Nada de tudo é como desejo

ouça enquanto lê

 

O telefone não toca. Sei que está com ela. Minha pele é fria, mas suo. Tremo também porque não há nada que me faça permanecer muito tempo no mesmo lugar; tenho me forçado a isso: a ficar em frente ao telefone sentada. Observo o objeto imóvel e o invejo de certa forma. Me intriga sua imobilidade. Me revolta um tanto também. Não quero me mover. Quero que as coisas se movam a minha volta, ao contrário. Quero sentir-me sendo movida pelo giro do mundo. O mundo parece, entretanto imóvel, imaculado. E eu brutamente me mexo, não consigo segurar-me na mesma posição. Meus dedos tremem como o corpo. E meus quadris rejeitam a pose em que quero me estabelecer. Minhas pernas insistem em remexerem-se como se andassem. O telefone não toca. Tudo se estanca à minha volta, ferida fechada. Eu, aberta como um corpo em cirurgia. Tudo me foge. Meus pensamentos. As expectativas sobram. O telefone não toca. Mais uma vez, não toca. Conto os segundos. Nada. Não há um movimento da máquina, um ruído. Ruge dentro de mim um leão que quer saltar pela janela. Sente-se preso pelas grades de seu próprio corpo.

Andam tuas mãos por onde? Num corpo que é manso, como o de uma garça. Você se acostuma aos poucos. Não se apaixona, não ama, mas facilmente se acostuma. Ando dando voltas pela sala. Não há nada mais que eu possa fazer para dizer que as coisas são diferentes, que você não percebe mas há anos que é assim, que amo. Te amo. O telefone não toca. Uma aflição constante invade em ondas as pontas dos meus dedos e percorre meus braços até arrepiar as costas. Ressabiada, minha pele redescobre dores que só conhece por corte profundo. A dor é a mesma, mas não há sintomas. Vem de dentro como uma doença e depois aflora.

O telefone não toca. Percorro um pensamento tolo como ligar e ouvir você atendendo o telefone enquanto ela ao lado diz “desliga, amor”. Desliga. Desliga, amor. Desliga esse laço impróprio e inconsequente que você mesmo criou. Este inferno foi você mesmo que acendeu. Era um cigarro? O dela? Você não fuma. Mas carrega um isqueiro agora. O telefone não toca.

O telefone não toca. Há um pôr-do-sol lá fora. Você deve estar assistindo com ela. Vocês vão ao cinema e jantar; talvez, depois, discutir um filminho clichê, um livro que nenhum dos dois terminou de ler. Andar de mãos dadas pela Paulista. Um casal inexistente. Ou somos nós? E em verdade não sou nada além de uma imaginação sua, uma desculpa para fugir à responsabilidade do compromisso que você assumiu; com ela. Sou uma sombra.

O telefone não toca…

 

O telefone toca. Você me analisa pelo meu tom de voz. Desculpa-se de uma coisa que não tem desculpa e de que você nem sequer se arrepende. Declara toda sua história como se não machucasse ouvi-la. Pouco te interessa o que se passa em mim, apenas quer se livrar da culpa. Dobre a língua para falar dessa mulher, que a culpa é sua. Ela nem sabe que eu existo e que somos ou não somos ao fim o que deveríamos ser. Cale a boca para que eu possa ouvir você respirar. Eu não espero que o telefone toque para você se explicar. Espero que o telefone toque para não te ouvir. O telefone deve tocar apenas para que eu saiba que não importa nos braços de quem você está; que é, no fim, a minha voz que você deseja ouvir quando o silêncio da madrugada chega. Ouço a chuva que cai na rua de onde você telefona. A mesma chuva derrete a minha janela como os relógios de Dalí.

Ela dorme. Você sabe que ela dorme? Ela dorme e sonha com aquilo que acha que já possui e com todas as coisas que quer a mais com você. Acha que amanhã será mais um dia a dois. E depois virá uma vida inteira a dois. A três ou quatro. Posso garantir que nessa conta ela não soma a mim. E vê só uma cama.

O telefone está mudo. Você silenciou; eu cansei de falar. Sua voz vem bater na minha porta. Quer que eu abra. Que eu te deixe entrar. Você pode entrar, mas deixe-me sair.

 

 

fotografia: Vivian Mayer, NY, sem data.

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