Quase um Bilhete

Ouça-me bem amor,

preste atenção o mundo é um moinho

Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos

Vai  reduzir as ilusões a pó

Engulo um choro sofrido porque nele cabem todos os meus sonhos. Deixo que os sonhos desçam garganta abaixo onde devem ficar – escondidos. É preciso sobreviver, dizem eles.  Esquecer dos seus desejos e acostumar-se à frieza da vida. É, afinal, de olhos abertos que se vive verdadeiramente. Mas só de olhos fechados que se vive o que gostaria. Que grande ilusão! Que grande cinismo! Reduzir os dias a uma sobrevivência mesquinha, a uma função ou a uma necessidade. Onde está, onde estará e onde fica a felicidade senão no estar de olhos fechados mas caminhando como se de olhos abertos?

Devo alimentar de sonhos um corpo que não tem outro destino senão o de sobreviver? A que venho? A realidade é uma estúpida feiticeira. Carrega-me com ela nas costas desde pequena e é de mãos dadas a ela que caminho hoje; a morte n´outra ponta a esperar que o caminho se cumpra, que a trilha acabe, que o sonho se eternize numa falta de respirar.

Devo render-me a esse sádico destino, trair minha vontade e deixar-me adormecer pelo resto dos dias que ainda respiro? Deixar que o corpo seja levado no embalo de uma rotina áspera? Carregar nas costas o peso do mundo mais uma vez? E sorrir, para que nada pareça se passar? Talvez cante um samba para fingir uma dor menor que a minha. Se cantar a minha sou capaz de antes engasgar e voz nenhuma sairá.

O mundo é um moinho, verdadeiramente, um moinho, Cartola, a triturar meus sonhos – nem tão mesquinhos. Carrego um traço de saudade, uma nostalgia pela minha própria inocência de acreditar que seria possível. Que eu deveria, de fato, encontrar um dia comigo, conversar e acertar os modos de chegar ao abrigo de uma felicidade até sensível. No lugar encontro-me a uma tristeza sem fim que em melancolia se monta. Traio todos os meus sonhos de uma só vez num duvidar. Em que acreditarei agora, não sei. Talvez tenha que fingir acreditar, tenha que fingir um ideal ou uma posição, para suportar o quase eterno caminhar. Talvez eu termine tudo num desespero pueril de me jogar ou numa coragem abrupta. E esse sim será o modo certo de encarar a vida: negando-a.

 

 

 

imagem de Bet Orten, samba de Cartola.

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