A Máquina

É comum isso? As pessoas chegarem aqui e nem sequer dizerem uma palavra? Quer dizer, eu nem te conheço. Por que é mais fácil aqui do que com qualquer outra pessoa? Eu não deveria estar chorando. Chorar é muito íntimo. Não choro na frente dos outros assim. Eu nunca digo isso pra ninguém. Por que é que aqui deveria ser diferente?

Silêncio.

Não enxugava as lágrimas. Deixava que descessem pelo seu rosto. Ninguém as via além daquela mulher a sua frente. Aquela velha. Então deixava que escorressem. Era a primeira vez que não se importava com o que ninguém estava pensando além de si mesma. Achava-se ridícula chorando em frente a uma desconhecida. Mas aquilo pareceu-lhe tão natural que logo o ridículo tornou-se óbvio.

Tornava-se repetitiva. Quando dizia aquelas coisas para as amigas. Já também eram poucas, as coisas e as amigas. Estavam casadas, tinham filhos, tinham pouco tempo para ouvir a desgraça alheia. Precisavam se preocupar com a própria. Nem sequer tempo para unirem-se tinham, porque havia sempre a mamadeira, o choro, o aluguel, o emprego, o emprego, o emprego, a vida, a morte. Havia o ovo podre que quebrara-se e depois a cozinha inteira fedia. Havia o tempo e a falta de tempo e a falta de sexo e a falta de amor. Havia o sexo maquinal, como o bom dia maquinal, o boa tarde maquinal, o te amo maquinal, a máquina de lavar quebrada – única coisa que deveria funcionar como máquina e a maldita não funcionava. Máquina, máquina, massa, que se enrola na trama dos dias insolúveis como o café solúvel que empedrou – o pó acabou; só tinha esse.

Uma máquina velha. Era isso que estava se tornando. Aquele azeite que antes corria na máquina de seu corpo era já óleo velho e ainda assim o economizava. Vai tudo mal, não há dinheiro. Compra-se sapatos para compensar a falta de: todo o resto e mais um pouco.

E a sobra, a sobra que não se corta. Que nem etiqueta de roupa. Que nem massa de bolo grudada na tigela. Coisa que se lambe. Lambe-se a camada de sobra para chegar ao fundo. Lambe-se o fundo sem gosto, esperando que ainda fosse gosto de sobra. Roe-se o osso. De dentro para fora. Como se quisesse matar a parte ruim do almoço e deixar a boa para o final, primeiro a acelga, depois o bife.  Morde, aí sim. Morde a camada tenra. Não é sobra, não é osso, fundo, nem desgosto, é carne. É um exagero. Por fim tem gosto de sobra, de uma coisa que é desnecessária, que é demais.

Sopra. O ar que não pertence ao pulmão, fora dele deve ficar. Mas não há vazio. Há um monte de coisas que, mesmo sendo um monte não preenchem, mas que nem por isso deixam ser o vazio.

Antes a sua vida era cheia. Quando ainda havia azeite. Quando a economia era nas coisas e não nas palavras e no carinho. E aí tudo se desfez porque parecia que não era mais necessário. A máquina funcionava sozinha. Os filhos choravam e cresciam. Dizia-se haver amor, mesmo não havendo flores, jantar, cinema, conversa, abraço, momento de silêncio antes do beijo, fome, fome, fome de viver, de acordar, de dormir para sonhar.

O que te trouxe até aqui hoje?

Era a velha. Com o caderno de anotações nas mãos.

Uma ameixa.

A velha não perguntou mais. Esperou. Até que ela começasse a explicar. A velha sabia que ela começaria, assim que tivesse coragem de contar a história.

Não podia olhar para aquela velha e dizer Estou velha. Seria incoerente. Pensou por um momento que a psiquiatra daria risada de sua cara quando dissesse isso.

Foi uma ameixa que estragou na gaveta.

Estava na geladeira mas estragou mesmo assim. Achei aquilo um desperdício. Naquele calor, seria bom comer uma ameixa madura. Mas aquela estava podre. Mole. Desperdiçada dentro da gaveta da geladeira. Sempre comprei ameixas pretas porque ele gosta, o Jorge. Mas essa se desgarrou das outras que estavam num saco. Ficou escondida. E ele não viu. Ele é um pouco desligado. Não é culpa dele. Aí a ameixa apodreceu. 

