A Corrida

“Quando, mais tarde, vim a saber que a lança de Aquiles também curou uma ferida que fez, tive tais ou quais veleidades de escrever uma dissertação a este propósito. Cheguei a pegar em livros velhos, livros mortos, livros enterrados, a abri-los, a compará-los, catando o texto e o sentido, para achar a origem comum do oráculo pagão e do pensamento israelita. Catei os próprios vermes dos livros, para que me dissessem o que havia nos textos roídos por eles. 

– Meu senhor, respondeu-me um longo verme gordo, nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhermos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos.
Não lhe arranquei mais nada. Os outros todos, como se houvessem passado palavra, repetiam a mesma cantilena. Talvez esse discreto silêncio sobre os textos roídos fosse ainda um modo de roer o roído.”Os vermes, Dom Casmurro, Machado de Assis. 

Sou louco. É o que diz a minha psiquiatra – não exatamente nesses termos politicamente incorretos, mas em termos técnicos que só complicam. Segundo ela, quando resolve largar o politicamente correto também, embaixo de uma tenda de circo eu encontraria menos excentricidades do que numa passada de olhos pela minha ficha médica.

O motivo da minha loucura, entretanto, não se compara em absolutamente nada à loucura alheia. Veja, que “loucura” é uma generalização para diversos distúrbios normalmente identificados como disfunções cerebrais. Em suma, o “tiuti” se dá quando a atividade cerebral não é a usual, dentro dos padrões sociais.

A minha loucura nada tem a ver com isso. Meu problema advém de uma condição física um pouco complexa que médico algum soube me explicar.

A anomalia que possuo já foi tema de diversos livros. Mas uma vez que a minha curiosidade em saber o que tenho realmente se reduziu com o tempo e com a minha tolerância a fazer exames dos mais absurdos e inconsistentes possíveis, a que gostariam de me submeter, os médicos perderam o único interesse por estudar meu caso que tinham, o de saber como sobrevivi até hoje, e assim, também eu me desiludi com a medicina. Não era o que me preocupava, saber como vivi. Eu queria saber quanto tempo eu viveria mais e como fazer para viver sem a loucura. Nunca houve uma resposta.

Apenas minha psiquiatra manteve seu interesse em me estudar. A mulher com cinco vezes a paciência que possuo soube aturar minhas alterações repentinas de humor e se preocupou em tentar me tratar, ainda que saibamos os dois que minha loucura não tem cura. Com sua ajuda, eu passei a ter alguma perspectiva além da de acordar, sobreviver ao dia sem ter um ataque e dormir. Hoje, ouso até ter sonhos.

Meu pavio é curto e impaciento-me com tudo. Exceto com a minha condição, à qual fui obrigado a me habituar. Para escrever esse texto tive que tomar três calmantes. Passo longe de café ou de qualquer coisa que possa me deixar acelerado. Reclamo muito, é verdade. Mas quem não reclamaria se tivesse que viver nesse ritmo alucinante em que meu corpo e mente funcionam? É exaustivo.

Seu filho tem dois corações. Foi assim mesmo, no susto, que meu primeiro médico disse à minha mãe, quando eu ainda estava na sua barriga. Todos achavam que, em algum momento da gestação, eu morreria. Cansada de ouvir a mesma resposta simplista de todos os médicos, minha mãe recorreu à única coisa que podia: à fé. E desde então reza todos os dias ao menos duas horas seguidas de uma maneira disciplinada e firme, em jejum, logo pela manhã. Eu nasci. Se foi a fé de minha mãe, ou apenas porque tinha de ser assim, eu não sei. Mas os médicos enganaram-se e eu sobrevivi. Nasci de sete meses, mas isso já era esperado – sou muito apressado e afoito com tudo. Minha mãe nem acreditava por me ver em seus braços respirando, dois corações batendo e tudo mais. A felicidade foi grande nos primeiros dias. Mas ela logo percebeu que a cruz havia apenas sido colocada em suas costas para que sentisse o peso e que agora é que começaria a caminhar com ela deveras.

