas já está cheio de uma coisa insubstituível e amarga que se alastra. Quanta falta e quanta existência! Numa só ausência de essência, é flagrante a decepção do ruidoso cheiro de lençóis limpos. Quanta matéria desfalece num só sopro de indiscrição. Numa desatenção que poderia passar desapercebida por olhos menos atentos, por vidas menos importantes, por pessoas menos de carne, mais do mesmo. Mas não passa e desata. A batida da pequena asa da borboleta que vira-se em tufão. O pedaço de fita sem laço, só ponta solta. O resto é um rolar outra vez para o outro lado da cama e ver a fresta da janela aberta ao invés de todo o tudo que nada o é porque não pode ser.


fotografia: Kyle Thompson

Um Lugar no Passado

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Tirou do armário o terno do homem que eu jamais conheceria e alisou a lapela. passou a palma aberta, cheia, pela lateral. Esfregou os dedos no tecido da borda. Observou o vazio entre os ombros do cabide. Peguei o objeto nas mãos, segurei firme na parte debaixo, de madeira, olhei para as minhas mãos que pareciam apertar o ombro do paletó – não senti que era certo segurar apenas com os dedos o cabide pelo pegador; me parecia um gesto muito leve. Aquele era um terno pesado. Postado num cabide pesado. E até mesmo a poeira que havia se acumulado sobre o tecido era pesada. Uma poeira de muitos anos. Pensei na morte. Em como ela viria sorrateira me levar um dia, deixando ternos pelo armário; pensei na velhice dos meus pais, que aos poucos chega. A morte me acompanhava naquela semana. Não era o seu primeiro sopro. Era um cabelo branco a mais que eu havia encontrado no topo da cabeça, um olhar menos brilhante, mais embaçado no espelho, uma lágrima a mais que eu tinha deixado cair na quinta-feira, e mais um parente que se ia também num velório um pouco denso de manhã fria, o caixão muito pequeno para os ombros largos do homem que eu conheci e finalmente o preenchia, após longa espera sem descanso; eram as flores que teimavam em viver e em serem roxas, as velas apagadas no pacote de plástico; eram as minhas mãos mais ásperas e minha pele mais sensível, uma dor nas costas e outra nos joelhos, uma sensibilidade ao frio que eu antes não tinha, um desejo de não querer colocar o nariz para fora com exaustão acumulada sobre os meus pensamentos. Olhei à volta, à idade da minha genitora, que agora buscava mais fundo no armário. Pensei nos livros sobre a estante, com a capa já apagada pelo Sol. Observei outra vez a constituição do paletó. Azul escuro. Meu avô era um homem magro, pensei. O contrário de minha avó, que é uma italiana forte. Não há cheiro, senão o de guardado. O tempo já passou e o levou.  Tenho vontade de vestí-lo, mas sinto que não é o meu lugar. Atravesso as portas do armário, as portas do tempo, através do nó em minha garganta. Um nó seco que não desata. Ainda agora, o sinto.

Há coisas que não se misturam, que não conviverão jamais. Que não verão uma à outra. Para cada Orfeu, uma Eurídice. Um olhar para trás que dá na largura entre os ombros do cabide, um espaço que já foi preenchido mas não pode ser jamais tocado com os dedos.

Amor. Quando minha avó estica os olhos sobre o paletó, eles se enchem e se esvaziam ao mesmo tempo. O presente os deixa e são tomados por uma imagem que eu desconheço. Pertence apenas a ela. A ela e a outro tempo. Um tempo dela. E dele, que antes ocupava aquela ombreira que eu seguro entre os dedos. Ela suspira. Sacode a cabeça como se quisesse que os pensamentos caíssem para trás. Volta ao trabalho maquinal de busca pelo armário. Puxa um casaco do meu tamanho. Vê? Já caibo num casaco que sai do armário. E o armário volta a esperar o casaco. Entre existir e não existir há apenas o tempo de uma espera. A espera por um lugar no passado.

