A Face do Medo

Começou com um muro. Construiu, ao contrário do que muitos fariam, primeiro o muro que rodearia o terreno. O fez sem portas, portões, nenhuma abertura. Achei que ele as faria depois, que as tivesse esquecido apenas por uma burrice comum, mas não. Contava com a habilidade de escala-lo quando preciso. Tinha dois metros, em bloco de concreto e caiado. Ele, Pedro, um metro e oitenta, mais ou menos. Começou a construção da casa. Levantou-a sólida, espaçosa, confortável e também sem portas e janelas, apenas paredes. A iluminação era artificial e um grande sistema de ar condicionado proporcionava a ventilação. Nada disso teria sido aprovado na prefeitura, mas uma pequena falcatrua aqui, uma molhada de mão ali e com algum dinheiro sobrando, se constrói até mesmo um elefante de tijolos. A casa pronta logo pedia um forte sistema de segurança monitorada – colocou-se alarmes, sensores, tudo que o dinheiro pode pagar em mais moderna tecnologia de segurança. Depois disso, a cerca elétrica.

O leitor pode se perguntar agora como é que Pedro fazia quando precisava ir ao mercado, ou quando queria encontrar com os amigos; pode querer saber de que maneira entrava e saia da casa. Se todas as vezes que queria, desligava a cerca elétrica e pulava o próprio muro. Todas essas perguntas, no entanto, são desnecessárias. Pedro nunca saia da casa. Eu sei disso porque ele resolveu construir o muro e a casa bem em frente ao meu sobrado, um modesto quarto, sala, cozinha com estúdio no andar superior, onde eu costumava revelar minhas fotos. Nesse tempo eu era um fotógrafo despretensioso que vivia, digamos assim, da minha parte da herança da família, que meu pai resolvera adiantar-me ainda vivo. Naquela época eu pouco ganhava como fotógrafo. Fazia bicos em casamentos, mas era somente para cobrir os meus gastos com aquilo que eu realmente gostava de fazer – fotografia urbana.

Ele não saía. Não sei o que fazia para se alimentar. Nem como se relacionava com as pessoas. Essa segunda eu assumi que ele simplesmente não fazia. Sobre a primeira, comecei a acreditar em coisas sobrenaturais para explicar o que não tinha explicação. O leitor pode achar que eu nunca o via sair por suas saídas acabarem por coincidir sempre com as minhas. Mas esse raciocínio também não serve. Ocorre que eu tenho crises de rinite sazonal que me deixam às vezes um mês de cama, tendo que ser acudido por minha irmã que me traz comida e outras coisas de primeira necessidade. Nesses casos, não saio de casa. Acontece geralmente nas mudanças de estação. Eu tive três crises de rinite no primeiro ano em que Pedro se mudou. E nos meus dias de cama, eu nunca o vi sair de casa.

É mister que eu explique ao leitor que o nome que dei a esse meu vizinho é mera ficção. Eu nunca o conheci pessoalmente, portanto não sei o seu nome de verdade, mas resolvi chama-lo de Pedro, que me lembra pedra, como o seu muro e que me parece melhor do que dizer a todo tempo “meu estranho vizinho”.

Cheguei à conclusão de que, uma hora ou outra, teria que pegá-lo no flagra. Não era possível que ele nunca saísse. Tinha que existir algum alçapão, alguma porta escondida, qualquer coisa! Fiz então o que todo fotógrafo de natureza selvagem faria, entendendo Pedro como um bicho assustado: arrumei minha parafernália fotográfica com sensor de movimento e tudo. E esperei até que ele colocasse o nariz para fora da toca. O meu tédio de estar doente e a minha curiosidade foram os mestres dessa ideia de bisbilhotar a vida alheia. Por dias nada aconteceu. Que decepção… e mais que isso, cada dia que se passava sem nada acontecer eu ficava mais intrigado.

Até que um dia alguma coisa deu errado. Eu acredito que tenha sido o sistema de descartar lixo. Alguma coisa ficou presa no meio do caminho. Pedro tinha construído um sistema de dutos para o lixo que lhe permitia colocar o que quisesse para fora da casa sem que ele próprio tivesse que sair. O duto que expelia o lixo para fora funcionava mais ou menos como o esgoto da casa, com a exceção de que o que era ejetado saia diretamente na calçada. Algum desavisado poderia levar com a sacola de lixo na cara no momento em que isso acontecia.

Eu assistia televisão – ou dormia fingindo assistir à televisão – quando ouvi o sensor. Disparou. Pensei comigo “Ele saiu da toca.”

Na mesma hora peguei a câmera e fui revelar o filme. Sim, naquela época as câmeras digitais profissionais ainda eram muito caras e eu era um fotografozinho de meia tigela. O meu pobre destino estava para mudar na revelação daquele filme, no entanto. Eu mal podia crer. Ganhei quatro prêmios com a foto. Intitulei-a medo.