Minha infância foi difícil em alguns aspectos. Na escola os colegas apelidaram-me de papa-léguas, porque eu ganhava todas as corridas; eu teria sido o garoto esportista popular, mas minha mãe não queria que eu corresse; preocupava-se com a minha condição e achava que eu não deveria me esforçar fisicamente. Eu nunca tive, tampouco, paciência para estudar. As professoras pareciam-me lesmas a explicar tudo muito devagar e a monotonia das aulas matava-me mais do que os efeitos colaterais da pilha de medicamentos que eu era todos os dias obrigado a engolir.

Algumas garotas se interessaram por mim na adolescência. Elas achavam que eu, por ter dois corações, seria mais sentimental com elas do que a maioria dos garotos e que eu era um bom investimento. Certa vez com a desculpa de que eu tinha um coração para cada uma, consegui convencer duas garotas a me namorarem de uma só vez. Claro que não deu certo. No fim, todas elas descobriram que não importa quantos corações tenha um homem, nenhum deles é da maneira como elas esperam. E os meus dois corações, por fazerem meu sangue circular muito mais rápido, batendo ao mesmo tempo, acabavam por transformar minhas necessidades fisiológicas e hormonais em uma incontrolável força da Natureza, o que as meninas não apreciavam muito. Isso, na adolescência, é um problema de grandes proporções que eu, como muitos dos meus colegas do sexo masculino, aprendi a controlar quando fui crescendo. Aquela idade de catorze anos, mais ou menos, no entanto, foi um inferno, mas passou…

Coubert. Auto-retrato

Ela piscou. Era mais uma das vezes em que o  inesperado resolvia bater à minha porta. Eu não podia fazer nada no exato momento em que percebi os olhos se fecharem e se abrirem lentamente, as pálpebras molhando a íris como se criassem uma película protetora de água salgada; mas em algum momento eu teria que fazer. Ela piscou de uma maneira que em parte eu conhecia e em parte não. Havia naquele olhar uma lascívia muito particular do sexo feminino, uma maneira quase sonolenta de levantar a pálpebra e depois depositar com intensidade a íris num ponto fixo. Mas havia também uma intenção particular que eu nunca havia visto e que portanto não fui capaz de, no primeiro momento, decifrar. Era a primeira vez que eu via uma mulher piscar daquela maneira. Metade daqueles movimentos eu conhecia – e só esse conhecimento já me fazia refletir que eu teria grandes problemas a seguir – mas a outra metade que eu não conhecia me instigava a ir mais a fundo e descobrir o que fazia daquele olhar de mulher, tão comum a seus pares, uma incógnita a que minha mente era incapaz de responder.

Fosse só isso… mas ela resolveu dar outros sinais parecidos. Sinais que eu era capaz, nem que não quisesse, de decifrar a quilômetros de distância por instinto. Se eu fosse um macaco destreinado, perceberia na mesma. Ela descruzou as pernas e juntou os joelhos apoiando os cotovelos neles. A cabeça apoiada nas mãos, jogou o caderno, que antes tinha nas mesmas mãos, em cima da mesa de centro e tentou parecer natural. Num dado momento enquanto eu falava, dispôs uma das mãos acima da cabeça e puxou o prendedor. Quando o cabelo se soltou o cheiro doce tão forte deve ter afetado por alguns minutos todos os homens do edifício que provavelmente nem sabem o que foi que os atingiu: feromônio puro. Será que ela sabe que está fazendo tudo isso, ou uma parte de seu cérebro e de seu corpo estão operando sozinhos em modo piloto automático? Me pergunto se ela como psiquiatra não consegue antever seu próprio corpo fazer esses movimentos animalescos. Questiono se ela quer que eu pense tudo isso, ou se ela apenas imagina que eu a ignoro ou que sou burro e ignorante e não percebo. Tudo isso passa por mim como se um fantasma atravessasse meu corpo. Nesse momento volto aos meus catorze anos.

