Como sentir

 

clique para ouvir, enquanto lê, a música que eu ouvi enquanto escrevia.

Busco seus olhos em meio à multidão. Não tenho qualquer certeza de quem seja você, mas busco, como se conhecesse há anos os olhos que busco. Na verdade não busco olhos, e sim um olhar. Uma maneira de ver que seja só tua. Quem será você, não sei. Talvez esteja diante dos meus olhos e eu não seja capaz de enxergar. Talvez enxergue nos olhos errados, tente me encontrar numa face que me rejeita. Vão saber quem éramos nós um dia? Nossa cumplicidade será revelada através de nossas palavras? Deixo registros como os de João e Maria, esperando que o tempo poupe as migalhas. Deixo um tratado “como sentir” nos tempos do ódio. Será que entenderão ser isso amar? – e depois, seremos nós realmente a provar o que é uma coisa que não sabemos?

Haverá menos um manifesto e mais uma fúria, um refúgio nos versos e nas frases. Sejam suficientes ou não, os deixaremos para trás como se faz com todo rastro de vida que já tenha brilhado anteriormente. A tua mão na minha não se registra senão assim, senão a dizer “a tua mão na minha”. Então digo com todas as letras “a tua mão na minha” que é mais importante que dizer qualquer outra coisa banal que se esvaia. Dizer te amo é mais comum e mais banal. Ninguém diz “a tua mão na minha”, ao contrário. Gestos simples são maiores que meias palavras mal sentidas.

Dentre todas as coisas restará você. Será a tua mão, por fim. Serão nossas palavras. Dentre todas as coisas você é o tema. Dentre e entre as coisas é a tua voz que se destaca. Que todas as coisas ganham através de ti outro nome, ainda que não dependam de ti para existirem; quando existem perto de ti, são outras coisas. Saberá o tempo guardar os vestígios de uma história que é só nossa e ser de nós fiel registro? Não fale agora, não diga nada; deixe-me imaginar: atravessando as paredes e as manchas amarelas, todas as possíveis intempéries, sobreviverá, exatamente como é, um inegável pedaço, testemunho de nós duas. Ainda que uma palavra apenas, resta uma marca da nossa cumplicidade.

 

foto de Martha Boxley

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