Na Sua

Pássaros mortos num cinzeiro, a espera de um gato que os coma. Mas o gato não se interessa por aquilo que não pode mais bater asas. Que vire cinzas! Fascina-se com a liberdade que pretende acorrentar, mas não sabe se deleitar numa entrega voluntária. Serão só cinzas os olhos que me engolem ou será que ainda brilham numa faísca falsa? Febrila uma luz amarela e embaçada. Tremula impura sob as pálpebras, como as mãos que as esfregam, rejeitando as lágrimas que se aproximam da superfície, que custosamente esmalta a íris, antes seca, e molha os cílios. Mãos sujas, olhos limpos. Impregnados os dois de uma mentira que não se apura jamais.

Você se vira de lado. Dissimulado. Meu corpo de gato se aninha na sua recusa. Vejo de longe o seu contorno girar para que não o desminta; para que você não se traia. Se não vejo seu rosto como posso saber, meu bem? Mas seu pescoço o trai. Suavemente inclina-se para o lado o suficiente para que seu perfil trace enfim os meus contornos lentamente, enquanto a boca simula uma respiração calma. Seu coração acelera quando você faz isso, não acelera? Seus lábios tremem. O fingimento de sua respiração é inútil. Suas mãos suam. Vejo-o retrair os dedos, encolher as falanges num movimento desenhado. Você tenta disfarçar o suor que percorre da palma às unhas. Agora coloca as mãos nos bolsos. Você está me vendo sorrir em sua direção; sabe que estou marcando um território que, de fato, já é meu, mas tenta de todas as maneiras não me dar certezas. O que você não entende é que o farejo de longe. Sinto seu corpo responder ao meu através do ar que se rarefaz à nossa volta – nós o consumimos rapidamente. Você exala o que não pode segurar, sinto o cheiro da sua vontade de me possuir. Vejo o seu peito levantar com um suspiro profundo. Você nem está prestando atenção ao que aquele sujeito à sua frente tenta provar. Às vezes você ri. Rir é o mais antigo fingimento que alguém pode fingir. Quem inventou foi uma mulher antes de mim, seu nome se perdeu na pena de algum historiador.

Aquela fresta por onde eu sempre entro, vou escancará-la da próxima vez – vou entrar pela frente em todos os seus pensamentos. Me perdoe se eu me exaltar, mas é preciso um grande gesto. Quero te desconcertar. Melhor que isso, quero te governar. Nós vamos dar uma festa e eu descerei a escada da sua casa escorregando pelo corrimão, para comemorar a tomada da sua ilha. Não se abale, nem discuta. Eu não vou ouvir se o fizer. No fim sabemos os dois que só há espaço para mim nessa fissura que você enseja, deseja e almeja. Que o meu espaço está exatamente entre a largura do alcance dos seus braços. Dançarei nesses limites.

 

Vou lhe fazer rir, mas não vai ser fingimento. Quando o sangue estiver passeando de euforia por todas as partes de seu corpo, se deixe sorrir. Serei eu a provocá-lo de perto, a dizer besteiras no seu ouvido. Vou dizer as verdades que você teme sentir. Se eu passear pela sua pele com a minha, você responderá com um arrepio, ou será seu corpo a produzir uma oração. Minha boca hipnotizará a sua, até que não haja mais uma parte sequer que consiga dizer não. Você vai se entregar até que a entrega seja minha. Quando minha curiosidade acabar, você se tornará algo mais delicioso e enigmático. E vou querer, mais uma vez, me enredar nessa cama de gato.

 

a foto é de Ruven Afanador

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