Entre Escamas

Eu a percebi na fila do cinema. Não vou mentir. Se eu dissesse que estava sozinho, seria o mesmo que dizer que entrei na loja de lingerie para comprar um pijama para a minha avó. Não. Eu estava engalfinhado com outra garota, um rolo que se auto-intitulava minha namorada e que nunca desconfiou de eu não querer apresenta-la aos amigos.

Me chamou a atenção, no entanto, aquela guria sozinha, sugando coca-cola pelo canudinho, checando suas mensagens no celular. Imaginei que ela esperasse alguém para entrar com ela na sessão. Esperei. Reparei que ela comprou apenas um bilhete. Atravessei a fila, mãos dadas com o rolo que resolveu aliviar a bexiga antes do filme e para isso me abandonou por alguns segundos na frente da sala – assim, ela poderia passar o filme todo, sem interrupções biológicas, me provocando continuamente a prestar atenção nela e não na história para depois dizer que Woody Allen era um saco. Pois é… as coisas que a gente atura para fazer sexo… Eu, no caso, estava disposto a deixar que aquela boquinha destruísse todos os meus ídolos em cinco segundos. Mas você tinha que ver que boquinha!

Enquanto o rolo se encaminhava para o toalete, arrebitando a bundinha de propósito, eu me dirigi à única figura que de fato me interessava naquele lugar. Perguntei se ela esperava alguém. Ela me olhou desconfiada, como quem imagina por dois segundos se não está sendo observada por um serial killer e disse “não”. Apenas isto: um não seco; os olhos voltaram para o celular. Pergunto se ela não se importa de ir ao cinema sozinha. Ela me retruca “nasci sozinha, não preciso ter o assento do lado ocupado para ver um filme”. Um tapa na minha cara teria sido mais suave. Vejo hoje que eu deveria ter dado mais atenção àquela frase, à sua displicência, e até à maneira como me passou o telefone num papel, vendo o rolo se aproximar, vindo em nossa direção – ela não se importava de existir uma prova do crime.

Namorei o rolo. Pois é. Eu dei o título de namorada a ela depois de muita insistência e porque de certa forma era conveniente tê-la por perto quando os amigos não queriam sair, quando estava com menos trabalho para fazer e, no fim das contas, era bom que alguém embelezasse a casa. Para colocar um ponto final na história, ela ameaçou cair fora. Odeio ficar sozinho, então cedi.

O telefone dormiu no meu bolso por uma semana. Liguei para ela na terça, porque segunda seria um dia estranho para marcar alguma coisa, no sábado e domingo tinha o rolo, de resto, era muito cedo, ia dar bandeira. Nem tinha oficializado o pedido do rolo ainda. Por isso, não me senti traindo ninguém. Me senti foi muito macho pegando duas ao mesmo tempo… É verdade que eu não estava ainda de fato com a Pietra. Mas já me gabava da conquista iminente.

Ah… mas a Pietra… aquele corte de cabelo esquisito, o batom muito vermelho, os olhos de gato. Andava pela casa nua. Eu sempre achava que seria pego pelo rolo, agora namorada, em uma situação inexplicável com Pietra. E por que não troquei o rolo por Pietra? Ora… veja bem…

Nosso primeiro encontro: tive a indecência de combinar de encontra-la no mesmo cinema em que a conheci de mãos dadas com outra. Ela chegou atrasada meia hora. Disse que estava com pressa e que já tínhamos perdido o começo do filme. Disse que não queria assistir mais nada. Queria ver o Almodóvar. Se não tinha Almodóvar, tinha mais o que fazer. Bateu os olhos no celular. Fiquei louco de raiva. Ela me segurou pelo pescoço e me arrastou num beijo daqueles de colocar qualquer marmanjo desconcertado. Virou de costas e saiu da mesma maneira que entrou. Fiquei com os dois ingressos vencidos na mão. Assisti o filme pensando que nunca mais ligava. Que ela era louca. Saí do cinema e telefonei. Quando te vejo de novo?

Quantos será que ela tem, pensei enquanto arrancava suas roupas um dia desses. Percebi que ela tinha uma marca roxa no pulso, outra no pescoço. Deixei mais algumas

Normalmente já me sinto praticamente dono de qualquer uma que tenha durado até o quarto encontro. Pietra nem olhava para mim. Estava muito entretida pensando no livro que tinha acabado de ler. Era a nona vez que lia Alice no País das Maravilhas, dizia ela. Segundo ela, cada vez que se lia, o livro fazia menos sentido. Ao mesmo tempo, era justamente essa a sensação que buscava. Quanto mais se perdia nas palavras, mais se sentia Alice. Quanto menos entendia, mais entendia. Não é uma observação de uma mente completamente insana? Enquanto pensava nisso, segurava o lábio inferior entre seu dedo indicador e o polegar, depois o mordia. Nunca soube o que fazia. Ela não contava. Se era professora de criancinhas, domadora de leões ou agente secreta do governo coreano, só Deus sabe.

Ela passeava pela casa quando o celular tocou. Olhei para ver se o telefone denunciava. Só um número desconhecido. Ela começou a falar em francês. A rir em francês. Eu não sabia se saboreava o quão sexy eram os lábios se movendo e fazendo bico pra falar oui ou se morria de ciúmes pensando que além de ter outros ela fazia a volta ao mundo.

Tirou os oclinhos de hipster para observar as crianças pulando nas poças d´água no meio da chuva. Tinha comprado os óculos num antiquário de um velhinho em Milão; foi assim que presumi que tivesse um namorado italiano também. Riu de mim e das mães desesperadas que queriam suas crianças limpas, cheirando a OMO. Gostou do guarda-chuva transparente de alguém. O alguém era o rolo que chegava para me visitar de surpresa. Achei que daria um pulo para trás e correria para longe, chorando. Ela caminhou na direção de Pietra, pronta para estapeá-la ou puxar seus cabelos loucos. Parou no meio do caminho. As duas se olharam. Pietra levantou-se do banco onde estava sentada, deu três passos na chuva, enfiou-se debaixo do guarda-chuva da adversária e como se a estivesse encantando, sussurrou no seu ouvido palavras mágicas. Entraram pela porta do meu prédio e me esperaram segurando a porta do elevador. Pietra soltou a porta e empurrou o rolo para dentro, usando as mãos agora para segurá-la pela cintura. Corri para alcançar a porta antes que o amortecimento acabasse. Ainda cheguei a tempo de ver a gradinha interna se fechar e as duas se enroscarem por detrás da janelinha. Subi as escadas que pareciam não acabar nunca. A porta do meu apartamento estava aberta. Segui o barulho até o quarto.

Acordei com a chuva amansando. A ausência do ruído constante foi substituída pelo barulho dos primeiros passarinhos que se aventuravam. Abri os olhos. Encontrei a cama vazia, como se tudo não passasse de um sonho. Olhei para o travesseiro a meu lado, molhado dos cabelos de Pietra que se ensoparam com a chuva.

O apartamento está vazio. Há duas chaves na tigela ao lado da porta. Uma para cada mulher. Finalmente percebo que fui alvo do canto e do encanto de duas sereias.

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