Na foto via-se Pedro saindo da casa pelo muro. Ele havia desligado a cerca e pulava para fora. Ele estava protegido por colete a prova de balas, capacete, uniforme completo, como se fosse um soldado. Carregava nas mãos uma arma que, no mínimo, não era legalizada, na época – já hoje… Poucos minutos foram perdidos do lado de fora antes que Pedro voltasse para sua fortaleza. Nesse meio tempo, a face assombrada foi capturada diversas vezes por minha câmera. Eu mal podia acreditar na neurose que eu observava.

Depois dessa demonstração de fragilidade, a casa de Pedro sofreu diversos atentados de bandidos interessados em descobrir o que Pedro guardava com tanta segurança. Eles concluíram o mesmo que eu – que alguma coisa de imenso valor estava ali dentro e que por isso todo aquele aparato era necessário. Um dia conseguiram. Uma quadrilha entupiu os dutos do lixo. Quando Pedro saiu, foi rendido e eles adentraram. Não encontraram nada no entanto que valesse a tocaia. Não havia objeto algum de valor a não ser uma televisão e o necessário para sobreviver. Chocados, os bandidos fugiram sem levar nada. A polícia, que eu mesmo chamei, chegou com catorze viaturas, três horas depois do ocorrido, fazendo um estardalhaço impressionante. Pedro lhes explicava o assalto mas resolveu não prestar queixa diante do fato de que nada foi levado. Após considerar aquilo como uma falha em seu sistema, o refez por completo. A minha foto premiada hoje é apenas a testemunha ocular de uma epidemia. Após o primeiro muro, diversos pedros ergueram suas casas na vizinhança. E assim como o Pedro original, suas casas foram diversas vezes atingidas por ataques de ladrões que esperavam encontrar valores – às vezes com sucesso, às vezes sem. Eu continuei no meu modesto sobrado. Nunca fui roubado, embora deva confessar que nutria um certo medo dos assaltos, principalmente porque, por ser avesso aos bancos, sempre guardei todo o meu dinheiro da maneira mais antiga, embaixo do colchão. Mas os bandidos não pareciam ver em mim um roubo com muito potencial.

Há mais ou menos cinco anos, casas como a de Pedro passaram a ser construídas em outras vizinhanças e o sistema se popularizou. Outro dia, quando fui à padaria, numa conversa com o dono, sujeito que conheço desde que me mudei para o sobrado, ele reclamava dos negócios e dizia que agora tudo era feito por entregas encomendadas na internet; que nem sequer para comprar pão as pessoas saiam mais de casa. Uns dois metros para o lado dois homens conversavam, um deles, fardado, deveria ser o dono da viatura do lado de fora; o outro, tomava um café sem açúcar e só escutava. O homem fardado explicava que se o outro quisesse atuar na região, teria que pagar “pedágio pelo uso das ruas”. Fiz de conta que não ouvi e voltei para casa o mais rápido possível.

Voltei e sentei no sofá com o saco de pão ainda quente nas mãos. Liguei a televisão sem sequer coloca-lo em cima da mesa. No jornal, o governador noticiava a queda nos índices de violência, a polícia exemplar e bem treinada, a extinção da corrupção cada vez mais próxima e a vitória da democracia ressaltando o novo decreto do ministro da educação de extinguir as escolas, local de alta periculosidade e fomento de crimes, alegando a incapacidade de conter os rebeldes nesses locais em que a reunião de muitos indivíduos era inevitável e em que os jovens estavam propensos a “pensar demais.” Ele alegava que a educação no coração das casas, pelos próprios pais, era a melhor instrução possível e que o governo não tinha mais orçamento para investir nessa área – “E a injustiça de ver todos os contribuintes pagarem pela educação somente de alguns? Cada um que eduque seu próprio filho! Isso não deve ser responsabilidade do Estado…” Ele mesmo, o ministro, dizia-se renunciar ao cargo no próximo mês, logo após o fechamento de todas as bibliotecas públicas – “eu mesmo passarei a chave em cada um daqueles edifícios públicos sub-utilizados, até que se resolva uma melhor função”; o cargo não seria mais útil e ele então aceitaria a grande responsabilidade de ser “ministro da segurança nacional” – esse sim um ministério de grande importância para nosso país.

Olhei pela janela da cozinha, procurando algum movimento na rua. A minha profissão como fotógrafo urbano tornava-se a ilustração de desertos. A cidade começava a lembrar remotamente um cenário de faroeste, sem pessoas nas ruas, exceto pelos xerifes e bandidos. O resto das pessoas, os ricos em seus muros blindados, os pobres nos bares e em casas de outros vícios, despreocupados com suas casas que não seriam roubadas porque não tinham nada a ser levado, viviam de uma forma ou de outra, enclausurados, longe da violência urbana que se tornou a melhor lenda já contada – como se um ataque de zumbis comedores de gente estivesse prestes a acontecer o tempo todo. A poeira abaixa momentaneamente e vejo um moleque correr encapuzado descendo a rua. Olho para o muro de Pedro e vê-se pichado “A pior prisão é a da mente.” Um golpe de esperança me atravessa, a pesar de tudo, ao ver o moleque correr livre e contar com o pó das ruas para se esconder.

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