Foto de Chloe Aftel

Rubro Uva

 

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A mesa coberta pela toalha de linho manchada de suco de uva que não sairia jamais dava o tom a todas as outras coisas. Eram todas velhas, habituais, cansadas da sua constante e impensada presença. Não havia pó porque era tudo limpo com muita frequência. Mas certas coisas como a mancha de suco de uva persistiam. Velhos hábitos também se acumulavam. Juntavam-se a eles todos os dias novos hábitos familiares ruins e rotineiros, constantes e impensados, assim como a mancha rubra na toalha.

 

A mão acidentalmente esbarra mais forte na porcelana. Os beijos são sem querer mais rápidos. As palavras são por descuido um pouco bruscas. Minhas respostas já manjadas, mas a pergunta perpetua.

 

Preciso de uma outra história.

 

Meus olhos buscam, mas o que encontram são os azulejos da cozinha – sempre mais gastos, nunca menos.

 

A gente briga. E você quer saber o que eu quero que você diga dessa vez. O que eu quero que seja diferente. Eu não sei. Os olhos continuam fixos no azulejo. Sinto uma falta que não pode ser saudade porque não tem nome. Não sei do que sinto falta. Mas há o vazio. Que mesmo não tendo nome é uma grande presença também já gasta e constante.

 

Você gesticula e esbraveja. E de repente o acidente é a sua mão relar na minha. Seus dedos passam por cima do dorso da minha mão rapidamente. Tudo para. O suco começa a dissolver-se no ar. Os azulejos ficam mais novos. A falta tem nome. É uma saudade que tem resposta. Num silêncio que não se fazia há tempos, sua mão volta a tocar a minha. Cobre-a desta vez. Estão as duas sobre a mesa e observamos o acontecimento como um milagre. O que não se pode dizer, a gente entende em um toque.   É só não esquecer que a intimidade entre nós tem cor mais forte do que o rubro esmorecido da mancha na toalha.

 

foto de Olivia Bee
Música de Daughter
texto por Mariana Martins

Contraste

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Contraste é exatamente aquilo que nos destaca da terra onde pisamos e também aquilo que nos faz parte dela. A cor, a textura, a vida. Contraste é aquilo que nos conecta, que nos dá sentido. O contraste completa. Para que um degrade enjoativo quando se pode fazer a união pela diferença? Junta o teu no meu e teremos tudo. Junta os pedaços, os cacos e as trilhas; os nomes, as histórias, as feridas. Faremos um só caminho com o que sobrar da descrença. E será mais inteiro que toda a presença do que retrai. Sobressai; é melhor. Distrai, contrai só se for para expandir.

Me deixa chegar mais perto, onde os teus olhos penetram a retina dos meus inconscientemente – uma vontade que vem de um lugar mais profundo e que te ordena. Espalha. Transpõe os limites e haverá além. Onde o corpo não mais alcança é onde as almas se encontram. Sabe onde fica esse lugar? Mais para lá, depois daquela curva, por onde passam os teus desejos, querendo desaperceberem-se. Querendo se esconder, se mostram.

Diz mais uma vez o que a tua voz silenciou antes que deixasse vibrar o ar. Transparece a tua força numa só expiração, a mais prolongada depois de um longo conter. Distrai mais uma vez. Que a falta de pensar é que leva à maior das consciências. Subtrai para multiplicar somada a essência. Teus dedos disparam no toque da minha pele. Sinto teu coração bater neles. Também teu sangue quer transpirar e voar. Deixa, liberta, que o afago vem do transcender os limites das próprias esquinas. Deixa tuas palavras de luva me cobrirem de significado. E a tua pele me envolver como se fôssemos um fluido pegajoso e homogêneo. É a mistura que faz a receita. Cola. Para ter liga e continuidade o que começou num reconhecer de iguais que são diferentes. Conecta a tua linha na minha e costuremos um fio contínuo de eletricidade. Um rastro de energia contagiante. Um fogo que acende por onde passa. O fogo que contrasta no breu da ausência. Sê presença enquanto houver calor que emane.

Transponha. A ponte da música está aí para ser superada, onde explode o sentimento que se arrasta por toda a letra e melodia antes de se tornar refrão. Cruza na minha direção, que o meu caminho sozinho é muito sem-fim e eu quero um recomeço.

