Quando tem um alguém

A fumaça do seu cigarro montava um cerco à minha volta. Aquilo fora um dia tudo que eu quisera. Uma quimera. Um engano só meu – porque só eu não sabia exatamente o que aquilo era.

O barulho do jazz rasgando a agulha da vitrola me irritava tão profundamente quanto os filmes alemães. Voltava para me assombrar. Ia e vinha. Naquela época era isso que se fazia todos os dias e eu deixava. Assistia seus filmes alemães e ouvia seu jazz. Porque existe um tipo de irritação que se torna romântica, um tipo de tristeza que se torna quase necessária à sobrevivência e que a gente engana com whiskie e jazz e filmes alemães. Se ilude com uma vida em preto e branco. Com uma ponte tosca em cima dum abismo – faz de conta que é seguro. Planeja uma viagem passando pela ponte, como se chegar do outro lado fosse certo.

E o mais incrível é: o que me fazia seguir era uma vontade quase suicida de me lançar no abismo. De pisar propositadamente no vazio e não na tábua. Aquele vazio me tragava como ele; e ele me tragava como um cigarro – puxava o ar pela minha boca.

Abria a janela para me livrar da fumaça. Se me cercasse só em pensamento, era bom. Mas ao contrário, gostava de cercar meu corpo com cheiro de homem e com os seus passos pesados arrastando o piso junto da sola do sapato. Ia e vinha, ia e vinha gastando o assoalho. Chegava com aquela pilha de discos, dizia que só eu tinha uma vitrola ainda; que éramos dois saudosistas e a gente se completava porque um tinha os discos e o outro a vitrola. Coisa besta a gente se apegar à essas complementaridades miúdas e ridículas enquanto as coisas grandes a gente ignorava solenemente: “deixa passar… e daí que você é uma pessoa matutina e eu quase um morcego? a gente só não dá certo tendo um relacionamento, Fabi, mas a gente ainda pode ser amigos, não pode?”

Era uma amizade engraçada, dessas que começam nos discos e acabam na cama. Melhores amigos. Eu andava pela casa com a sua camisa abotoada errado e só.

A nossa história era tão boa que o jazz parou de fazer sentido porque era melhor ouvir nossa própria ladainha de lavadeira. Você já trazia os discos só para fingir um motivo para me ver. A gente colocava um na vitrola e quando se dava conta a agulha já girava havia horas em cima da bolacha sem música, apenas o chiado de coisa velha.

Eu sei que não era eu a pré-destinada a ser a mulher da sua vida; que era tudo uma questão de tempo até encontrar alguém que odiasse seus discos e que fosse aquilo tudo que sonhou ao contrário – e apesar disso, faria mais sentido estar ao lado dela ao invés de ao meu lado, porque as coisas são assim, de um jeito que não se espera.

Eu prendia os cabelos à Brigitte Bardot e passava delineador preto esperando que um dia eu virasse uma fantasia sua, fumando seus cigarros de ponta cabeça na poltrona da sala, as pernas para cima, uma coxa para cada lado -uma no encosto e outra no braço, vestindo a sua camisa meio aberta que deixava ver alguma coisa; fantasiaria comigo enquanto estivesse comendo a esposinha.

Roubei um dos seus discos. Deve ter se dado conta depois. Mesmo assim nunca apareceu para recuperá-lo. O songbook de Cole Porter cantado por Ella Fitzgerald. Fumei seu maço de cigarros até o fim, para a casa não perder o seu cheiro, escutando o disco, esperando que ele voltasse na sexta-feira. Semana passada, havia me abandonado para encontrar uns amigos – me deixou em casa como seu eu fosse uma pantufa. Me despiu da sua camisa para poder sair com ela, tivemos uma última trepada sensacional. Não brigávamos, como os casais de verdade, apaixonados, só porque ele tinha resolvido beber com os amigos. Fiquei no meio da sala esparramada enquanto ele batia a porta de saída com a camisa na mão. Foi no sábado de manhã, depois de uma noite de espera, quando a agulha girava no nada, que me dei conta: é isso. Ele encontrou a esposinha.


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