Encontro no México

O Sol escaldava a pele das lagartixas agarradas aos monumentos por suas ventosas, esgarçando suas escamas ressecadas. Uma velha, sentada no banco da praça, coçava o cotovelo que tinha acabado de ser picado por um mosquito e nisso arrancava células superficiais da própria pele morta. Eram alguns resquícios de calma em meio a outras cenas comuns a um fim de tarde, comportamentos compatíveis com o clima quente e que contrariavam a movimentação da multidão que circulava pela praça, tão rápida e desordenadamente como se o fim do mundo se aproximasse com o fim do dia. A feira de rua abarrotada de gente, de gritos, de preços e produtos.

Anis andava na praça, com as mãos triturando os objetos nos bolsos e a cabeça erguida procurando, em meio às pessoas, o rosto conhecido que agora seria quase uma lembrança apagada, não fossem as fotos do Facebook. Sua inquietude era uma mistura de jet lag com ansiedade. Estava no México e sua ideia maluca de encontrar Sabrina tinha dado certo – ou pelo menos estava indo bem até agora. Não sabia precisar o quanto daquilo que os dois falavam era verdade e o quanto era a sua mente trabalhando e imaginando, mas se só uma parte fosse, já seria motivo o suficiente para estar ali.

Conheceram-se em Barcelona, mochilando. Achou-a bonita sem precisar analisar muito. Não investiu na possibilidade de serem mais do que amigos, porque as circunstâncias não encorajavam, não podia apostar em uma completa desconhecida que em dois dias iria embora. Na amizade, entretanto, investiu tudo que pôde – a curiosidade era maior. Ele logo percebeu no humor dela afinidades culturais inesperadas. Entre um algeriano e uma brasileira, não era de se prever similaridades, mas sim diferenças. Conversarem era fácil, os dois falavam inglês e francês. Se entenderem, que é outra coisa diferente, era fácil também. Embora entender uma pessoa e se fazer entender por ela, quando não nasceram os dois no mesmo lugar, não tiveram a mesma educação e tem hábitos religiosos, dentre outras coisas, diferentes, não costume ser tarefa fácil. A amizade durou mais que os dias que passaram na mesma cidade e meses depois ainda se comunicavam pela internet. Até que os dois acharam que era pouco e que era hora de cometer uma loucura.

Em outro canto da cidade, Sabrina passeava distraída tirando fotos de absolutamente tudo, respirando todo novo ar que podia, aproveitando o momento. Sabrina tinha essa necessidade de ver coisas novas sempre, de ser uma pessoa diferente e mais completa e encontrava nas coisas que descobria em outros lugares, em outras culturas, a resposta da sede de conhecimento que tinha. Nem havia se dado conta da hora até que virou uma esquina e se viu em frente a uma igreja; a igreja tinha uma torre; a torre tinha um relógio. Ela puxou o ar profundamente, olhou no mapa a direção em que precisava seguir e correu.

Ela não vem. Trinta minutos de atraso. Anis começa a se desesperar. Depois ordena a si mesmo que pare. Ela deve estar chegando, deve ter se atrasado um pouco, ela é mulher e mulher, em qualquer lugar do mundo, demora para se arrumar e atrasa.

Ela chega. A multidão podia ter quantas pessoas fosse, os olhos abrem caminho, sem o menor esforço e como se fosse obra divina, o mar de gente se divide em dois, e só ela fica no meio, num holofote. Cabelos pretos até a cintura, olhos verdes, pele branca, queimada de Sol nos ombros. Sabrina caminha à procura, até o momento em que fixa os olhos em Anis, que já a tinha visto de longe, e que ainda divertia-se apenas observando-a perdida entre as pessoas, caminhando apressada.

Se encontram.

Era uma noite que ainda guardava o calor da tarde. As lagartixas se mudaram dos monumentos e agora se esgueiravam entre as frestas das paredes que, feridas pelo tempo, tinham alguns tijolos expostos sem reboco e sem tinta. As reentrâncias ainda guardavam o bafo do mormaço que antes fazia. A velha, já em sua casa, coçava mais uma vez o cotovelo, interrompendo a prece que fazia antes de dormir.

Na rua, num beco iluminado somente por um poste, Anis escorregava os lábios pelo pescoço de Sabrina. Se apresentaram um ao outro de novo. Dessa vez, as ambições não eram de amizade como na primeira e os dois deixaram os flertes tomarem o seu rumo natural. Não importava que fosse um romance impossível, e que os dois soubessem que havia um prazo de validade marcado. Os dois deixaram-se levar pela necessidade que tinham de estar um com o outro.

Mas as primeiras horas passaram e Sabrina, que era um tanto mais inquieta que o normal, já começava a se cansar do encontro. Ainda extasiada com todas as coisas que tinha para conhecer daquele lugar, não conseguia se concentrar na pessoa que avançava sobre ela. E como toda mulher enfadada, ligou o piloto automático e começou a usar a cabeça para explorar o local onde estava.

Uma mariposa, hipnotizada pela luz e pelo calor, tentou pousar na lâmpada do poste de rua. A lâmpada, muito quente, fundiu as patas do animal na sua superfície e a mariposa, assim grudada, fez uma enorme sombra no seu próprio formato reproduzida no chão pela luz, que não conseguia atravessar suas asas escuras. Um gato, nesse momento, perdeu de vista uma barata que se escondeu na sombra. Tanto o gato quanto a barata aproveitaram o momento para descansar da perseguição. A velha, sentindo-se expelida da casa pelo calor, postou-se à janela e entreteve-se com a cena meio apaixonada e meio dispersa. Ah! , se o velho estivesse vivo, eles mostrariam àqueles dois inexperientes na rua como é que se faz. O gato, enfadado de sua interminável perseguição, subiu o muro em três pulos e foi se enroscar na velha, pedindo comida.

Sabrina resolveu que já que estava ali, era melhor aproveitar e entrar no jogo. Inverteu a posição e empurrou Anis contra o muro pela barriga. A velha pensou consigo mesma que agora sim estava vendo paixão.

A madrugada vem fria e Sabrina acorda com as mãos geladas. Os olhos dançam no teto do quarto de hotel. O Sol ensaia na janela. Ela levanta, se veste e deixa o quarto pé-ante-pé. A madeira do piso range mas ela não olha para trás para conferir se acordou Anis com isso. O prazo acabou, pensava ela. Nem rastro, nem bilhete. Some no mundo. Anis acorda com o barulho, mas finge de morto. Ele sabe que não existe amanhã para o caso dos dois e entende que é melhor que acabe antes de o dia chegar, antes que a manhã esquente de novo corpos que não podem ficar juntos. Entre sonho e discernimento, vê a silhueta passar por uma porta que se fecha para não abrir nunca mais.

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