Vingança


_Vingança, Amor. Ou você acha o sonho de toda garota é ter fama?

Esse é o único motivo que ela precisava. Enquanto a agente acertava os últimos detalhes do contrato, ela não se abalava com as oscilações do preço, nem tampouco com as cláusulas infinitas – seu advogado cuidaria disso. Ela só estava ali por um único motivo. Foi a palavra mágica que a convenceu. A palavra que ela mesma se disse. E que depois reproduziu a quem perguntasse. Por que o ensaio de fotos? Por que agora?

Era essa a hora de fazer valer todo o sofrimento que ela tinha passado, toda a humilhação a que tinha se submetido e de ensinar uma última lição a quem achou que podia tratá-la como quisesse.

_Jura mesmo? Quer dizer que uma das maiores promessas do mundo da moda faz isso só por vingança?

Era verdade. Estava amuada com a própria vida. Sentia-se só o pó depois da separação. Pior que isso, sentia-se só. Como apenas as mulheres são capazes de sentirem-se, ainda que sejam lindas, perfeitas e únicas, quando abandonadas até mesmo pelo pior cafajeste.

Mais uma decepção como a de tantas garotas estava em decorrência, quando, andando pela rua, sombreando as vitrines com o próprio corpo, tentando enxergar no reflexo do vidro a própria figura vestida com o traje do manequim, foi parada e examinada e surpreendida. Saiu da loja uma figura estranha: Sorte. O nome da agente era Sorte. Já tinha visto de tudo, mas aquilo lhe pareceu mais do que um recado divino para que aceitasse o emprego de modelo na agência.

Ana acende o cigarro. A primeira tragada é sempre a melhor. A que enche. A fumaça ainda acabava de sair da boca quando ela responde.

_É isso mesmo que você ouviu. Me desculpe o cigarro; é um dos meus péssimos hábitos. Todo mundo tem alguns. Eu assinei o contrato por vingança sim. E você vai me dizer que não é o motivo suficiente? Vai dar uma de moralista e dizer que nunca quis se vingar de ninguém que o tratou mal. Que nunca pensou em dar o troco ao invés de dar a outra face? Balela! Todo mundo pensa nisso… A diferença é que as pessoas não dizem isso abertamente.

O jornalista, desconcertado, se pegou pensando nas muitas vezes em que quis se vingar de alguma mulher. Se pegou pensando na última que o traiu com o melhor amigo – crime vulgar. É… também há mulheres que merecem amargar uma vingança. A dele, se tivesse coragem de executar, seria estrangular a vigarista até a morte.

Duas semanas se passaram e Ana fumava seu cigarro agora apoiada no balaústre da varanda de seu novo apartamento, o que alugou com o dinheiro do contrato. De lá, ela via a lateral inteira do prédio bem a frente de seu antigo local de trabalho ser coberta por um enorme pôster com a sua figura – 20 metros de Ana Carolina Pedroso Álvares usando apenas um corpete e um modelo masculino de um metro e noventa também ampliado em escala. “A vingança é doce.” dizia o anúncio.

E assim pensava Ana também.

Não se engane achando que depois de publicado o anúncio, Ana se mortificaria, mudaria de ideia e acharia suas próprias atitudes infantis e ridículas. É ilusão achar que alguém se arrependeria de uma vingança como aquela. Ela não estava se vingando apenas de um “pé-na-bunda.” Estava se libertando de um sangue-suga que gostava de exibi-la aos amigos como troféu, de um retardado que achava que sexo era uma obrigação feminina, uma vez que ele pagasse a conta do jantar, e que não gostava de mulher por cima porque achava que submissão era uma qualidade.

Sendo assim, pelo contrário, como se pode imaginar, ela se divertiu por semanas pensando na contra-capa da revista que seu ex-namorado veria, no susto que tomaria quando saísse do prédio onde trabalhava e desse de cara com o outdoor; ela se divertia ainda mais quando pensava na cara da nova namorada toda vez que tivesse que parar no trânsito de frente para as centenas de outdoors iguais àquele, embora quase se compadecesse da nova vitima. O um e noventa do outdoor sai do quarto e pergunta se ela ainda demora, ainda no corredor. O cigarro, que era a desculpa para sair para a varanda, está quase no fim, mas a real diversão e motivo de sua demora é ver o pôster ser colado. Ela olha para a  porta do quarto onde Renato se apóia e pensa “Hora de virar a página.”

Foi assim que Ana fez uma carreira brilhante como modelo. Desfilou diversas vezes e era mais que disputada por toda e qualquer marca de lingerie.

Seu ex-namorado, que nunca foi uma pessoa muito estável, acabou perdendo a namorada nova, que não suportava o ciúme. Ela quase enlouqueceu com os outdoors e mais que isso, não podia mais olhar para o paspalho do namorado. Por mais estúpida e submissa que fosse, havia limites.

Ele passou a viver de trabalho. Subiu na empresa passando a perna em quem pudesse, cargo atrás de cargo. Foi promovido diversas vezes até se tornar o único cargo abaixo do dono. Sua carreira foi tão brilhante que não sabia mais onde enfiar dinheiro. E aí surtou.

Do dia para a noite resolveu que era hora de aproveitar a vida. Torrou tudo que tinha em prostitutas que se parecessem remotamente com Ana e em bebida. Começou a fumar porque o cigarro o fazia lembrar dela através do hábito; sentia-se revivendo parte do que tiveram, como num luto. Se estragou o quanto pôde, passando boa parte do tempo bêbado e a outra parte fazendo besteiras. Isso quando não dormia e acordava sem saber quanto tempo havia se passado. Não diferenciava mais a noite e o dia, janelas fechadas, o mundo do outro lado das janelas existia sem que ele se interessasse. Abandonou-se. Acordava às vezes faminto para perceber que não havia mais nem pão velho em casa. E aí xingava a empregada que só suportava o tranco porque precisava sustentar mais quatro bocas.

Ele morreu de ódio, e não de amor como pode parecer, num coma alcóolico do qual não foi socorrido a tempo, porque não havia ninguém que o socorresse – os amigos o abandonaram porque não suportavam mais o sujeito em que ele havia se transformado. À família, ele já não dava notícia há meses, portanto, ninguém deu pela sua falta.

Foi encontrado dias depois pela faxineira, que nem sequer trabalhava mais lá porque não podia mais aturar limpar os destroços das orgias e bebedeiras, mas que tinha voltado para cobrar o último salário que o canalha não pagou.

No enterro estavam somente o coveiro e a faxineira que teve alguma pena. O dono da empresa mandou as condolências a quem possivelmente as quisesse.

Ana nunca soube de nada disso. Viajou o mundo, cresceu, estudou, casou, fez uma família e ainda se deu ao direito de se interessar por fotografia, o que ela descobriu ser sua verdadeira paixão. Esqueceu-se completamente da vingança e dele. Não era mais capaz sequer de lembrar de seu rosto, cheiro, manias – as coisas que remoeu por tanto tempo sumiram no momento em que se vingou, porque a partir do momento em que o fez, percebeu que não se importava mais com ele, que não fazia mais diferença porque não sentia nada de bom que pudesse carregar consigo. E apagou. Assim como o pôster foi substituído dentro de algum tempo, tudo que ela sentia apagou-se e foi substituído por outra vida, outras pessoas, outros amores.

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