A Mariposa e a Morte

A mariposa encontrou a morte. Ou, melhor dizendo, foi a morte quem encontrou a mariposa, já que era a única capaz de distinguir, com seus olhos de feltro que absorvem tudo, a mariposa no tronco da árvore – as duas da mesma cor marrom.

Sacou da foice e já ia dar o golpe final, quando a mariposa protestou. Cantou na língua das mariposas zunindo e bateu as asas reclamando. A morte logo entendeu e achou muito absurda a inconformação da mariposa. A mariposa não queria morrer. Dizia-se estar ali há muito pouco tempo. Resignada desde já da vida desgraçada que tivera, de ter sido sempre marrom e feia, de todas as borboletas fazerem-lhe inveja e de todos os pássaros quererem sempre come-la. Nunca tive paz.

A morte garantiu a ela que finalmente teria paz assim que a degolasse. Disse-lhe que não doeria nada e que a mariposa finalmente teria a paz celestial e bateria asas em outro lugar mais bonito.

A mariposa, descrente, zombou da morte dizendo-lhe que ela apenas falava aquilo por não saber do que estava falando – que a morte jamais saberia o que era paz, porque não podia jamais morrer, que estava condenada a uma eterna vida de ceifagens. Enquanto ela, a mariposa, nunca seria feliz depois de morta, pois só saberia lamentar a vida que tivera.

A morte, decidida a dar-lhe uma lição e fazer com que a mariposa entendesse sua insignificância e sua ignorância, propôs-lhe uma troca. Prometeu não mata-la, desde que não a pudesse encontrar. Mas já que a mariposa não estava contente com sua aparência, a transformaria num pássaro.

A mariposa, toda contente, quis ser um daqueles pássaros azuis de bico negro que despontam no meio da mata. A morte, no entanto, disse que milagre assim não era possível e que ela, sendo uma mariposa feia daquela maneira, dava, no máximo, para pardal. Acordaram um meio termo e a mariposa foi transformada num bem-te-vi.

 

 

A mariposa, lépida e faceira, achando-se linda, resolveu voar pela mata com suas novas asas largas, exibindo o peito amarelo de bem-te-vi para quem quisesse ver.

Foi quando encontrou pelo meio do caminho um gavião. Ou melhor dizendo, o gavião foi quem a encontrou.

O gavião quis logo abocanhá-la. Percebeu, no entanto, que aquele bem-te-vi tinha algo de estranho. Era um pouco desastrado e manco, como se nunca tivesse voado com aquelas asas – não tinha a graça comum aos pássaros. Antes de abocanhá-lo, o gavião curioso e querendo evitar uma possível indigestão, perguntou ao bem-te-vi por que ele voava daquela maneira tão estranha. A mariposa logo declarou: É que enganei a morte. Eu era uma mariposa, mas veja só você, a morte me fez virar bem-te-vi.

Ressabiado como era, o gavião pensou que aquilo pudesse ser conversa mole. Disse então ao bem-te-vi que provasse ter sido antes mariposa. A mariposa pensou por algum tempo e resolveu que a melhor maneira de provar ser uma mariposa era esconder-se no tronco de uma árvore, coisa que sempre soube fazer muito bem.

Claro que, com sua nova aparência, a mariposa vestida de bem-te-vi não podia se esconder no tronco. O gavião então riu-se longamente.

A mariposa humilhada apoiou-se no galho da árvore com as duas novas patas que possuía e percebeu a grande burrice que tinha feito.

Passados alguns minutos, quando o gavião finalmente acalmou o riso, resolveu comer o bem-te-vi. Chegou a morte.

Tantos anos como mariposa e eu não a pude encontrar. Mas um dia como bem-te-vi e já estás no bico do gavião, mariposa? Ria-se a morte da trama que acabara de armar. A mariposa, muito humilhada, achou por bem dar à morte seu pescoço. Mas foi então que o gavião achou tudo aquilo muito esquisito e desarmou o bote. Queria bem-te-vi e não mariposa. Desistiu e voou para longe. Ficou então a critério apenas da morte decidir se levava ou não a mariposa.

Foi quando a mariposa finalmente entendeu o propósito de tudo aquilo. Lembrou-se que agora era pássaro e resolveu usar seus novos talentos. Cantou um silvo agudo e afinado que encantou a morte. Ouvidos enganados, não pôde mais matar a mariposa. A partir deste dia, o bem-te-vi leva a morte no bico. E todas as vezes em que a morte é enganada, ouve-se o canto do bem-te-vi.

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