Atravesso as horas, os dias e as noites a pensar se é possível que nossa contradição possa ser enfim um desenrolar.

 

fotografia de Kim Boske

Pesos

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No seu ombro pesa uma cabeça incômoda. Quem é você a meu lado? Quem é de fato esta cabeça que se apoia sobre mim senão um peso. O peso de um passado talvez? O de uma ideia gasta. Seu corpo se afasta o mais que pode. Cola-se à outra extremidade da cadeira, ora para frente, apoiando-se tão na ponta que quase cai; ora apenas distancia fingindo um comentário com o espectador vizinho. Não quer estar ali. Mas quer. Quer um conforto que não mais existe, de alguém que é apenas uma lembrança, ou que melhor seria desta forma, porque como lembrança não pesa. E a cabeça pesa. Sempre mais do que o ombro está disposto a comportar. A dor já abarca o pescoço. Seus ombros serão largos o suficiente?

Você poderia ser muito mais do que é, caso se livrasse do peso. Não dela, seu idiota. Ela deve ser uma pluma encostada no ombro de quem a queira. Mas o peso que você insiste em carregar pelo que não sente – chamemos de culpa – não vai sumir. Sentir é algo que ninguém, nem você mesmo, pode obrigar.Trai mais do que você é capaz de trair. Não ela! A culpa. Nem me venha com papo de nada está acontecendo.  Aquela cabeça sabe tanto quanto a sua que tudo isso não passa de uma mentira, um fingimento vulgar.

Testar seus limites. É esse o objetivo? Eu já fiz isso. Durou muito. E junto veio uma tristeza tão profunda e negra quanto o silêncio da floresta de Aokigahara. E a crença de que tudo ficará melhor com o seu esforço está tão velha que nem você mais acredita, mas vem um dia e depois outro. Vem um dia difícil; um pior depois. Mesmo assim, você se convence que aquela cabeça no seu ombro pesará menos daqui a algum tempo.

Não vai pesar quando for um gosto ter por perto os cabelos e o cheiro de quem você ama. Sei que você acha que não dá para isso. Que não existe ninguém. Mas um dia vai entender – o dia em que você tiver o ombro livre para perceber.

Sem falar da violência absurda. Eu não a conheço. Posso dizer entretanto e apenas que feliz ela não é. Se fosse, também faria você feliz. Que homem nenhum pode ser infeliz ao lado de uma mulher que esteja feliz. Mulher feliz é tão contagiante que ser infeliz a seu lado não só é um crime, como é também impossível. Se fosse possível, seria inafiançável.

Sabe aquilo que te incomoda? Isso… aquela cabeça de gente no seu ombro: pesada, quente, e de um perfume que agora você rejeita e estranha. Se livre do incômodo. Pare de arrastar o passado, que ninguém se move com um fantasma pendurado no pescoço.

foto de Olivia Bee
música de Florence and the Machine

Aracnídeo

 

olivia_bee

No escuro dos meus pensamentos mora uma aranha a tecer: tece, sempre tece como se tricotasse as linhas obscuras de um grande outro pensamento maior, inquieta com o anterior; uma teia de ideias catastróficas, pérfidas; ideias indiscretas que não se pode ignorar. Desconexas.

Minhas ideias são essa gosma que é a brancura da teia. Não é uma linha, é uma cola, uma lama que atola, uma falha por onde se despenca, uma fenda – ou atalho? – por onde se escorrega. Me escondo nela.

Quão branca pode ser uma teia antes que seja surpreendida no escuro por um olhar mais atento? O espaço acarvoado produz uma branca luz em seu interior, preenche-se.

Trabalha aranha… trabalha a aranha dos meus pensamentos e das minhas dores. Trabalha e talha numa agulha ou descida de corda, numa só lançada, a laçada, a trama. Desdobra. Se amalgama. Num atalho colado ao outro se espalha, se torce, se encolhe, se atrapalha.

