Os Sapatos

Você já deve ter se sentido usando o par errado de sapatos. De maneira literal, ou metafórica mesmo. Mas tudo junto não é um pouco demais?

No momento, encontro-me desempregada – ou, como alguns dizem, dando consultoria particular de arquitetura, o que se resume em boa parte a ajudar minha mãe a escolher o tecido novo para o sofá, e ela nem sequer segue os meus conselhos profissionais. Assim, não preciso ficar andando para cima e para baixo, tanto quanto eu andava quando estava empregada. Do salto alto eu passo longe, a não ser pra sair no fim-de-semana. A roupa social está no armário tomando pó.

Acho isso tudo uma grande ironia. Por quê? Bom, porque meu emprego durou exatos 21 dias. Nesses 21 dias, apenas no último não choveu. Fui mandada embora por um remanejo da empresa, ou por o que eu prefiro chamar de destino mesmo, o popular “não era pra ser”.

Acho que a vida às vezes tem um jeito estranho de nos avisar as coisas e nós fingimos não entender.

Primeiro dia de empresa. Chovia. Saltos altos. O ponto de ônibus fica a uns sete quarteirões de distância do escritório.

A água entrou dentro do sapato e a sola do meu pé começou a roçar na parte de dentro. Cada passo que eu dava, eu sentia a sola do sapato esfolar meu pé.

Segundo dia. Chovia. O ponto de ônibus há sete quarteirões me parecia o caminho para Santiago de Compostela.

A água entrou no sapato de novo. Mas, no caso, o meu pé estava tão envolvido por um milhão de algodões, ataduras e esparadrapos que eu nem sequer sentia meus pés. Mentira… Só de pensar nas bolhas na sola de cada pé já doía.

O meu trabalho no escritório era uma completa diversão – só que não – que se resumia a passar o dia na frente do Auto Cad trocando “dormitório de empregada” nas plantas dos apartamentos por nomes mais apropriados à aprovação da prefeitura como “despensa” ou “despejo”. Um trabalho que não só era maçante, mas ia contra todos os meus princípios como arquiteta.

Para melhorar, cheguei à conclusão que não se pode trabalhar num escritório e se misturar com o pessoal a não ser que você reclame. Reclamar do trabalho é uma espécie de ritual obrigatório.

Não fosse o fato de todo e cada colega meu planejar sair daquele escritório o mais rápido possível, e o fato de o chefe ser uma pessoa que acha aceitável gritar, ridicularizar e humilhar os empregados uns na frente dos outros pelos seus erros, talvez eu até achasse as reclamações desnecessárias. Com o tempo, eu me sentia fazendo o que mais odeio: pisar em ovos para ter certeza de não cometer erros.

Deixe-me apontar que com os pés esfolados, e com a rotina cansativa, desgastante, e nem um pouco animadora do escritório, eu logo comecei a questionar o quanto eu realmente gostaria de passar meus dias ali, com os pés doendo e a cabeça em outro lugar.

de agora em diante, só esse

de agora em diante, só esse!

Meu último dia de trabalho. Já tinha descoberto um ônibus que me deixava mais próxima do escritório. Meus pés não doíam mais. Os sapatos já não eram mais tão desconfortáveis. Não chovia, o que já assinalava que algo de estranho estava para acontecer. Ignorei, é claro, que pudesse ser um sinal.

Começo meu trabalho sendo elogiada, pelo cuidado e atenção. Um colega de escritório, arquiteto, diz que assim vou longe. Me pego pensando que o longe a que ele se refere é ter um emprego de escritório, passar o dia em frente ao Auto Cad corrigindo projetos, ficando com tendinite, tendo os pés doendo com saltos altos, e uma remuneração que é praticamente vender a alma para o diabo. Eu seria infeliz. Eu sabia disso. Se eu continuasse naquele emprego, crescesse dentro daquele escritório, eu seria completamente infeliz. Mas que jeito? Eu não podia recusar o salário e a oportunidade que estava tendo. Achar um estágio não está assim tão fácil para sair jogando emprego fora. Continuo sentada naquela cadeira de escritório que gira para a direita e para a esquerda, fazendo meu trabalho atencioso.

Depois do almoço, me chamam na sala de reuniões.

Quando alguém começa a se justificar antes de dizer alguma coisa, você já sabe que não virão boas notícias. Eu sabia pelo tom da conversa que eu seria demitida. A empresa está precisando de outro perfil de funcionário. Nós gostamos do seu trabalho, mas precisamos só de estagiário operacional de primeiro e segundo ano. Você está no quinto ano, será um desperdício das suas capacidades. Outra estagiária resolveu sair da empresa. Nós vamos te indicar para outros escritórios… Vamos ter que te dispensar.

Eu deveria dizer que fiquei triste de perder o emprego. Eu tive um pouco de raiva, pela falta de comprometimento da empresa, é verdade. Mas quando coloquei os pés fora daquele prédio, o que me ocorreu foi uma sensação tão grande de alívio que foi como tirar um par de sapatos que não me serviam, que estavam apertados e, por isso, desconfortáveis.

Acho que, de alguma forma, quando meu salto mais confortável machucou meu pé, eu deveria ter prestado mais atenção. Deveria ter entendido que estava usando o par errado de sapatos desde o começo, quando me sujeitei a trabalhar em algo que, desde sempre, eu soube que não era adequado ao tipo de vida que eu gostaria de ter. Digo isto com muita certeza. Eu passei um ano em outro país, viajei pelo mundo, e nesse tempo procurei descobrir qual era o tipo de vida que eu gostaria de ter. Voltei e, ao invés de tentar concretizar essa ideia, comecei a fazer tudo ao contrário.

Nesse momento, estou de havaianas em casa. Não estou parada. Estou confabulando novas prioridades e outras maneiras de chegar onde quero. Elas certamente não incluem usar sapatos que machuquem.

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Um comentário sobre “Os Sapatos

  1. Nada melhor do que sair de um lugar que não gostamos! Às vezes nos prendemos por salário, ou por nos sentirmos obrigado a trabalhar e com isso vamos ficando mais e mais tempo infelizes em um lugar onde não rendemos 100%… Logo você encontra algo que seja mais seu estilo!

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