Procissão Virou Carnaval

Vinha andando devagar a procissão de anjinhos. O padre à frente e mais uns adultos a carregarem a imagem da santa. Pela estrada de terra sem fim. Era daqueles tempos em que se deixava um bando de crianças caminharem pela estrada cantando hinos religiosos sem a preocupação de perde-las. As pessoas, umas cuidavam das outras. Os pais cuidavam dos filhos, mesmo que não fossem seus filhos. Os filhos respeitavam os pais, mesmo que não fossem seus próprios pais. Andavam a cantar como se o Sol não avermelhasse suas caras redondas, como se não trincasse a pele. Fazia um calor insuportável de março. Não chovia havia cinco dias e o ar ressecava as bocas e as narinas.

Um carro passava, vez ou outra, pela estrada estreita levantando a poeira que se amontoava nos cabelos e nas roupas.

O padre propôs que todos os seguissem nos cantos. Começava entoando a primeira frase e deixava que as crianças, que tinham mais força nas cordas vocais, novas em folha, gritassem e cantassem alto para os céus.

Olhou para frente, teve a impressão de uma miragem. Depois achou que estava sendo testado, como Jesus no deserto. Parou e deixou-se olhar para as crianças; pausou para ter certeza que todas acompanhavam a procissão sem ficarem para trás. Aproveitou sua pausa para respirar um pouco. Olhou para a garrafa de água benta em suas mãos e pensou como não seria bom poder beber daquela água antes de a desperdiçar sobre os fiéis.

Olhou mais firmemente, dessa vez, para o horizonte. Não era miragem. Vinha naquela estrada estreita, ao longe, uma jardineira. É preciso explicar que naquela época chamavam-se assim os ônibus pela gente do interior; em alguns lugares ainda se chama.

Não sabia o que fazer. Vinha aquela jardineira enorme bem na direção deles e não havia como avisar a todos para afastarem-se para o lado, senão no grito.

Gritou o padre com toda vontade que Deus lhe permitiu:

 

_A jardineira! A jardineira!

 

Não podia a inocência infantil, que tanto se resvalara há não muito tempo nas ruas a pular carnaval, senão entender que o padre resolvera entoar não um hino, mas uma marchinha bem conhecida. Lá iam as crianças, para a surpresa do padre, a mudar o ritmo da procissão. Estava de volta o carnaval e as crianças cantavam:

 

“Ó jardineira por que estás tão triste? Mas o que foi que te aconteceu? Foi a Camélia que caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu…”

 

E assim continuaram cantando até chegar na Igreja da cidade. A procissão logo se desfez e virou festa e o padre não achou nada daquilo ruim. Achou naquilo um sinal divino. Uma esperança de conseguirem chegar debaixo daquele Sol ao seu destino final, o que talvez os hinos religiosos não tivessem permitido, soturnos e tristes que são. Logo, o padre cantava também baixinho:

 

_”Não fiques triste que este mundo é todo teu, tu és muito mais bonita que a Camélia que morreu!” –  vinha-lhe em seus pensamentos um momento de sua infância: um carnaval de marchinha em que andava de mãos dadas com uma menina pelas ruas a pular; naquele tempo não sabia o que era pecado e Deus era um velho bom e de cabelos e barba brancos.

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