É estranho, mas essa mulher me faz mais vulnerável que qualquer outra seria capaz. Isso não se deve ao fato de, como você já deve estar imaginando, eu estar apaixonado por ela. Negativo. Minha frustração é saber que essa mulher me conhece talvez melhor do que eu mesmo poderia fazê-lo e que, por isso, não passo de uma preza fácil, um grande guinu listrado no meio de uma enorme planície – nem um arbustinho sequer a vista! Pior que isso, devido a minhas condições físicas, meu corpo reage muito rapidamente ao que minha mente cogita, o que quer dizer que a essa altura eu já não possuía controle de certas partes, aquelas justamente que eu mais gostaria de controlar.

De repente, me passa a coisa mais absurda pela cabeça. E não tem nada a ver com todos os outros pensamentos que eu tive antes. Porque até então a única coisa que me afetava era o constante pensamento “sexo” envolvido na cena. Comecei a pensar o que aconteceria se desse errado. E foi quando me toquei que se isso ocorresse eu perderia a psiquiatra e isso seria uma grandessíssima perda, incomparável a perda de qualquer namorada. A única pessoa que me compreendia no mundo era aquela. Se desse errado com ela, o que é que eu faria? Mas… como todo homem, a cabeça não pensou por muito tempo e padeci aos intuitos fortes e tragantes de meu corpo.

Resolvi seduzir o que já estava seduzido, o que não deixou de ser divertido, principalmente pelo meu pensamento já longínquo, mas ainda avistável, de que eu estava fazendo algo proibido. Acenei para ele enquanto arrancava gritos afoitos da mulher que antes me consultava, no mesmo divã em que muitas vezes chorei. Considerei isso uma espécie de vingança minha para com aquele lugar amaldiçoado. Enquanto olhava para a cara de gozo dela, Glória – e que Glória! – percebi pela primeira vez em algum tempo que não estava preocupado em morrer pelo esforço que estava fazendo. Entenda que fui condicionado a pensar a todo momento que eu morreria logo a seguir e que qualquer esforço que eu fizesse poderia arrematar essa propensão. Senti-me, naquele momento, o garoto que apostava corridas. Como se eu tivesse oito anos e a linha de chegada fosse muito, mas muito mais perto que a distância entre eu e os outros moleques. Eu seria o vencedor dessa vez.

Um homem pode ter quantos corações tiver que todos eles baterão pelo mesmo motivo estúpido, uníssonos e burros. Cantarão a mesma canção infeliz dos amantes que decidiram amar porque já estavam presos nas algemas do prazer, antes de perceber o sussurrar doce da dor, tarde demais para fugir ao chamado da razão.

Morrerei de amores. Morrerei mesmo. De verdade. Um belo dia meus dois corações, cansados de sofrer e afoitos por sair da sensação constante de disfuncionalidade, vão parar de bater. Os médicos dizem-me que sofro de um crescimento exagerado dos músculos ventriculares, que se revelou nos últimos exames de rotina que faço. E como haveria de ser diferente? Um coração só pode mesmo crescer quando está apaixonado.

Vou morrer no dia em que essa mulher me abandonar. E sei que ela o fará eventualmente. É a triste rotina, velha conhecida minha, quando o assunto é  mulheres. A diferença é que essa, se me abandonar, abandona-me com ela o único amor que já tive. E isso acontecerá porque eu sei que sou insuportável, não importa a paciência que ela tenha; ela um dia se cansará de me satisfazer ou de me consolar. Meus dois corações crescidos, sem mais razão de assim serem, vão querer se contrair e voltar a seu tamanho original e nesse dia morrerei. Uma vez que um coração cresce, não há resiliência que o traga de volta. Apaixonado uma vez, para sempre apaixonado. E esse será meu triste destino e fim. Enquanto ele não chega, vivo nos braços da mulher amada, a única vida feliz que eu poderia desejar ter, que não importa o tempo que dure, será a única vida que vale viver.

Estou aqui escrevendo, apenas para deixar o recado a outros loucos que talvez entendam o que tenho a dizer: A vida é um caminho que só se vale percorrer correndo pela vitória. E a única vitória que se pode perseguir é o amor de alguém.

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