Distúrbio

para ler ouvindo essa música junto

Entrava no mercado e se dirigia direto à prateleira de chocolates. Um branco, um meio amargo. Atitude mais contraditória não há. Esses pequenos sinais que ela dava de desequilíbrio, eu deveria olhar para eles não como um defeito, mas como um charme que ela tivesse.

Nosso amor era feito abacaxi. Feio por fora, mas doce por dentro. Ninguém nos agüentava. Éramos expulsos dos lugares por comportamento indevido. Com razão. Ela tinha um fogo inacreditável em lugares impróprios. Eu sempre cedia. Como não?

Entrava em casa e tropeçava em todos os pares de sapato que ela havia deixado pelo caminho. Era como uma corrida de obstáculos. Valia a pena. Passados os sapatos, as roupas, a lingerie, eu chegava a ela. Nada além de pele sobre seu corpo.

Quando eram sapatos, os obstáculos eram fáceis. Num dado momento, os obstáculos passaram a ser invisíveis. Eu não podia adivinhá-los tanto quanto os sapatos embaixo de meus pés desatentos. Diferente dos sapatos, entretanto, eu continuava a não vê-los depois de pisar em todas as suas nuanças de branco irreconhecíveis. Ela era intransponível certas vezes. Comedida, olhando para os próprios dedos que se movimentavam no ar. O que ela queria com aquilo? Movimentando os braços para quem sabe admirá-los, para observar sua própria anatomia.

Depois passava horas olhando para a rua pela janela, debruçada tão entregue que qualquer descuido a jogaria para baixo. Ficava entretida vendo o farol abrir e fechar, os carros e os pedestres passando cada um a sua vez.

Numa sexta-feira encontrei-a com sapatilhas e colã. Ensaiava seu próprio balé dando piruetas na sala. Caiu. Levantou. Rodopiou de novo. Caiu. Levantou. Rodopiou de novo. Caiu infinitas vezes. Levantou todas elas. Até que na última, sentada no chão olhou nos meus olhos e sorriu exausta. Peguei-a no colo. Seus cabelos suados atrás da nuca. Sentei-a no sofá. Desfiz os laços da sapatilhas. Seus pés estavam destruídos. Beijei-os tão veementemente que ela às vezes reclamava de dor. Deitou sua cabeça para trás e dormiu um sono justo. Quando acordou eu ainda estava a seus pés, sentado de perna de índio. As mãos no tapete, suportando o peso das minhas costas. Ela abaixou-se até mim como se eu fosse uma criança e perguntou se já tinha escovado os dentes para dormir. Disse que não. Fez sinal em direção ao corredor, como uma mãe.

Milk. Falava inglês, alemão e às vezes francês. Sozinha. Conversas inteiras. Falava com ela mesma. A geladeira vários segundos aberta até que percebesse que já havia tirado o leite de dentro e colocado na pia. Era distraída, eu pensava. Escolhendo uma roupa no armário. Jogava metade de seus vestidos em cima da cama até decidir que preferia um par de calças. Era um pouco indecisa. Mas quando decidia o que queria, nada se colocava a sua frente. Já estava feito. Na sua mente, tudo se resolvia de uma maneira mística e rápida. Era um mundo paralelo o das suas ideias.

Caminhei pela sala e num instinto velho balancei a cabeça e o resto do corpo até me apoiar no peitoril da janela que dava para a rua. Sábado acordava numa preguiça quase igual à que eu tentava abandonar com a xícara quente de café entre os dedos. A palma das mãos aos poucos queimava com o calor, mas eu deixava, como se fosse alento a maneira como maltratava minha pele. Pensei em abandonar aquela vida louca para trás.

Até seu pai me disse, um dia, que aquilo não era certo. Eu cuidando dela como se fosse uma criança. Não era minha responsabilidade, ele dizia. Mas eu sempre me senti como se fosse ela, na verdade, que tomasse conta de mim, me impedindo de ser são o tempo todo. Me livrando da modéstia e monotonia a que eu estaria destinado não fosse aquele louco amor.

Eu era com ela tudo aquilo que eu queria ser. Queria ser dela. E pronto. Um dia encontrei seus braços abertos na medida da janela, seus joelhos apoiados no sofá, seus cabelos espalhados no ar da sala, onde tudo voava. Ela não se importava com a papelada, com as contas, com os livros, tudo rolando pelo piso como num filme de faroeste. Quando me viu, nem disse adeus, apenas que era bom me ver e então voou deixando seu corpo ultrapassar os limites do construído.

imagens da fotógrafa Francesca Woodman
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s