Receita

Olhávamos uma para a outra com aquela cara de quem acabou de descobrir uma coisa impossível, de quem retirou do chão o fóssil de um animal que ninguém sequer sabia existir. Eu e a Flavia já tínhamos trocado receitas, mas não do tipo que se cozinha. Essa era a primeira vez que falávamos de comida, eu acho, e chegamos as duas à uma suspeita bizarra.

_É com abacaxi em calda?

_Isso.

_E daí tem um creme que vai por cima?

_Mas tem que ser com bolacha champanhe!

_Isso! É o que vai por baixo.

Camada por camada, se fez na minha cabeça, a receita do pavê de abacaxi da Tia Alzira, aquele que era, muito provavelmente, o mesmo pavê da Tia Maria, que a Flavia torcia todo ano para ser feito. Paramos nesse momento para salivar as duas. Lembramos de quantas vezes foi feita a infame piadinha do “É pavê ou é pácomê” E chegamos à mesma conclusão absurda de que não podíamos as duas ter a mesma receita na família a não ser que nossas famílias já tivessem trocado a receita em algum momento da história. O que mais me intrigava era o fato de as famílias já terem estado ligadas antes de alguma maneira.

Passamos a questionar a fonte original da receita. Muito provavelmente uma mente criativa das antigas inventou a moda com as também então recém-inventadas, naquele momento, bolachas champanhe. Mas a que família pertenceria essa mente criativa, não sabemos…

Temos apenas o palpite de que uma prima minha e um primo dela namoraram, há alguns anos luz atrás. E que desse namoro resultou a transmissão da receita. Soube recentemente por fonte familiar, que a receita do pavê da tia Alzira, sempre foi dela, e que quem levou a receita para o lado de lá foi o rapaz, que teve a pachorra de ligar e pedi-la à minha tia algum tempo depois que o namoro já havia acabado – mas que cara-de-pau! – pensei eu – deve ser mesmo primo da Flavia… depois pensei melhor… se fosse eu, talvez tivesse feito a mesma coisa; não era qualquer pavê, era o pavê da tia Alzira.

manjar de coco (imagem do site http://figosefunghis.com.br)

Essa semana lá vem minha mãe com outra história. Uma viagem para o Rio, com amigas com quem ela nem fala mais, quando ela tinha seus vinte anos; um tio carioca de uma delas que tinha trabalhado como cozinheiro do Copacabana Palace resolveu fazer um jantar para recebê-las; o resultado: eu comendo manjar de coco e ouvindo a história, enquanto salivava ao preparar a próxima colherada.

Minha mãe reclamava e resmungava que fez a receita de cabeça e que ela tinha dado errado. Eu não percebi nem um pouco, mas ela insistia que ficou muito cremoso… não sei o que os outros pensam a respeito, os cozinheiros famosos, inclusive, mas na minha opinião, “cremoso demais” não existe quando se trata de pudim. Foi isso que alegou a minha mãe diversas vezes, repetindo que não deu certo como deveria.

O manjar de coco é um dos melhores doces que já comi. E veja só que tudo isso saiu de uma amizade que nem sequer existe mais. Não por desentendimentos, mas apenas porque as pessoas se perderam, se afastaram. A receita ficou.

bacalhau, feito pela Dona Julia

Neste Natal o Bacalhau foi todo meu. Bacalhau, porque a família é tradicional portuguesa e no Natal esse é o prato típico. E eu, que acabei de voltar da terrinha com pelo menos umas cinco receitas diferentes de bacalhau, fiquei a encarregada. oficial de prepará-lo. Isso nunca seria possível se eu não tivesse passado um ano observando e estagiando na cozinha de uma certa Dona Julia. Dona Julia fazia o melhor bacalhau que pode existir. Nem comento o restante das coisas que saiam daquela cozinha que é para não me perder no texto. A mesa do Natal em Porto era de dar água na boca só de ver as fotos. Algumas receitas atravessaram o atlântico. Creio que as receitas que eu cheguei a cozinhar em Portugal deixem alguma saudade também. A feijoada ainda estou para ensinar.

Nesse ano, se eu não puder ter grandes acontecimentos, ou sonhos realizados, eu espero, ao menos, algumas receitas. Quero as boas receitas, e quero também as más. É bom conhecer as receitas que sempre dão certo, como o pavê da tia Alzira, ou o pudim do cozinheiro carioca. É bom conhecer as receitas difíceis, como o bacalhau, mas que no fim dão certo, e fazem muita gente além de quem cozinhou feliz. Mas se for preciso, não me importo com as receitas que dão errado; é bom saber o que desanda também.

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