Seu nome era Eva

Eva se distrai com o rádio. A faca passa a brutais dois milímetros de seus dedos, o suficiente para assustar-se com o ar que se movimentou, mas não para se cortar. Ainda atenta para o rádio, embora tenha se desviado brevemente para ver se os dedos estavam no mesmo lugar. Muito perto, pensa ela. Tira o celular de vinte e quatro prestações do bolso e telefona. A filha mais velha atende. Onde está seu irmão? Saiu. Faz tempo? Faz.

Pelo desespero, Eva teria saído naquele mesmo momento, abandonado a cebola meio cortada, enxugado as lágrimas no pano de prato e corrido ao socorro, até que tivesse certeza absoluta de que apenas cismara com uma bobagem. A praticidade a levou a arredar na ideia. Retomou o corte da cebola e o choro. Chorava por um motivo que nem conhecia ainda. Chorava usando a cebola de desculpa. Cinco minutos. O telefone nas mãos mais uma vez. Chegou? Não. E o ciclo se repetiu ao menos umas vinte vezes entre aquele momento e o fim do expediente.

Evanilde! – Berenice, apoiada no batente da porta, com a bolsa em mãos, era a única que se atrevia a chamar Eva dessa maneira. Era uma das poucas que não achava o nome da doméstica um exagero, uma complicação ou uma inutilidade. Achava que era que era e pronunciava o certo. Já a patroa, pela falta de adjetivo pior, simplesmente achava feio – desconcertada com a possibilidade de se ver reproduzindo palavra tão horrenda, apelidou-a logo de Eva, que era mais “fácil”. Berenice não se acometia pelos desejos da patroa. Sacudira sua carcaça da mesma terra de Eva, era feita do barro do mesmo lugar, balançara-se de onde o pó se levantava antes do Sol até a cidade cinza, abandonando a cor laranja com que tudo se portava de onde saíra – tudo refletia a dor e a doença do ar seco que salgava a pele e grudava as pálpebras. Não era agora, depois de tudo que enfrentara nessa vida, que cederia aos caprichos de uma dondoca – ao menos não a esse. Alguma mínima parte de sua integridade deveria permanecer. Chamava isso de orgulho. Se achava uma idealista, sem saber ou sequer ter ouvido a palavra alguma vez. Achava-se, mesmo assim, uma coisa que não sabia explicar, mas que sentia quando o sangue circulava mais rápido e lhe corava a tez. Sentia-a todas as vezes em que queria estapear as frescuras da patroa e dar-lhe uma dose de realidade nas fuças.

Eva sentia-se mais Eva do que Evanilde, como se tivesse se esquecido de sua vida antes da patroa, antes da casa, das crianças. A vida antes daquilo era um embaço – uma lama que se misturava à saliva da boca e dava ânsia. Era ao mesmo tempo uma nuvem preta e um abrigo que nunca chegava. Era uma cama sem paixão, mas com obrigações – isso não havia mudado. Não era Evanilde mais, era Eva. A única que ainda lhe fazia lembrar a desgraça de sua vida anterior, obrigando-a a não se queixar da atual, era Berenice. Embora Berenice fosse astuta para falar pelas costas, diante da patroa se portava como uma lady, na medida do possível. Era cortês e dinâmica, prestativa, eficiente. Seu café era gostoso. Seu caráter impecável. Eva se fiava na força da colega quando havia um momento mais difícil. Esse era o dia, pensava. Não saberia se resistiria.

A espera foi longa. Notícias ruins chegam rápido, mas quando se espera por elas, o tempo se estica. Foi uma longa noite de vela e de angústia. O rádio de sua pequena casa tocava agora músicas românticas. Roberto Carlos cantava Pai. Eva se assusta com a maçaneta girando, o barulho de chaves. Uma pequena esperança renasce e arde dentro de seu peito cansado. Entra o bêbado-clichê, marido da doméstica-trabalhadora. Andava sumido já havia dois dias. Voltava para casa com a mesma cara da saída. Eva rezava todos os dias para que um dia ele fosse e não voltasse nunca mais, que se perdesse no caminho. Separados há anos, ainda o aturava sob o mesmo teto porque só havia aquele. E a escritura estava no nome do traste. “Pai, senta aqui que o jantar tá na mesa, fala um pouco tua voz tá tão presa / Nos ensina esse jogo da vida, onde a vida só paga pra ver”. Eva se questionou se deveria ou não dizer o que havia ocorrido – nem sabia se havia ocorrido alguma coisa, mas seus instintos de mãe e as circunstâncias não indicavam o contrário. O cheiro de pinga era forte, mas percebia-se que o traste não estava de fato bêbado, apenas cansado e sonado da gaiatisse que fizera nos dias anteriores. Sujo, sem banho e com cara de bordel e ranço. Sentou-se na única cadeira restante diante da mesa e balbuciou alguma coisa como “não se põe mais comida nessa mesa”. Eva teria argumentado, esbofeteado aquele merda, mas não era dia para isso. Apenas calou-se. Quanta miséria, pensava ela. Quanta migalha!

