Poesia de cegos

 

A minha poesia é dura,

é amarga, é afiada

A tua é doce e terna.

E nem por isso mais frágil.

 

A minha poesia é toda ela desvirtuada,

louca, perdida num mundo só dela

Desavisada, vaga por um caminho sem volta, se joga sem medo, num buraco sem fundo.

 

A minha poesia é desvairada: lá vai a louca outra vez, se perder, se lançar;

Você, caminha, pé ante pé, e ainda assim me ultrapassa e me acena lá adiante.

Nunca está perto; essa sua poesia é uma voz dissonante,

corro para alcançar-te, mas não chego, não estico, não sou corda e nem me derreto

São lânguidas tuas linhas como a toada de um rebanho a se recolher,

lambem-me a face como um gato e depois se vão,

deixando teu hálito doce a me incomodar.

 

A tua poesia tem um quê que me acalma,

mas também um silêncio – que nem silêncio é,

que me desespera.

Canta como as mães a ninar

Soa como o despertar de um pássaro

Que mal abre as asas, cai.

No olho da espiral se amolda, se acumula, se aperta;

Mas vive assim feliz, sabendo que não há mais um sonho,

além de uma derradeira queda.

 

Não tardará o Sol a te alimentar de uma nova esperança

De um novo motivo para escreveres versos.

Guarda tua poesia para o que é novo,

e deixa a amargura no seu lugar,

na minha poesia que vela.

 

Viver não deixa de ser a maior de todas as esperas.

 

 

 

foto de Fracesca Woodman

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