Uma brisa, um violão, uma confissão

Esse conto me rendeu uma publicação na revista MyMag. (www.mymag.com.br) Resolvi publicar pelo Pensamentos Inevitáveis também, agora que algum tempo se passou. É sempre bom rever as coisas que escrevemos, as coisas que pensamos, que inventamos. Sempre bom reconhecer o que fizemos de bom e também o que precisa ser melhorado. Aí vai!

Ela passou por mim como um momento suave. Os cabelos se mexiam, ainda que o vento fosse quase imperceptível. O calor era intenso como somente no verão no Rio de Janeiro pode ser. A praia do Pontal de Paraty sonhava com o futuro dia de Sol, enquanto ainda guardava o breu da noite nas sombras da praia, entre os quiosques, onde a luz dos postes não chegava. Muitos dormiam, presos ao calor que os largava nas camas e nas redes espalhadas pelo hotel. Alguma coisa deve ter se passado quando seu perfume, o meu e o cheiro da noite se encontraram, porque tanto eu quanto ela nos olhamos com uma desconfiança que tinha um quê de premonitória. Passou e continuou seu caminho teimosamente como eu, ignorando os sinais. Virou levemente o corpo para acompanhar meu trajeto com os olhos como eu também fiz, para acompanhar o dela. Mais tarde voltei e a encontrei no corredor de meu quarto. Falamos alguma coisa que não me lembro mais, uma conversa mole como o calor, mas que pretendia alguma coisa entre o meu português e o espanhol dela – uma comunicação displicente, apenas uma apresentação casual.

No dia seguinte, também esticada numa rede, me entretive com um sujeito que maltratava um violão sentado nos bancos de jardim do hotel. Tocava mesmo muito mal, e como eu olhasse muito, uma hora perguntou-me se eu gostava da música. Disse que gostava do violão e perguntei se podia tocar um pouco. Ele cedeu sem saber o que o esperava. Sentei-me no banco a sua frente e comecei a dedilhar um samba. Logo estava também cantando. Quando levantei os olhos do instrumento, música acabada, surpreendi-me com ela a me aplaudir. Augustina. Já  a conhecia de vista agora. Já havíamos nos apresentado. Acho que fiquei envergonhada por ela perceber que eu estava ali e meu rosto ficou quente, provavelmente também vermelho. Ela estava sentada ao lado de outro rapaz, tentando conversar em inglês. Ele, que também tinha um violão nas mãos, tinha parado de tocar para me ouvir. A recepção do hotel, também eu reparava, havia abaixado o volume da música para quase nada. Agora que tinha parado de tocar, muita gente me observava como se eu tivesse feito algo de extraordinário. A verdade é que os turistas estrangeiros não conhecem muito bem o samba, e vêem nele uma certa graça, ainda que mal tocado. Amadoramente como eu estava fazendo, era o suficiente para parar tudo.

Mais uma, pedia ela. E eu continuei. Mas como o dono do violão o quisesse de volta, minha alegria de colocar os dedos, ainda que num instrumento mal afinado, e de exercitar as cordas vocais, logo acabou-se.

Voltei para o quarto num rabicho de vontade de enviar somente meus olhos de volta àquele lugar para saber o que ficou quando saí.

 

 

O calor não cedia lugar nem à frieza do sereno, nem à aspereza da areia; era um calor pegajoso, viscoso, que o mar tragava e devolvia numa maresia salgada e quente que desgastava o corpo.

Eu andava preguiçosamente em busca de uma cerveja gelada. Não podia dormir de maneira alguma. Era cedo também, nem meia noite. Não podia pular o carnaval ainda, porque àquela hora não havia bloco na rua; tampouco podia dormir as horas não dormidas da noite anterior, que o meus espírito irrequieto não permitiria. Andava secando os cabelos com as mãos, balançando-os de um lado para o outro. Tomara um banho gelado, daqueles em que a água percorre a espinha por dentro, logo antes, e os cabelos lambiam as minhas costas, a água atravessando a regata decotada.

Veio na minha direção como um momento inquietante, como uma coisa que não se pode evitar: o choque que se antevê, mas não há freio que o previna.

Sorriu. Eu também. Não havia muita saída, senão sorrir. Ela parou. Me olhou. Começou a tagarelar sobre a minha breve apresentação musical. Me fez explicar como aprendi a tocar. Dessa vez ela havia se conformado com a incompatibilidade das nossas línguas maternas e falava inglês com um sotaque exageradamente britânico.

Eu estava presa no corredor, sem espaço para passar por ela e fugir, como eu gostaria de ter feito. Retive-me ali, indefesa. Senti que eu era a presa, prestes a ser engolida por aquela voz, aqueles elogios, aqueles olhos de uma cor que não era verde, não era mel, era uma cor que antevia minha vontade. Ela pára de falar por um momento e na minha cabeça tudo acontece rapidamente: seguro-a, uma mão na cintura fina, outra nos cabelos; apóio meu corpo contra o dela e pendemos em direção à parede do corredor; o beijo é fácil, natural, tão sem freios quanto nosso encontro naquela noite no corredor, tão quente quanto aquela noite, tão esperado quanto a sombra dos quiosques na praia, tão delicioso quanto o balanço numa rede. Meus olhos param no ar, naquela cena que está só na minha cabeça. Ela ajeita meu cabelo com as mãos. Estou acordada de volta e as mãos dela estão no meu cabelo, colocando-o para trás do ombro. Ela sugere que nos encontremos mais tarde, que eu toque mais um pouco. Finalmente, acha uma brecha e passa por mim, não sem antes ajeitar os próprios cabelos com as mãos.

 

 

A lata de cerveja sua entre meus dedos. Sinto-me estúpida. Não há garantias de que eu a verei de novo. Eu poderia ter feito algo. Não fiz. Deixei que ela passasse por mim. Sento-me no banco. Um rapaz, o mesmo com quem antes ela falava, senta-se a meu lado com o violão na mão. Se apresenta. Pergunta uma ou duas coisas sobre mim, mas ele parece já saber as respostas, já as ter ouvido de outra pessoa. Você é uma mulher linda, você sabia disso? Agradeço cordialmente. Ele é agradável, bonito. Sinto-me mais mulher com o elogio, mas ainda sinto-me estúpida. O momento passou por mim, suave, mais uma vez.

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