O vestido que me coube

O botão não cabia no buraco por onde deveria passar. Foi um engano. Eu deveria ter percebido desde o começo que aquilo não daria certo. Eu que nunca fui apta a reparos. Mas como foi que me enganei tanto na medida, não sabia. Se minha mãe estivesse ali eu escutaria Eu te disse. Disse que não ia caber, mas você é teimosa. Ela teria toda razão. Eu herdei completamente a teimosia da família por parte de mãe. E a arrogância de se achar sempre certo também. Eu provavelmente retrucaria com má-educação e uma daquelas respostas que se tem na ponta da língua sempre; sempre que não se quer ofender alguém mas o impulso não permite a sutil delicadeza do silêncio. O silêncio é a melhor resposta muitas das vezes.

O meu silêncio era tolo. Ficava a espera de que o passar do botão acontecesse como um milagre pelas minhas mãos. Mas o que eu faria senão isso? Era o único botão parecido com os outros que me restava no vidro de botões. E como é que eu sairia com o vestido sem arrumar o botão. Como? Não poderia certamente sair com o botão faltando. Não sei por que fui me meter a colocar o vestido. Depois de tanto tempo. Não sei nem como me coube. Sei que antes de colocá-lo mirei bem as medidas e estive certa por dois segundos que ele não me passaria sequer pela perna. Aquela cintura fina, aquilo não era coisa de gente de verdade. Só mesmo ela para ter uma cintura daquelas, e para me deixar o vestido como uma última zombaria. Não bastasse todas as vezes em que criticava as roupas com que me via saindo de casa. Tinha também que deixar aquele vestido azul com uma cintura pequena demais para eu ver o quanto era maior do que devia e o quanto ela havia sido magra quando tinha a minha idade.

E lá vou eu de novo com a língua ferina. Não eram essas as intenções… imagine! As intenções são sempre as melhores. Bem, também de boas intenções está cheio o inferno. Não as dela. As dela certamente eram as melhores intenções, na melhor pessoa. Agora que está morta fico assim, pensando que ela era toda boa, que não tinha nada de má. Mau é o vestido e o botão e esta casa muito pequena por onde o botão não passa.

A minha paciência também não é mais a mesma, confesso. Embora ela tenha ganhado certo fôlego quando coloquei o vestido. Serviu, veja só você que surpresa! Serviu como uma luva nesse corpo magro. Agora é magro. Agora que chorou, que esqueceu, que seguiu. Esse corpo não se deixa adoecer por aborrecimentos pequenos. E por isso perdeu tudo que tinha em excesso. Têm me dito as paredes que falta-me um brilho nos olhos que eu também tinha antes a mais. É. Talvez estejam certas. Foi por isso que fui vestir esse estúpido vestido. Era tudo ou nada. Ou ele ficaria perfeito e eu seria muito feliz e o brilho dos meus olhos voltaria com a coragem de sair de casa e parar de falar com as paredes. Ou seria esse eterno silêncio sem brilho. Um silêncio sábio e gordo; um vestido no colo, perdido entre os dedos, o pano de seda azul.

Mas esse vestido não poderia jamais me dar a alegria de tal simples dualidade! Não um vestido que minha mãe me deixasse. Meto-o no corpo e aí está. Caimento perfeito. Quando estou quase tão feliz que me deixo por os pés na rua é que noto: o botão. Não fico totalmente triste porque o vestido me cabe, mas não posso deixar-me completamente feliz porque há ali uma casa vazia. Vasculho o armário onde o vestido estava e não há, não há o botão caído. Sabe- se lá quando foi que se perdeu.

Recorro ao vidro de botões junto à caixa de costura, esperando que ali esteja o botão perdido ou ao menos um que se pareça com os outros botões. Encontro esse. É forrado como os outros, da mesma cor. Prego-o no vestido. Alegro-me de ver o botão pregado. O vestido poderá finalmente ser usado. Sairei dessa inércia, dessas paredes brancas demais. Coloco novamente o vestido e tento fechar o botão. Não fecha. Aquela casa fica aberta. O botão é pouca coisa maior que os outros. Eu teria que abrir a casa mais um pouco para caber o botão. É o primeiro botão do decote. Será? penso eu.

Minha mãe não era dada ao tipo sensual. Não quando a conheci, se é que a conheci um dia. Não me lembrava. Fiz um esforço de pensar em como se vestia mais nova. Não me lembrava de a ter visto com o vestido. Claramente ela o usava quando era mais nova do que eu poderia me lembrar.

Meu pai passa por mim. Estou em frente ao espelho. Embora as minhas olheiras cubram meu rosto de uma tristeza ainda solene, estou bonita e o decote é um pouco descuidado e indiscreto. Ele ri. Não entendo. Esse botão? Você que colocou aí? Foi, respondo. Ele vai embora com um riso de lado, uma lágrima curta que não vaza dos olhos. Sua mãe usava sem o botão mesmo, o escuto dizer de longe.

Olho para o espelho. Aquele cabelo preso, aqueles olhos meio vazios. Finalmente entendo porque me cabe o vestido.

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