Presença

Suas mãos seguravam meu pulso com uma força ávida por ação, enquanto minha fina camada de pele sobre os ossos e sob seus dedos se debatiam sem sucesso. Queria me libertar, mas seus olhos me perfuravam a retina insistentemente. Os subterfúgios de minha mente não eram suficientes para que eu me pudesse afastar; estava presa.

Os penetrantes raios de memória irradiavam uma camada tão tênue quanto a da luz ao refletir-se na poeira, perpassando o bloqueio automático que meus ouvidos criaram para não perceber sua chegada; eu a reconhecia, nem tanto pelo som, mas pelo abalo da atmosfera ao meu redor, se propagando pelo meu labirinto.

Suas explicações eram vagas, mas pouco me importariam, ainda que fossem as melhores. De fato, eu não escutava nem via, mas sentia tudo como se estivesse derretendo ao permanecer ao lado de sua incessante presença de chama. Quero me esquecer, mas quando dobro meu corpo sobre ele próprio na cama à noite, sinto o peso de seus braços se acomodar sobre a minha cintura, e sua respiração aquecer minha nuca. Este sonho sempre me alcança antes de todos os demais sem dó, como se o abraço fosse um acompanhante necessário para toda a aventura que me apresentaria Orpheu.

Quem é você que não existe, mas ocupa um espaço tão volumoso? Um cheio que não preenche; que esvai e traga devagar. Pertenço a uma coisa que não existe, um corpo que não tem massa, um copo que não tem líquido, um livro sem palavra ou página. Sua forma tem apenas tempo; um tempo que não se cora; desvia da morte, mas não se acende; não torna, nem desfaz, nem cola: a cola seca e velha do que não pode mais ser construído, a não ser que se rasgue para recomeçar. A cera escorre para te anoitecer, enrubesce no fogo o desenho carnoso das maçãs suculentas a cair do Éden – uma mentira que suga a pureza. Cabe na sua curva uma sentença, que destrói a flor no veneno da saliva que a enlaça.

Não há vida no passo lento da nossa separação, ou no descompasso da nossa junção. A distância não é suficiente nem para mais, nem para menos; e seu cheiro sufoca até o jasmim: sofre por não ser mais o perfume que se sobrepõe a todos. Pouco me interessa a beleza cândida desprezível da flor enquanto cheira, mas quando você se sobrepõe, resta-me apenas admirar a branca cor das pétalas, mergulhando-se em amarelo opaco. Reparo em coisas que não tinham antes qualquer vida, um mero interesse.

Cessa a brisa num golpe de calor abafado. Estanca a hora. O seu olhar ganha forma; uma forma que ainda é incerta, mas se aproxima o suficiente para que já a veja; através da sombra, uma íris brilha.  O que era uma falta é já uma presença insólita: o fantasma se afasta, mas logo o substitui uma sombra. Suas mãos seguraram meu pulso com força. Quero me libertar, mas sua presença me consola. Prefiro uma vaga ideia, a uma substancial solidão.

 

 

Foto de Victor Cobo

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