Todas aquelas coisas que não se diz

dreams_oliviabee

Quando te vi dar as costas e seguir em direção à estação Paulista da linha amarela, meu corpo ainda apoiado à baia do metrô Consolação, não pude senão pensar em o quanto você era idiota. Dois trens passaram, eu muito perto de você, você muito distante de mim. Eu quis gritar mas não tinha forças para isso. Era vingança aquilo? Ou você só não sabia como dizer que não era para ser eu. Sabe, pelo menos quando eu resolvi namorar outro cara eu te disse isso com todas as letras. Eu não preciso iludir ninguém. E só porque eu estava nos braços de outra pessoa, também não quer dizer que te esqueci, ou que não quisesse ser nada nunca mais na sua vida.

Nunca te beijei. Sempre quis. Sempre quis saber como seria ter seus lábios nos meus, já que temos os dois os lábios nos mesmos assuntos e nas mesmas histórias muitas vezes. Por que não usá-los juntos, só para variar? Ao invés de um de cada vez, deixa os lábios falarem juntos dessa vez. Só dessa. Ou quem sabe mais umas outras.

Talvez você esperasse que eu corresse na estação, gritasse seu nome, chamasse por você alto para todo mundo ouvir, depois baixinho, só no seu ouvido, a sós. Talvez você esperasse que pudéssemos compor uma música inteira, pelo menos, juntos. Mas não tivemos projetos duradouros.

Talvez você nem pense nada. E queira mesmo ser um amigo, apenas. Mas então por que segurar minha mão? E onde está você agora?

Sabe, é difícil achar alguma coisa mais interessante do que um Caravaggio. Quando tem ele numa sala, só costumo olhar para ele. E só tem um jeito de eu achar algo mais interessante do que um quadro e de me confundir com eventos históricos – é eu estar apaixonada. Não sei por que achei que você seria uma boa ideia naquele momento em que estávamos sentados um ao lado do outro. E não sei por que fazia tanto tempo que eu pensava em você como alguém e não qualquer um. Não faz mais diferença. Faz tempo que não acho nada, nem deixo de achar.

Eu só queria dizer que tem espaço para alguma coisa nova que não é você. Que quando eu me frustro eu como brigadeiro, danço na sala seminua e canto alto Pride, in the name of love, com o disco rodando na vitrola – sabe, Rattle and Hum foi número 1 nas paradas no dia em que eu nasci -; que quando eu giro até ficar tonta, até não ter mais como pensar em nada e a euforia tomar conta do meu estômago, a única coisa presente em mim é eu querer me sentir mais uma vez assim, com outro alguém. Que tem um vazio à espera de uma nova droga, um novo entorpecente tão bom que não me deixe pensar nem em todas as coisas que eu penso quando estou sozinha.

 foto de Olivia Bee

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