Quando o ouvido se cala

 

Engole-me o abismo da falta

num pesar de uma coisa que não houve

senão um adeus que não era bem adeus

era uma falta também de palavras. (Tanto me sobram, mas hoje me faltam.)

 

Em uma folha de papel

Você escreve tudo e exemplifica o certo no errado

E registra em cartório para que não se possa negar

Mas papel não é mel,

que se dilui e se adapta

que se acomoda, encolhe e dilata.

 

Papel é cordel, que queima, rasga, torce, amassa.

é assim: tudo feito de papel se estraga, se mói,

antes de ser lido se alastra,

Fica mais sério quando dito assim,

à vossa excelência, numa carta.

 

O que seriam meus sonhos sem mais um papel

Sem mais uma falta

Nem caio, nem finjo, nem… canso.

Antes, prefiro não saber

me apago.

O que foi uma vez certo

é agora um buraco.

 

No fundo dos teus olhos uma traça

Acomoda-se gordamente sobre suas ideias.

O papel queima em sua boca

E destrói-se numa piada

 

Vejo o fogo diluir-se e, será?

Há uma linha.

O que será coragem sem medo,

E o que será seu medo sem vaidade?

Pergunto-me se a linha tênue dilui-se tanto que não a vejo

Ou se eu é que a enxergo enevoada.

Não sei dizer se era muito, se era nada.

 

Se era uma carta de baralho

Uma incerteza desenhada

O símbolo de uma ausência,

O mérito de um encontro, numa dobra duma estrada.

Numa sobra de pele resguardada.

Nunca exposta, nunca desvendada.

 

Seriam teus pulsos a me alçar ou tuas pernas a me derrubar.

Seriam tuas exigências também as minhas

Ou as suas tem mais uma audácia.

Não fique de pé, diz. Mas seja menos fraca.

E eu fico, de pé, sem dizer nada.

 

Fogo! Correm as traças a queimar atrás da retina.

Ceguem-me se for melhor assim viver.

Não quero enxergar, não quero ser.

Quero ter certeza, sem a mágoa do não poder

Quero tentar sem ter medo de sofrer, querer, viver, morrer;

Esta intensidade não é só de um lado a lado,

mas de um frente a frente.

 

Você se posta arisca

Se dobra a seus próprios enganos

entrecortada pela sua inocência, ah meu bem…

você nem sabe, mas vai sofrer assim,

ainda que eu não seja ninguém.

 

Cruzou-se um limite e lá atrás ficou.

Não há volta.

Apagou-se o caminho como os rastros de João e Maria.

Mas você continua a deixar restos de pão.

Será o limite nosso um vidro ou um espelho?

 

Se não há silêncio e há tantas dúvidas

Não é falta, não. É exagero.

Uma lástima que se aboleta sobre o tempo

O carrega e malda toda sua essência.

Não passa, passa, não passa, passa,

tempo, decida-se,

que a minha vida tem pressa

Não há como saber, nem como ignorar.

Há uma dor que mais revolta do que amarga.

 

À sua volta, as ruas assobiam

Aquela árvore que havia ontem frondosa, caiu.

Estava por dentro corroída de cupim

Nem dava sinais,

Dei com sua inexistência na calçada.

Se estava ali antes, saberá só quem a admirava.

 

Perto da tua voz, quero derrubar tua certeza,

cala

Que há muito menos engano num gesto

Do que nas palavras.

Queria antes calar para ouvir o som do que poderia ser:

Dois corpos, mais nada.

 

 

fotografia: Vivan Maier

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