Fuga

 

Procurei me refazer por sobre o que sobrou dos sentimentos que neguei ter. Neguei mesmo e negaria até hoje se pudesse. Se eles não estivessem tão escritos em mim, tão sobressalentes que não fossem texto marcado com tinta de tatuagem. Mas estavam desenhados sob a minha pele, passeavam pelas veias. O caminho era longo e a estrada era monótona, mas eu me animava ainda com os pneus engolindo a terra e deixando seus restos para trás. Eu não dormia porque alguém lá em cima me guiava atentamente. Não permitia que eu me desviasse, embora me distraísse constantemente com os pensamentos indevidos de tudo que havia ficado para trás.

Abri a janela para que ventasse em meu rosto. Assim, manteria os olhos na estrada. Não fora simples colocar o seu carro para funcionar, com aquela chave entortada, mas dei um jeito. Você não teria tido paciência para isso.

Você me liga, quer que eu volte. O telefone toca misturando-se à música do toca-fitas – ainda, o carro é tão velho que tem toca-fitas e eu tenho que gravar José Gonzales em cassete pra ter a trilha sonora correta para sumir.

É mentira. Não venha me dizer que quer que eu volte. Você quer mais é que eu suma, mas o carro lhe faz falta. Você não sabe? Eu vou voltar. Como sempre. Então não me ligue mais. Me deixe. Será só um bate-volta para ver o mar. Para respirar de toda essa loucura urbana pela qual você me faz passar. Sabe, não dá para viver assim. É preciso mar, ar, cheiro de vida. Não essa fumaça asfixiante que você respira com tanto gosto, respeita com tanta vontade. Põe para dentro com tanta voracidade quanto a comida que eu cozinho. Você precisa de mim para sobreviver e nem sabe.

Você tem aflição de ver cortarem as asas de um passarinho e dó de o meterem numa gaiola, mas não vê problema em podar as minhas como se fossem rosas, achando que crescerão mais bonitas.

Qualquer dia desses pego o gato e sumo de vez. E o felino nem vai sentir sua falta. Ele gosta mais de mim. Sou eu quem dá colo, comida e para quem ele corre se eu assobio. Você bem podia não existir na vida dele.

O carro come a poeira da estrada a minha frente e penso se será agora. Se vou mesmo voltar para buscar o gato ou se me livro de uma vez por todas do fardo que viramos nós.

Faz um calor abafado de morte no deserto entre eu e meus pensamentos. Parece que nunca vou conseguir alcançá-los; alçaram-se tão longe que para chegar a seus pés eu teria que subir de foguete. Tenho no máximo um balão que sobrevoa meu chão, minha realidade, observa-a já de longe, mas não tem forças para chegar onde gostaria. Volto à terra.

Seus olhos me furam de raiva. Antevejo essa imagem. Vai querer me bater quando eu voltar. Mas não pode, não ousa arriscar. Tenho segredos seus que nem você mesmo admite incrustados no fundo do cérebro. Te conheço há tanto… Desde sempre.

Sempre volto… me desespero e volto. Já me vejo diante dos degraus da casa, o gato no muro ao lado a me esperar. Não há porque contestar que essa porta aberta me atrai. Que estar de volta é sempre bom, mesmo com aquele ar irrespirável. É o que há. É o cheiro de casa. E seu costume de deixar a cozinha cheirando a bolo às vezes me comove. Posso trocá-lo pela minha liberdade? Talvez sim. Talvez seja exatamente esse o preço da minha liberdade. O de saber que estou em casa, o de sentir-me parte de alguma coisa. Quantas vezes irei, e quantas voltarei ainda, até que eu perceba que não há caminho sem volta. Sem que eu passe um segundo sequer tentando entender minha própria identidade. Volto para dar com os traços parecidos com os meus, porém mais envelhecidos. Para ver seus olhos tristes e vagos depois que a raiva passou. Para ouvir atrocidades que você diz apenas da boca para fora. Há tanta vida lá fora. Há tanto. Quando é que você vai fugir comigo ao invés de se enterrar?

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