O dia já nascia baixo e coberto de neblina quando o telefone tocou. Eva havia adormecido um sono leve e insuficiente, apenas o inevitável, aquele que os bocejos não foram suficientes para retardar mais. Do outro lado, a voz é a temida. Ao menos está vivo. O que fizeram ao meu filho? Meu filho não fez nada. Tenho certeza. Bem, a Senhora que se dirija à delegacia, fazendo o favor, com seu advogado. A ocorrência já foi registrada, mas em tratando-se de um menor infrator, é preciso que se registre a ocorrência com o responsável.

O menino parecia um passarinho acuado. Jogado ao canto com vergonha de si mesmo por existir, parecia ver-se enlaçado num pesadelo do qual não acordaria senão com um balde d´água. E o balde veio. A vergonha era tão grande! Mas a mãe do outro lado das grades era uma afronta ainda maior. Vê-la escutar os desaforos dos outros presos. Ter que engoli-los antes de revoltar-se. Era preciso não arrumar mais encrencas. O que seria da mãe sozinha se nem ele estivesse em casa para lhe cuidar, pensava. Que seria da irmã? Com aquilo que chamava de seu namorado – a cega -, não via que estava armando sua própria arapuca e que seria a vítima de uma jaula igual a da mãe. O pequeno era grande por dentro, mas sua ossatura e músculos não eram suficientes para esbravejar. Como fez com a polícia, fez com os outros detentos: calou-se, prevenindo qualquer mal que pudesse. Fez de seu corpo um abrigo. Prometeu fechar as orelhas e manter os olhos abertos apenas por educação. Esqueceria tudo aquilo. Esqueceria… Não, não esqueceria.

Quanto mais rezava, mais as coisas se complicavam. Agora já era visita em dia certo, não mais a suja delegacia. Tentava se proteger dos meninos mais fortes. A idade era a mesma, mas enquanto ele era apenas um pequeno pássaro, os outros eram águias famintas. Fizeram dele o que quiseram. Os guardas riam-se da covardia. Não queria acumular memórias, mas elas se amontoavam numa gaveta de sua mente que tentaria para sempre fechar. Às vezes se abriria para atormentá-lo. Queria fugir, mas os muros eram altos. E havia a mãe. Não era a hora de fugir, mas de se conformar. Se ao menos pudesse provar que não fora sua culpa. Se ao menos pudesse desmentir os polícias. Mas quem acreditaria num garoto? Quem acreditaria no assobiar tímido de um passarinho, enquanto os brutos urravam a desonra?

Não deu dois meses, Eva perdeu o emprego. As patroas do prédio munidas de seus preconceitos e futilidades, logo decidiram que não havia lugar para mãe de presidiário naquele condomínio. Ninguém se importou em saber se era justo ou não. Nem achou-se estranho que, sendo Eva uma mulher de tanta integridade, sua cria fosse exatamente o contrário. Não. A segurança acima de tudo. Naquele mesmo imediato mês aprovou-se uma subida de mais um metro no muro em toda a volta do conjunto de edifícios e o acréscimo de uma cerca elétrica, mais duas portarias eletrônicas e a troca de todos os funcionários do prédio por uma empresa terceirizada confiável – e por confiável entenda-se a empresa de algum dos condôminos. Eva recolheu as tralhas, recolheu o nome, engoliu o orgulho em troca de uma carta de recomendação e prometeu não confissionar nunca mais seus problemas a ninguém, exceto Berenice.

Encaminhou-se em direção ao elevador de serviço, poucas tralhas e a carta de recomendação em mãos. Quebrado, como sempre. Voltou para traz. Apertou o botão e torceu para que o outro elevador estivesse vazio. Não estava. Abriu a porta para ver caras feias se fazerem. Fechou de novo a porta, se encolheu mais um pouco, voltou. Sobrava-lhe a escada. Não queria ver mais caras feias. Ela era menos que os outros. Sempre seria menos diante das pessoas do elevador social. Mesmo havendo espaço para seu pequeno corpo, o espaço tornava-se infinitamente menor quando os olhos das “pessoas importantes” se colocavam sobre ele.

