O Poeta e a Francesa

_Então você achou que a vida seria fácil?

_Não. Eu nunca tinha pensado a respeito disso antes… de se a vida seria fácil ou difícil, até descobrir que não é fácil –  aí passei a pensar nisso todo dia.

Mas e a garota no bar? Quem é ela? Me conta.

_Alguém que descobriu a mesma coisa que você, só que antes.

Todo mundo diz que deseja uma vida normal – principalmente quando as coisas complicam.  É mentira. O que todos querem é uma vida incrível. É isso que querem dizer com normal: o incrível, perfeito, impossível final feliz. Inevitavelmente, acabam descobrindo que isso não existe.

Nós nos acostumamos a histórias com finais perfeitos, porque as histórias com finais ruins não são contadas. Elas são muito tristes. E mesmo “Blue Valentine” é uma história de amor que não deu certo, mas deu. Deu certo no meio ao invés de no final. Alguns amores são assim, dão certo no meio ao invés de no final. Mas a maior parte das histórias simplesmente não tem final. Essas são as que ninguém conhece porque são aquelas que nem que se queira contar, não se pode. Elas não passam pela premissa começo-meio-fim de toda boa coisa contada. Até fofoca tem final. Histórias sem final são chatas ou reais demais.

Essa é uma história sem final, já vou avisando. É minha maneira de desrespeitar as regras, escrever uma coisa que tem começo, meio, mas não fim.

Bebeto Arruda era um recifenho. Não fez mais que o primeiro grau e não teve a sorte de arrumar um bom emprego. Morou anos em São Paulo, mas nem se lembrava mais da cidade que tinha sido moldura e pano de fundo da sua infância. Voltou puxado pela mão da mãe para Recife, quando tinha doze anos. Cresceu e virou homem. Tinha vinte e dois anos quando a mãe morreu duma gripe que médico nenhum soube explicar. Vagou pelas ruas de Recife por muito tempo como vagabundo, depois de sair da casa do pai que já não tinha mais como sustenta-lo. Ele, que sempre quis ajudar a família, se via agora sem rumo e não podia ajudar nem a si mesmo. Até o dia em que escutou dois homens conversando na padaria, enquanto tomava um pingo que lhe pagaram por pena.

São Paulo é que é terra boa, dizia um deles. E o outro concordava veementemente contando um causo dum primo que tinha se alojado bem, trabalhava e ganhava para sustentar toda a família. Onde tem dinheiro tem emprego, Zé. Aqui, nessa pobreza, não tem lugar para ninguém.

Bebeto, ouvindo isso, enfiou na cabeça que a primeira coisa que faria, assim que conseguisse, era ir para São Paulo; resolveu que tinha saudades. Entrou em tudo que foi caminhão de carona, com nada na mão, além dos pertences que embrulhava numa manta e que já carregava pelas ruas de Recife. Não foi roubado no caminho porque era um mulambo. Também não conseguiria ganhar dinheiro nenhum, não fosse a sua habilidade com a língua portuguesa. Não se sabe de onde saiu tal talento. Pena nunca ter estudado. Se assim fosse, Bebeto teria sido grande poeta. Era só gente boa. Abordava as pessoas com o pouco conhecimento que tinha e que seu avô havia lhe dado. Era um comunista, o avô, um renegado da família que só aparecia em casa no Natal para trazer o que comer. Era a única vez no ano em que tinham carne na mesa, além de farinha e feijão. Ninguém sabe de onde tirava dinheiro para essa regalia, mas também nunca ninguém perguntou, com receio da resposta. Já dizia minha bisavó que “ovelha que berra, bocada que perde.” O avô o ensinava tudo sobre os poetas que tinha conhecido. Era um andarilho e já tinha trombado com todo tipo de gente. Ensinava tudo que podia ao menino Bebeto, que aos poucos decorou algumas coisas que o avô falava e começou a declamar. Era assim que Bebeto ganhava a vida quando chegou em São Paulo: declamando. Ao invés de mendigar, pedia permissão, muito educado, como sua mãe lhe ensinou, e começava a introduzir loucas teorias ao interlocutor, que geralmente espantava-se com a capacidade de um mendigo em saber tudo aquilo e lhe dava algum trocado.

