Os Amantes

 

Gateava em cima do muro. As pernas balançando para frente e para trás, penduradas. Sorvia com a lingüinha áspera e rosa o leite do picolé de coco. A franja mais comprida do que deveria cobria metade dos olhos, mas não se incomodava. Deixava-se não enxergar, brincando de japonesa. O Sol era também demasiado forte para apreciá-lo olhando direto em sua direção.

 

Na rua, um caixa eletrônico. Bem de frente para sua casa. A porta do banco abria… fechava. Hora ou outra alguém ficava preso no detetor de metais e ela ria-se das pessoas despindo-se de seus objetos.

 

Casais passeiam. É sexta-feira.

 

Madalena, seus olhos azuis, sua pele branca – quase tão branca que não deveria estar exposta àquela hora -, loira. Alguns casais brincavam com ela ao passarem. Sexta-feira era dia de casais na rua da sua casa. Era dia de namorar em Nossa Senhora da Parreira. Era assim que se chamava a cidade pequena, onde todos trabalhavam na fábrica de suco, exceto sexta-feira, dia em que a fábrica fechava para balanço semanal e limpeza. E dia em que os casais passeavam de mãos dadas.

 

Era uma cidade pacata e sem crimes, também monótona e pequena demais para a curiosidade de Madalena.

 

Mais um casal passa a sua frente. São frívolos, inconseqüentes. Dá um certo gosto de ver a maneira como seguram as mãos um do outro, um jeito forte, apaixonado. Riem da vida. De sua audácia. De serem jovens. De terem tempo para rir. Madalena gosta de ver como se olham.

 

Mas a felicidade é somente tão duradoura quanto a inveja dos outros permite.

 

Da esquina, um bando de marmanjos provoca, grita, faz troça. Um deles empunha um taco de beisebol, o que no Brasil é motivo de desconfiança, já que o esporte não é tão popular.

 

Madalena assiste a tudo do muro. Continua a lamber o picolé para não desperdiçar. Está quente e ele ameaça derreter logo.

 

O taco se move. Muito rapidamente. Felipe cai no chão. Os brutamontes se enchem, seus peitos erguidos como se um balão estivesse por debaixo da pele. Sentem-se fortes, grandes, homens. São uns moleques feios, meio tortos, truculentos e burros.

 

Gustavo olha assustado, não sabe o que fazer. Grita, mas ninguém além de Madalena parece escutá-lo. Ele olha para a menina esperando que ela pule do muro, grite também ou corra para dentro de casa. Ela não se move. Seus lábios pararam no ar, o picolé derretendo. Do banco sai o segurança empunhando uma automática. Tiros no ar. Os brutos fogem.

 

Gustavo olha para o corpo rasgado, torcido, de Felipe. Ouve-se ao longe uma ambulância, mas tudo indica que não chegará a tempo.

 

Madalena sente o sorvete escorregar pelos dedos, passar pelas mãos e pingar. Um cheiro metálico envolve o ar. É um cheiro de chumbo misturado a grama molhada. Ferro e chuva. Um pedaço do picolé desprende-se do palito e cai, derretendo-se sobre o calor de uma poça quente e púrpura.

 

 


 

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