Sabe, nunca como as ameixas. Sempre deixo para o Jorge, sei que ele gosta. Mas naquele dia não sei o que me deu. Abri a geladeira morta de vontade de comer uma ameixa. Naquele calor… E aí dou com a ameixa podre… o resto do pacote vazio. Quando penso nisso, penso que eu podia ter jogado aquela fora, ter esquecido, ter caminhado até a quitanda e comprado um pacote cheio de ameixas só para mim. Mas que egoísmo isso seria, não? Você não acha? Não seria um exagero absurdo? Como seria isso? Eu chegaria em casa com o pacote de ameixas, sentaria na varanda e as comeria todas; eu; sozinha? Não faz o menor sentido, uma cena dessas. Não que o que eu fiz tenha algum sentido…

O cheiro de morte era adocicado e invadia a cozinha inteira. Sentou-se na frente da geladeira, com a porta aberta. Olhou bem para a ameixa podre. Sua casca ainda lisa. Só se sabia que estava podre pelo cheiro e porque era molenga nas mãos. Olhava para as unhas que não tinha tido tempo de fazer. Tinha a louça sempre que não a deixava ter unhas bonitas. Estava sentada como uma criança, as pernas uma para cada lado com a gaveta à frente, aberta. O ar da geladeira era frio, embora cheirasse estranho, e refrescava. Ela suava, dentro da camiseta meio rasgada e velha que usava dentro de casa em dia de faxina. Tinha ainda meia faxina por fazer. Olhou mais uma vez para a ameixa e sem exitar colocou-a inteira na boca. Fechou os olhos e mordeu. Depois de um ploc do estouro da casca, sentiu o gosto amargo e venenoso de podre. Mastigou mesmo assim. Mastigou fazendo uma cara azeda.

E roçou depois a língua sobre os lábios, trazendo as gotas do suco que escaparam de volta para dentro da boca. Engoliu.

Tomou um copo d´água inteiro num gole só para tirar o ranço da língua. Ainda sobrou um pouco. Tentou esquece-lo fazendo o resto da faxina, mas ele continuava a brotar na boca como água de nascente. Por que fizera aquilo? Sabia a resposta mas não queria admitir. Precisou ouvir de uma velha:

Você fez apenas aquilo que está habituada a fazer. Não me é nada estranho que você tenha comido a ameixa podre. Você mastigou aquilo que quis muito como se fosse a coisa doce que desejou, ainda que o gosto verdadeiro fosse de féu. Essa é a sua vida. Aquilo que você esperava que fosse doce, não era, mas você mastiga mesmo assim. Os dias, o casamento, a casa, tudo. Você mastiga, como uma máquina a espera que desse processo saia um produto, um objeto novo, uma roupa limpa. Mas dessa máquina que você criou só sai um gosto amargo, o gosto da rotina, do hábito, da mentira.

 

 

Saiu do consultório atônita, mas ao mesmo tempo, católica que era, pensou que Deus daria forças para que ela conseguisse fazer o que tinha de fazer. Era uma mulher decidida. Quando colocava uma coisa na cabeça, fazia. Avaliava antes o que todos pensariam a seu respeito e depois fazia. Resolveu forçosamente pular essa parte, a de pensar nos outros, só dessa vez.

Passou na quitanda e comprou um quilo de ameixas. Entrou pela porta de casa. A criança não estava, era cedo, tinha a escola. Sentou-se na varanda, abriu o pacote, começou a comer. Jorge chegou. Passou por ela, estranhou que ela estivesse sentada na cadeira de um jeito torto e não da maneira toda certinha que sempre via. Resmungou alguma coisa sobre as ameixas. Pegou uma e sentou-se na cadeira ao lado, apoiando a pasta do trabalho, que ainda tinha nas mãos, no chão. Interessou-se por aquela mulher. Não a via há algum tempo. Aquelas pernas cruzadas de um jeito irreverente, o cabelo solto, comendo as ameixas, deixando que a cara e as mãos se lambuzassem. Mas era tarde.

Jorge, quero o divórcio.

Anúncios

2 comentários sobre “A Máquina

  1. ela queria o divórcio. mas ele se interessou por aquela mulher. ela finalmente mudara e essa mudança o atraiu. será então que a “culpa” pelo divórcio não seria dela mesmo? porque se ela tivesse sido sempre a mulher que se senta irreverente, a que come as ameixas ao invés de deixar todas para o jorge agindo de um auto-menosprezo, se diminuindo, machista, será que se ela sempre tivesse sido assim jorge não teria se interessado mais por essa mulher e hoje ela seria mais feliz? se…se…se

    • Acho que dizer que a culpa é de um ou de outro é muito simplista… no conto acho que até a máquina de lavar colabora para que as coisas dêem errado. Mas abster o Jorge de qualquer culpa certamente não é o mais certo também. Uma separação nunca tem um só motivo. E o se… se… se… sempre existe.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s