Entre quatro paredes (ou quatro parágrafos)

 

A sala se movimenta a nossa volta. O apartamento desarma as cortinas e as enrosca em nós dois. A luz que entra pela janela é de velório. O morto está dentro de nós. Olhamos para a cama como se ele estivesse ali, mas não está. Quando percebemos, é a cama que nos observa, por detrás da porta meio-aberta do quarto; nem se abre, nem se fecha.

Ou você se abre ou tranca a garganta. Das suas mentiras eu já me cansei. Se você me traiu, que traia; se me esqueceu, que esqueça. O que eu sinto continua sendo exatamente a mesma coisa, só que com raiva, só que amarga. A sua boca amarga com o gosto da nossa separação que não vem, que não existe. Não há você sem mim. Nascemos no mesmo dia, na mesma hora, no mesmo minuto – aquele minuto em que nossos olhos se chocaram, naquela mesma dor solitária que se findou no começo de uma confusão abrupta. O piso se desloca. Você vai se segurar em meus braços ou vai se jogar no chão? Nesse mesmo chão eu e você já choramos, já nos batemos, já nos amamos. Esse chão sempre foi nosso confessionário. Conte a ele seus pecados. O fogo está atravessando seus olhos e você me diz que não há nada, que sente o frio se alojar entre nós dois como uma voz anunciando o fim do mundo. O mundo que se acabe a nossa volta! O apartamento é o mesmo, as cortinas, as mesmas, nada mudou. Fomos nós dois então? As paredes não são mais estreitas. Lhe parece que são? A cama. O morto. A única coisa que me ocorre é necrofilia. Quero amar esse morto tanto quanto o amava vivo. A mortalha servirá de véu no nosso casamento. Nós vamos nos casar, você sabe? Debaixo daquela árvore que você odeia. Com seus galhos tenebrosos. Eu te asseguro meu amor: a única coisa que você deve temer não são nem os galhos da árvore, nem o fim do meu amor, mas a você mesma. Dentro de você uma cobra se aninha. Será o nosso fruto ou o fruto de uma traição? Será você mesma a se trair, ou será alguém além de nós a tomar-lhe a mão?

Deixe-me beijá-la como a morte que chega sorrateira, soprando nos ouvidos dos velhos e dos recém-nascidos. Mordiscarei sua boca para sentir o denso e tenro gosto do seu sangue novo a pulsar pelo corte imprimido por mim em seus lábios. Há uma desonra tão grande no seu negar, que seu sangue mereceria ser limpo. Quem sabe o meu amor não o faça. Quem sabe eu não desista e bata asas para as profundezas de onde você saiu, em busca de outra como você ou de uma resposta para essa sua dor que não compreendo.

Você não se importa. Procura pela janela, uma saída. Tome um gole, engula, agora me diga de novo a mesma sórdida maliciada mentira. Você não pode. Mas quer. Sua boca quer dizer, sua cabeça quer falar, mas seu corpo denuncia. Seus olhos compartilham a minha dor e a gravidade parece não existir quando nos encontramos. Naquele estreito segundo em que eles se livram das amarras de sua expressão, brota aquela pequena verdade, aquela enorme verdade. Não diga nada. Seus olhos são mais que o suficiente. E quanto mais você se esconde, mais se entrega. Ainda são meus os seus olhos. Seu corpo transpira. Exala as palavras escondidas. Sua boca, ao contrário repete o mantra até o fim. Uma ladainha sem nexo. Pare de se explicar. Apenas se renda. Não quero suas instruções de uso e suas ávidas tentativas de manualizar-se como um objeto. Tudo bem sentir, meu amor. Tudo bem não saber mais como agir. Descalça e desarmada. Vamos desenterrar um corpo. Vamos, Viva. Transita nas suas mãos a vontade e a centelha como um baralho de cartas sendo misturado. Me pergunto se seu truque final será desaparecer. Seus dedos se encolhem contra o parquet, arranhando o verniz. Você se unha, nervosa. Depois desmonta. Se a batalha fosse o fim da guerra, eu ganhava. Há todos os dias a mesma batalha. E é sempre uma nova batalha. Não importa. A de hoje deixaremos no passado. Com a de amanhã nos preocupamos quando a encontrarmos. Por hora, deixe-me descansar nos seus braços.

 

essas imagens instigantes são da fotógrafa Lauren E. Simonutti
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