Chegou à casa abafada, as janelas fechadas. O traste não dava sinal havia quatro dias. Será? – pensava ela. Ao menos isso podia lhe acontecer de bom. Ligou o rádio. Sentou à mesa. Pois-se a fazer contas. Seria um longo mês, sem o salário certo. Sua mente percorre momentos passados. O dia da festa de seu casamento. Usava um vestido tramado que pareceu-lhe bonito no corpo. Sua mãe chorara. Tinha só catorze anos. Ele mais de trinta. Parecia uma boa promessa. Pensou no primeiro filho, no segundo – que virou anjo cedo demais -, e na menina. Todos seriam sempre muito pequenos, mesmo que não coubessem mais em suas mãos. Eva olhou à sua volta em busca de coisas que pudesse vender para garantir mais algum tempo. Não havia nada. Mesmo o rádio era velho demais para ser vendido.

Botou a cabeça para fora, pela janela. Precisava de ar. Os moleques das outras mulheres brincavam na quadra improvisada no conjunto habitacional. À sua frente, muitos andares de favela, com suas ruelas estreitas se desenhavam e faziam uma linha tortuosa no céu.

Viu a tarde se tornar noite. Pensou em andar até o culto. Em ouvir música e uma palavra de consolo. Em ouvir o pastor gritar os gritos que não tinha coragem ela mesma de esboçar sequer. Desceu as escadas – ao menos não precisava se preocupar com o elevador -, andando firme em direção à igreja. Estancou em frente ao bar. O traste apoiava-se no balcão de fórmica, quase inconsciente. Um microfone pendurado. A banda pronta para tocar. Naquele pedaço de favela que era também virado para a rua, para a cidade legalizada, os bêbados entretinham-se com os copos, as mulheres com os bêbados, e os sóbrios com as mulheres. Eva sabia que no dia seguinte estaria na casa de uma nova patroa. Que o bêbado voltaria para casa, mendigando seu próprio teto. Que o filho não sairia da prisão porque não havia dinheiro para safá-lo. A filha, estava perdida nas mãos de uma jaula como a sua própria. Que faria sozinha nesse mundo? Que faria de si mesma? Sobreviveria, apenas. Sobreviveria?

Caminhou em direção ao microfone que sobrava sem dono no palco. Puxou o fio, e começou. Cantou a única coisa que sabia cantar. Com a pouca paixão que ainda lhe restava, puxou as palavras de Roberto Carlos

Menina / Me ensina / O que eu ainda não sei / Me fala / De coisas / Que eu nunca te falei.

Berenice, que passava pela calçada, escuta a voz que já ouvira cantarolar antes pela casa, fazendo a faxina. Espanta-se de ver a amiga no palquinho, saia até os joelhos, cabelos presos num rabo baixo. Era tão judiado aquele rosto. Era judiado como o seu próprio, reconhecia Berenice. Mas era mais doce que o seu. Mais triste. Como se pedisse um afago.

Segredos / Me conta / Me aponta, me diz / Me beija / Me abraça / Me faz feliz.

Eva continuava ecoando as palavras pelo microfone que às vezes falhava.

Me olha / Me embala / Me pega do seu jeito / Me agarra / Me esfrega / Me aperta no seu peito.

E quando / Na cama / Se deita / Me ama / Se esquece de tudo / Num grande amor. Vive nos meus sonhos / Mora em minha vida / Rola no meu corpo quando quer / Beija a minha boca / Dorme em meus braços / Chamo de menina essa mulher.

Te amo / Menina / Você não sabe quanto / Perdido / Me encontro / Na selva deste encanto / Às vezes / Confuso / Abusa de mim / O nosso amor é sempre assim.

Os hinos da Igreja já começavam a se misturar aos versos do bar, escutados ao longe. Berenice observa a amiga descer do palco e se dirigir a ela. Eva tem olhos meigos, baixos, dóceis. Os de Berenice são grandes e fortes. É toda sua feição um pouco bruta, mas seria bonita não fosse o tempo e o Sol. Berenice acolhe Eva nos braços. Pela primeira vez em muito tempo, há choro. Um choro quieto, calado, quase seco, apenas soluçado.

Eva se aperta no peito da amiga. Berenice a leva apoiada para casa. Estão debruçadas uma sobre a outra. Estão as duas no único lugar que conhecem em que não há dor: entre as suas confissões. O Sol finalmente se põe e é escuro. Amanhã será outro dia de luta. Mas esta noite será de rendição.

 

Dedico este conto à Flavia.

As imagens são obras do pintor Paul Gauguin.

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Um comentário sobre “Seu nome era Eva

  1. Que coisa… estes gritos presos na garganta. Limitações do ser? Não! Desfibrilação de um órgão na parede anterior do tórax. Quanta realidade aqui.. foi bem fundo desta vez.

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