Quão grande pode ser uma teia sem que se grude a ela uma outra camada, um bicho, um alguém? Sem que outra teia a interrompa no ar. Sem que se torne uma malha. Quão brilhante é a prata da teia para que se destaque do resto, do abismo que a sufoca, engloba, embala?

Uma coruja pia. Tece, tece aranha. Temos pouco tempo já. Chega o momento em que é preciso ter resposta para tudo. Quanto tempo? Quanto tempo será aranha? Pressinto sua chegada, mas não sei contar os dias. Quantas horas há entre o céu e a terra? Quantas haverá entre o inferno e o teu saber? Sabe aranha? Quem saberá dizer? Certamente não os bichos que prendes à tua gola. Quantos meios haverá antes do fim, também não sabes. Por isso, continua a tecer. A música do teu violino é concebida entre as presas. Que gosto será que tem? Elabora a fórmula na tua sutileza, nos teus ingredientes de feiticeira: asa de morcego, sangue de barata.

Aranha, tece, cria, inventa,

mas não embaraça.

 

 

 

foto de Olivia Bee

Presença

Suas mãos seguravam meu pulso com uma força ávida por ação, enquanto minha fina camada de pele sobre os ossos e sob seus dedos se debatiam sem sucesso. Queria me libertar, mas seus olhos me perfuravam a retina insistentemente. Os subterfúgios de minha mente não eram suficientes para que eu me pudesse afastar; estava presa.

Os penetrantes raios de memória irradiavam uma camada tão tênue quanto a da luz ao refletir-se na poeira, perpassando o bloqueio automático que meus ouvidos criaram para não perceber sua chegada; eu a reconhecia, nem tanto pelo som, mas pelo abalo da atmosfera ao meu redor, se propagando pelo meu labirinto.

Suas explicações eram vagas, mas pouco me importariam, ainda que fossem as melhores. De fato, eu não escutava nem via, mas sentia tudo como se estivesse derretendo ao permanecer ao lado de sua incessante presença de chama. Quero me esquecer, mas quando dobro meu corpo sobre ele próprio na cama à noite, sinto o peso de seus braços se acomodar sobre a minha cintura, e sua respiração aquecer minha nuca. Este sonho sempre me alcança antes de todos os demais sem dó, como se o abraço fosse um acompanhante necessário para toda a aventura que me apresentaria Orpheu.

Quem é você que não existe, mas ocupa um espaço tão volumoso? Um cheio que não preenche; que esvai e traga devagar. Pertenço a uma coisa que não existe, um corpo que não tem massa, um copo que não tem líquido, um livro sem palavra ou página. Sua forma tem apenas tempo; um tempo que não se cora; desvia da morte, mas não se acende; não torna, nem desfaz, nem cola: a cola seca e velha do que não pode mais ser construído, a não ser que se rasgue para recomeçar. A cera escorre para te anoitecer, enrubesce no fogo o desenho carnoso das maçãs suculentas a cair do Éden – uma mentira que suga a pureza. Cabe na sua curva uma sentença, que destrói a flor no veneno da saliva que a enlaça.

Não há vida no passo lento da nossa separação, ou no descompasso da nossa junção. A distância não é suficiente nem para mais, nem para menos; e seu cheiro sufoca até o jasmim: sofre por não ser mais o perfume que se sobrepõe a todos. Pouco me interessa a beleza cândida desprezível da flor enquanto cheira, mas quando você se sobrepõe, resta-me apenas admirar a branca cor das pétalas, mergulhando-se em amarelo opaco. Reparo em coisas que não tinham antes qualquer vida, um mero interesse.

Cessa a brisa num golpe de calor abafado. Estanca a hora. O seu olhar ganha forma; uma forma que ainda é incerta, mas se aproxima o suficiente para que já a veja; através da sombra, uma íris brilha.  O que era uma falta é já uma presença insólita: o fantasma se afasta, mas logo o substitui uma sombra. Suas mãos seguraram meu pulso com força. Quero me libertar, mas sua presença me consola. Prefiro uma vaga ideia, a uma substancial solidão.

 

 

Foto de Victor Cobo