Ela, melhor que eu

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A sua beleza era tão delicada que apagava a minha. E isso doía-me todas as vezes em que a encontrava. Não havia um dia em que eu olhasse para ela e pensasse hoje sou eu a mais bonita. Aquela delicadeza era tão natural que os seus dedos se movimentavam no ar finos como os ramos de uma árvore movendo-se no vento; de uma maneira tão agradável e irrecuperavelmente pura e real que eu contraía os meus, tentando escondê-los dentro das palmas das minhas mãos, envergonhada. Não eram dedos bons nem belos como aqueles, os meus dedos. E aqueles dela eram tão bonitos e finos, mesmo com a cicatriz que ela acabou arrumando caindo de moto. Lembro-me daquela mão engessada, daquela mão aventureira.

E tinha os olhos mais verdes que os meus. Porque os meus tinham uma sombra cinza. E os dela eram cor de folha, tão claros que uma onda os furtava às vezes para brincar de mar. Não era um verde de vários tons, mas de um só, limpo, um único matiz.

Tinha um cabelo mais claro que o meu, e mais longo. E ele nunca caía no rosto do jeito errado.

Eu seria tão infeliz quanto alguém pode ser só de olhar para ela, seria um Van Gogh a invejar um Monet pela sua leveza, pela falta de trauma, de uma pincelada grossa e emassada, do excesso de tinta. Eu não a invejava. Mas a admirava da maneira que se olha para a imagem de um santo, com uma idolatria pueril. Olhava para aquilo sabendo que nunca o seria. Sabendo que não havia aquela característica em mim. Que aquela pele de mármore não era a minha. Que aquela divina perfeição que ela tinha até nos dedos dos pés, eu jamais teria.

Essa seria a minha sina não fosse o dia em que alguém reparou que eu andava de saltos melhor do que ela. Notou ainda que eu o fazia naturalmente, embora fosse ela a usar saltos todos os dias, e eu a mais acomodada das criaturas, sempre descalça ou de havaianas. Eu andava mais rápido. Eu poderia correr naqueles saltos. Aquela admiração alheia por uma coisa que fiz deu-me a perceber que não era mérito algum ser daquela maneira grega, tão perfeita. Que era melhor ser livre que ser bela. E que estava exatamente nisso a minha grossa beleza, a de surpreender e inquietar, e não de contemplar.

Ela era melhor do que eu. Mas eu também era melhor do que ela.

 

imagem da fotógrafa Teresa Vlckvoa

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