Um Lugar no Passado

Chloe_Aftel7

Tirou do armário o terno do homem que eu jamais conheceria e alisou a lapela. passou a palma aberta, cheia, pela lateral. Esfregou os dedos no tecido da borda. Observou o vazio entre os ombros do cabide. Peguei o objeto nas mãos, segurei firme na parte debaixo, de madeira, olhei para as minhas mãos que pareciam apertar o ombro do paletó – não senti que era certo segurar apenas com os dedos o cabide pelo pegador; me parecia um gesto muito leve. Aquele era um terno pesado. Postado num cabide pesado. E até mesmo a poeira que havia se acumulado sobre o tecido era pesada. Uma poeira de muitos anos. Pensei na morte. Em como ela viria sorrateira me levar um dia, deixando ternos pelo armário; pensei na velhice dos meus pais, que aos poucos chega. A morte me acompanhava naquela semana. Não era o seu primeiro sopro. Era um cabelo branco a mais que eu havia encontrado no topo da cabeça, um olhar menos brilhante, mais embaçado no espelho, uma lágrima a mais que eu tinha deixado cair na quinta-feira, e mais um parente que se ia também num velório um pouco denso de manhã fria, o caixão muito pequeno para os ombros largos do homem que eu conheci e finalmente o preenchia, após longa espera sem descanso; eram as flores que teimavam em viver e em serem roxas, as velas apagadas no pacote de plástico; eram as minhas mãos mais ásperas e minha pele mais sensível, uma dor nas costas e outra nos joelhos, uma sensibilidade ao frio que eu antes não tinha, um desejo de não querer colocar o nariz para fora com exaustão acumulada sobre os meus pensamentos. Olhei à volta, à idade da minha genitora, que agora buscava mais fundo no armário. Pensei nos livros sobre a estante, com a capa já apagada pelo Sol. Observei outra vez a constituição do paletó. Azul escuro. Meu avô era um homem magro, pensei. O contrário de minha avó, que é uma italiana forte. Não há cheiro, senão o de guardado. O tempo já passou e o levou.  Tenho vontade de vestí-lo, mas sinto que não é o meu lugar. Atravesso as portas do armário, as portas do tempo, através do nó em minha garganta. Um nó seco que não desata. Ainda agora, o sinto.

Há coisas que não se misturam, que não conviverão jamais. Que não verão uma à outra. Para cada Orfeu, uma Eurídice. Um olhar para trás que dá na largura entre os ombros do cabide, um espaço que já foi preenchido mas não pode ser jamais tocado com os dedos.

Amor. Quando minha avó estica os olhos sobre o paletó, eles se enchem e se esvaziam ao mesmo tempo. O presente os deixa e são tomados por uma imagem que eu desconheço. Pertence apenas a ela. A ela e a outro tempo. Um tempo dela. E dele, que antes ocupava aquela ombreira que eu seguro entre os dedos. Ela suspira. Sacode a cabeça como se quisesse que os pensamentos caíssem para trás. Volta ao trabalho maquinal de busca pelo armário. Puxa um casaco do meu tamanho. Vê? Já caibo num casaco que sai do armário. E o armário volta a esperar o casaco. Entre existir e não existir há apenas o tempo de uma espera. A espera por um lugar no passado.

Foto de Chloe Aftel

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