Estava esses dias sentada num café quando ele veio me vender suas teorias. Paguei não para isso, mas para saber a sua história. O que me intrigou foi Bebeto não me contar nada disso que eu já disse acima, quando lhe interroguei sobre a vida. Do meu inquérito resultou apenas um relato besta e inesperado de amor.

Bebeto disse-me que, recém-chegado a São Paulo, rondava as escadarias da Gazeta, na Avenida Paulista, uns sete anos atrás. Disse que nessa época passava muita fome, frio e que tinha medo, muito medo da cidade – um medo que não tinha de vagar e dormir nas ruas de Recife, embora, dizia ele, Recife fosse palco de coisa muito pior do que o que ele via por ali. O que o assustava não era a violência explicita, mas a maneira violenta que as pessoas tinham de viver: o correr constante das pessoas nas calçadas, a bagunça do trânsito de gente que por nada queria se matar, a violência escrita nos muros em frases pichadas, dos animais que só saiam das casas em coleira, do barulho sem fim que a cidade ecoava dia e noite, sem descanso – disso ele tinha muito medo, de ser sugado pelo furacão da cidade.

Foi quando numa de suas abordagens por mais um trocado, encontrou um problema. Dirigiu-se a uma menina, que devia ter por volta de seus vinte e cinco anos. Disse-lhe muita coisa, muita mesmo, porque ela demonstrava um grande interesse no que ele falava. Depois de quinze minutos de discurso, Bebeto achou que era hora de perguntar a ela o que achava ao invés de ficar só falando como louco. Ela respondeu:

_J´ aime beaucoup ton accent, c´est trés different! C´est cool! Mais je n´ai pas rien compris…

Bebeto, que não entendeu nada, fez a melhor cara que conseguiu para manter a educação. A garota percebeu que não era compreendida e mudou a fala para o português.

_Me desculpe, é que não consegui pensar em português logo de cara. Eu disse que gostei muito do seu sotaque, que é muito diferente. Que é legal. Mas eu não entendi nada do que você disse por causa disso.

Élise continuou explicando que tinha vindo para São Paulo estudar jornalismo e que estava aqui havia apenas três meses. Aprendeu português com a mãe que era brasileira, mas não era capaz de entender o sotaque carregado de Bebeto. Propôs que ele tomasse um café com ela, o que ele topou na mesma hora, visto que não comia já fazia algum tempo.

A doce Élise, como você já pode imaginar, se apaixonou. Bebeto não era muito bonito, mas também não era feio. E na cabeça da francesa, sua aparência era exótica. Fez de Bebeto um projeto seu, o que as mulheres tem o hábito de fazer com os homens sempre que se apaixonam. Fez com que ele fosse conhecido entre colegas da faculdade de jornalismo e logo, comovidos com a vida seca de Bebeto,  estavam lhe arrumando uma bolsa de estudos para que ele pudesse ser alguém.

Élise tinha um interesse pessoal que Bebeto não fosse mais um qualquer. Embora não lhe importasse muito a classe social de onde ele havia saído, ela queria que ele pudesse estar a sua altura perante o julgamento dos outros. Assim, às custas da paixão de Élise por ele, Bebeto se formou num supletivo, fez a faculdade e conseguiu virar um poeta mais ou menos conhecido nas rodas pequenas das livrarias. A vida de andarilho ainda lhe fazia certa falta, em parte, mas ele controlava seu instinto de fugir se apoiando na esperança de viver sem medo. Mas o medo sempre vem.

