Neuróticos Anônimos

Observava a sala com tal certeza das suas observações, com tão exata praticidade de quem sabe que está correto, que me intrigava. De quem tem ares de professor, sem errar jamais. Se enganar, talvez, às vezes. Nunca, porém, vi em sua face uma expressão de dúvida. Tinha uma oblíqua contrariedade e uma concentração que eu desconhecia. Eu era muito etéreo, muito aéreo. Era de minha natureza estar a parte de qualquer coisa que não fossem os pensamentos dele, que eu os via tecer com os olhos para depois propagar com a boca.

Era médico como eu, e talvez por isso eu me identificasse demais com a sua linha de raciocínio, enquanto deveria me manter precisamente o mais distante o possível. Engraçado perceber como tudo que dizia, falava com aquela certeza científica. A mim, por uma fração remota de tempo, parecia que era tudo verdade, como se um velho professor doutor da faculdade estivesse me dando uma lição, ou como se eu estivesse ouvindo uma história de meu avô. Eu acabava por confiar às vezes, quase a enxergar através de seus olhos. Nada mais justo – somente uma invenção pode enxergar pelos olhos de seu criador.

Estava para perguntar o que ele via, porque seus olhos haviam parado num canto da sala e balbuciava qualquer coisa inaudível, porém como se estivesse querendo discutir com alguém, provar um ponto, argumentar. Falava consigo mesmo. Quando estava para dizer, já com a boca aberta a meio caminho, ele respondeu-me como se adivinhasse meus pensamentos.

Comeu tanto doce que virou uma formiga. Virou? Virou. Uma formiga. Ou pelo menos é nisso que ela acredita. Não há remédio ou pílula que dê jeito. A pobre realmente crê que é uma formiga. O pior é que os efeitos do que pensa estão se alastrando pelo corpo. Parece-me que resolveu produzir menos insulina que o normal. Agora vejo as enfermeiras sempre a socorrê-la com as seringas. Virou mesmo formiga. Acho que foi de comer tanto doce indiscriminadamente. Vê você que eu agora só consumo produtos diet e light. Ser saudável, todos sabem, é uma questão de ter os hábitos certos e livrar-se dos vícios.

Ia perguntar de outra paciente que parecia meio catatônica noutro canto, mas novamente ele me interrompeu com a boca a meio.

Aquela é Laura. Dizem que matou os filhos, mas como nunca confirma ou se defende, não se sabe o que realmente fez. E por que alguém mataria os filhos, pensa você, não é? Sei lá… parece que não arrumaram o quarto e isso foi um choque muito grande no espírito já atormentado que possuía. Reza a lenda que trancou-os no quarto à fome e à sede. Era viúva. Só descobriram o crime porque os corpos começaram a feder. Os vizinhos acionaram a polícia. Engraçado pensar que o cheiro dos corpos fosse necessário para dar pela falta das crianças. Quando há crianças há sempre uma vida distinta nos lugares. Quando se vão, o silêncio é muito pesado. Talvez tenham notado o silêncio primeiro. E depois o cheiro dos corpos.

Já aquele senhor ali, cismou que o ar está infectado. Agora anda por aí com aquele capacete ridículo. Diz ele que um laboratório do governo infectou o ar com alguma droga da obediência. E se estiver infectado, nem é tão absurdo. Absurdo é ele acreditar que está protegido com aquele capacete de motocicleta como se fosse um astronauta desprovido de recursos.

Aquele garoto não diz o próprio nome a ninguém. Acha que as redes sociais são apenas um meio de arquivar informações e registros para, aos poucos, controlarem as vidas de todas as pessoas. Certo dia levantou-se enfurecido da cadeira. Tiveram que o segurar. Ele gritava “De que maneira somos anônimos aqui? A primeira coisa que fazemos neste lugar é dizer nossos nomes. Querem nos controlar! Não seremos nunca anônimos! ” Foi-se um bom tempo até acalmá-lo.

Vejo no reflexo dos olhos dele que se aproxima a enfermeira. E que vem exatamente na minha direção, como quem me atravessará. Despeço-me rapidamente e dou qualquer motivo para levantar-me e sair e, como boa alucinação e devaneio que sou, deixo a sala como se nunca a tivesse adentrado, como uma brisa. Desapareço, uma miragem que se desfaz no ar, embora ele me veja cumprimentar a enfermeira, abrir a porta e sair como um perfeito cavalheiro.

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