Quim, o herói

 

Joaquim Gomes, o Quim, como os amigos o conheciam, andava arrastando uma sombra comprida ao longo da calçada com a cabeça baixa, sem saber que quando o Sol saísse e morresse de novo, ele viraria o herói da história. Andava já com aquela coragem que tinha a lhe embalar o coração toda manhã, mas não sabia ainda que uso seria feito dela. Sua sombra na madrugada, que virava dia, aos poucos encurtava quando dobrou no largo de São Francisco. Passou pelas colunas largas e altas do edifício e sumiu para dentro. Só saiu de lá muitas horas depois, quando as aulas deixaram de ficar interessantes e os amigos o conduziram ao boteco mais próximo. A escola era, naquela época, o berço de toda a vagabundagem da cidade e dela saiam os melhores boêmios, aqueles que, com toda certeza, morreriam jovens e viveriam felizes e que justificavam sua vida curta, louca e vadia com poemas de Lord Byron.

 

Quim não era muito de se juntar aos colegas nessas noitadas, que começavam quando ainda havia dia. Era um tipo mais ou menos responsável que, diferente dos amigos riquinhos, dava valor ao que comia, ao que bebia, e à vida que tinha, uma vida suada. Mas hoje resolveu que era seu aniversário e que não havia mal nenhum em comemorar passando um pouco da conta.

 

Do boteco foram para o bordel. Era a noite do show de Kika Frisson, a mais bela puta de São Paulo – ou seria a puta mais bela? Contavam que Joseph Bellocq, fotógrafo famoso da categoria, tinha feito uma série só com ela, mas antes que ela pusesse os olhos nas fotos, o americano sumiu no mundo. Havia quem dissesse que ela tenha tido um caso com ele, uma verdadeira paixão com direito a final trágico, aborto e tudo. Dizia-se também que ele a fazia acreditar nessa paixão apenas para não pagar os serviços da casa. Eu acho que ele a iludiu com a fama que as fotos poderiam trazer, só para ter mesmo as fotos. Sumiu porque já tinha material suficiente para se masturbar para o resto da vida e porque sentia saudade das putas de New Orleans.

 

Kika era ruiva natural. Seios bem-feitos, anca larga, cintura fina. Gostava de dar de quatro. Era o sonho de todo estudante poder juntar dinheiro para come-la. Das fotos de Bellocq, kika era das poucas fotografadas cujo rosto não fora rasurado, hábito que ele tinha. Seria realmente um desperdício. A cara fina, os traços pequenos, parecia uma meninota, diferente da maioria das mulheres feias e velhas que se colocavam na profissão. Não tinha rugas – a pele era lisa e vistosa. Quase nunca bebia, mas quando bebia era Vodka. E bebia melhor que qualquer homem. Kika era russa. Dizia ter fugido de casa e se enfiado num navio. Quando foi descoberta como clandestina, propôs-se a pagar ao capitão pela viagem servindo-o como sua meretriz particular para o resto da vida.

 

Quando chegou ao porto, o comandante naturalmente não a queria deixar ir. Mas kika foi esperta. Kika dormia com muitos outros tripulantes do navio às escondidas e os convenceu a amotinarem-se contra o capitão. Ela lhes dizia que não eram valorizados o suficiente, colocando os homens tão cegamente enfurecidos contra o capitão do navio, que sua fuga mal foi notada em meio a toda confusão que armou.

 

Mais uma vez ela estava na estrada. A essa altura, o capitão já havia lhe ensinado o português, porque irritava-se todas as vezes que kika xingava em russo e ele não compreendia. Ensinou-lhe as duas coisas importantes de toda lingua: a ser bem educada e a ser muito mal educada. Kika naturalmente preferia a segunda opção. Kika ainda falava com sotaque, mas era mais um charme de prostituta, ou mesmo um charme de mulher, do que um verdadeiro sotaque russo. E os pés na estrada foram andando até conduzi-la ao bordel onde atualmente se encontrava.

 

O show de kika Frisson incluía um número de alta periculosidade, que ela apelidou de “a volta ao mundo”, em homenagem a sua história. Ela sempre o dedicava ao capitão e logo em seguida o mandava para a puta que o pariu em russo. Era sensacional! Nesse dia, entretanto, Kika cometeu o desastroso engano de tomar um shot de vodka antes de fazer o número. Tonta do número que incluía algumas posições de ponta-cabeça e alguns giros e somado-se o efeito da vodka, Kika caiu do palco… direto nos braços de um Quim levemente bêbado e muito assustado, que não fazia ideia de por onde segurar a moça sem ofendê-la, o que para ele era muito importante, fosse ela quem fosse. Ele ainda desculpou-se da maneira como foi obrigado a segurá-la. Kika, que não estava acostumada com aquela educação, mal recobrou os sentidos, deu a Quim uma coisa que puta nenhuma gosta de dar. Beijou-o na boca. Beijo de cinema. Kika sabia que essa era apenas a segunda vez que fazia aquilo – a primeira foi há muitos anos atrás, na Rússia, quando escapou dos pais para fugir com o único amor de sua vida, Hugh Pavel, que alistou-se no exército logo depois de casar-se com ela, morrendo em combate na primeira batalha, por falta de experiência de um dos colegas que teria atirado para o lado sem-querer, levando kika a sua trágica fuga de navio.

 

Quim teria naquele momento virado o herói de todos os rapazes, não fosse a má sorte de naquela noite o capitão ter encontrado a pista certa da prostituta. Entrou no bordel, que parecia mais cenário de um dos cartazes de Lautrec, para dar de cara justamente com a cena do beijo. Os olhos do capitão ficaram vermelhos no mesmo momento. O sangue partiu em seguida para a ponta dos dedos que grudou na garganta de Kika o mais forte que podia. Ela, que nunca quis beijá-lo, agora fazia isso com qualquer um? Grande desaforo!

 

E foi nessa hora que a coragem de Quim coçou no peito de um jeito que ele não pôde segurar. Franzino como era, não podia bater no homem; pois puxou uma cadeira e arremessou na cabeça do capitão, que cambaleou com o golpe, largando o pescoço de Kika, e bateu a cabeça uma segunda vez no palco antes de cair no chão como uma trouxa de roupa suja.

 

Mais uma vez, Kika recuperou os sentidos nos braços de Quim. E Quim era finalmente o herói da história. Kika queria que Quim tivesse tudo dela, o corpo, os beijos, a alma. Mas Quim lembrou-se que era tarde e que se não pegasse o último trem, o trem das onze para Jaçanã, não chegaria mais em casa no mesmo dia. E se ele não chegasse, sua mãe não dormiria. A responsabilidade pesou nos ombros e Quim resolveu que era hora de partir. Prometeu a Kika que no dia seguinte voltaria para vê-la.

 

 

 

A sombra comprida caminhava mais uma vez pela manhã, dessa vez direto em direção ao bordel; Quim mal podia se conter de ansiedade para encontrar Kika esperando por ele. Mas quando lá chegou, ela já tinha partido. Com medo de que o capitão a encontrasse novamente, fugiu como já era hábito, deixando para trás, para um Quim iludido, apenas, uma mecha de seus cabelos ruivos e uma história.

 

Este texto é absolutamente fictício.

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Um comentário sobre “Quim, o herói

  1. um retrato de todas as oportunidades que perdemos por, talvez, pensar demais nos outros e nas expectativas dos outros.

    esse texto é absolutamente fantástico!

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