Aquele medo que Bebeto sentia da cidade nunca sumiu por completo. E a dependência que passou a ter de Élise, bem como o novo mundo a que ele já estava amancebado, eram presenças inevitáveis na sua vida. Não queria voltar para a rua, não podia. Achava que não saberia mais viver naquela situação, sem saber o que aconteceria no dia seguinte.

O que ocorre é que começava a duvidar se era realmente capaz de viver daquela nova maneira, embora se acomodasse aos seus benefícios incontestáveis – o de ter um lugar para dormir coberto com um teto, por exemplo. Não amava Élise. Raras vezes se sentia a vontade no mundo dela, sem saber se era porque seus hábitos eram afrancesados ou por causa de seu poder aquisitivo. Nada havia restado do mundo de Bebeto em sua vida, nada que reconhecesse como seu. E viver do que é dos outros tem limites. Logo, Bebeto descobriu que ser amado não era o suficiente e que depender de alguém não era seu desejo. Começou a reparar na futilidade de seus hábitos atuais e em como já havia sido capaz de viver com tão menos. Começou a se achar snobe e esquisito diante das roupas que usava, do perfume que passava pela manhã depois de tomar banho quente e passou a enxergar até nas coisas básicas, como ter o que comer sempre, um exagero. O seu sotaque aos poucos esmorecia e apaulistanava. Seus pés ficavam sensíveis sem os calos dos longos caminhos que percorria. O cheiro de terra da estrada havia saído de seu nariz por fim.

Um dia o medo foi tão grande que o engoliu. Foi o medo ou a vontade de se ver dentro de si mesmo de novo. De ter sua identidade tão a flor da pele que na sua voz saíssem as mesmas palavras das pessoas que são da terra de onde veio. Vencido, e com a alma de artista em cravo, Bebeto deixou Élise, embora fosse eternamente grato a ela. Finalmente, achava que sua pena estava paga e que o afeto que deu a ela enquanto ela o ajudou fora o suficiente. Acreditava e se convencia de que sua alma deveria ser livre, não importava o quanto ela o amasse, nem o fato de ela ter estado todo o tempo a seu lado. Foi vencido por uma atração incontrolável pela estrada, pelo não saber onde estaria no dia seguinte que agora descobria ser uma coisa tão sua quanto o seu sotaque. Sumiu no mundo como só ele sabia fazer. E não havia meios de se comunicar com Élise, exceto por cartas esporádicas, que eram pior do que a sua ausência plena. Cada carta que recebia era, para ela, um alívio e também uma derrota.

O gosto da derrota é amargo, o amargo da acelga que sua mãe o faz comer quando é criança. Arde, mais do que o gosto propriamente dito, o ter que fazer passar pela garganta e engolir, garfada por garfada, aquilo que não se tolera. Mulher nenhuma é a mesma depois de ser derrotada por seus próprios sonhos e expectativas. Élise não seria diferente.

Élise vivia aquele inevitável momento em que se percebe que “o momento passou.” E pior que isso, que ele não vai voltar. Élise é a garota do bar. Ela senta-se todos os dias na mesma banqueta e não escolhe uma mesa porque sentar sozinha numa mesa inteira, depois de ter passado tanto tempo sentada ao lado de alguém, é tarefa impossível. Os bares e restaurantes parecem ter certa apatia pelas pessoas que se sentam sozinhas, de qualquer maneira. Parecem reconhecer a tristeza implícita na cadeira vazia a frente e não gostar da paisagem, achando que isso distrairia outros clientes e sua felicidade momentânea e acompanhada.

Élise ainda não descobriu que a história não acabou, que ela ainda é jovem demais para se afundar num amor interrompido. Ela descobrirá um novo começo, assim que alguma coisa de extraordinária lhe acontecer. Mas enquanto isso não ocorre, ela senta-se todos os dias no bar, pede um cosmopolitan, fuma como toda francesa e escreve como nunca escreveu enquanto esteve feliz.

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