O veneno do Jasmim



O copo, tendo amassado a madeira e feito um baixo relevo redondo, continuava com os maus tratos, ainda descontente com os efeitos maléficos não explorados a que estava predestinado: suava pelo lado de fora seu conteúdo, escorregando nas paredes; a madeira enrijecia as fibras esgueirando-se contra ele. Quem colocou o líquido tremia e por isso não foi muito preciso nessa tarefa. Maria observava o patrão como se fosse um dos retratos das paredes da casa. Ele não se movia. Maria, que tinha acabado de receber a ordem mais absurda de sua vida, estava entre a desobediência e a prudência, entre o ser cúmplice de um crime contra a lei e contra Deus e o desejo indubitável de fugir da cozinha, correr e nunca mais voltar. Seus cabelos ensopavam-se de suor que pingava no rosto e no pescoço, descendo pelos fios grossos e negros. Ainda assim, sentia-se hipnotizada diante da cena da qual fora obrigada a participar. O patrão, sentado em frente ao copo, não tinha movimentos além dos de seu rosto. Oscilava as expressões como se um filme estivesse passando dentro do copo e seus olhos presos a ele, presos à ação dos acontecimentos das últimas semanas. Era março e o calor persistia, negando-se a ver as flores esmaecerem e as árvores amarelarem de outono.

O Sol que batia na janela era mais que qualquer um dos dois poderia aguentar em circunstâncias normais, mas aquela era a hora e a vez de Maria e de seu patrão. Nada piava no cômodo e estavam nisso já se passavam dois minutos. Já, porque o tempo nessas circunstâncias se eterniza ainda que o relógio diga o contrário. Já dois minutos. Eternos dois minutos.

Floriano Ribeiro era um professor universitário renomado. Seus alunos o idolatravam. Com toda a idade que tinha ainda metia-se na política e na militância como se tivesse vinte anos e uma barba não respeitável no lugar do maciço branco que se abarrotava na cara. Saiu de uma família pobretona e enfrentou diversos obstáculos para ser o primeiro dos primos a pisar em uma universidade. Diziam-no santo. Nunca se casou, vivia como um monge, enfiado nos livros – lia como se comesse as palavras; quando as digeria, devolvia ao mundo grandes ideias que só um espírito bem alimentado é capaz de formular.

Maria calou-se após preencher o copo do líquido espesso e cristalino, levemente amarelado. Deu-lhe uma ojeriza tamanha fazer aquilo que quase vomitou com o cheiro. Petrificou-se ao imaginar que alguém seria capaz de deitar o líquido ventre adentro, senti-lo passar tenro pela língua e ocupar parte por parte da garganta queimando-a. Virou-lhe o próprio fígado a imagem que lhe veio à cabeça, do corpo que ousasse dali beber se contorcendo dos efeitos, da vertigem tamanha que tal elixir poderia causar. Aquilo nem aos ratos ela tinha coragem de dar. Preferia pensar que eles andavam pela casa quando ela não via e que por isso não fazia diferença se existiam ou não. Era por demais cruel colocar os bichinhos naquela situação. À sua frente o copo. À frente do copo, do outro lado da mesa, o patrão. A boca era dividida pela linha que o líquido desenhava na transparência do vidro, criando uma borda. A parte de baixo da boca deixava-se cair para baixo, balbuciava alguma palavra como se brigasse com alguém. A parte de cima tremia como se tivesse um tique.

Floriano agora detinha-se no pensamento que o atordoava toda a semana. O cheiro do veneno não chegava nas narinas porque elas estavam cheias do perfume doce que não lhe saia do maldito nariz. Coçava, sacudia, cheirava café e nada. O perfume ficava. Era jasmim já quase morto, quando o cheiro é mais doce do que se pode aturar. Passa-se do lado quando a flor ainda está se abrindo e aquilo ilumina o dia, passa-se ali no dia em que está moribunda e a planta quase o sufoca. Nauseia e entontece como se fosse abraço de mãe.

Maria ainda estava apavorada. O patrão não era de dar ordens. Era de pedir tudo mansamente, como uma criança pede quando ora. Dessa vez, no entanto, mediu bem as palavras, colocou-as de maneira direta e simples. Não foi educado. Para quê? Ia morrer. Pessoas que acham que vão morrer não se sentem na obrigação de serem educadas ou de pensar muito na “moral e nos bons costumes”. Floriano era extremamente cuidadoso com as pessoas a sua volta. As tratava gentilmente como se fossem quebrar. Ele sabia que dentro de cada alma há uma vocação maior do que a sua compreensão seria capaz de decifrar e por isso media as palavras tentando preservar toda e qualquer poética que pudesse aflorar. Dessa vez estava cansado da poética. Essa mania de ver o melhor em todo mundo foi o que o trouxe até ali.

E o cheiro grudava nas paredes do nariz. Se fosse só o cheiro… E via o par de pés adentrarem a sua sala de aula com sapatos tipo boneca. Acima dos pés as pernas nuas, a saia vinha pouco acima dos joelhos, o cinto amarrado alto, a camisa branca bordada na gola, o pescoço pequeno e frágil, o queixo fino, a boca vermelha, o nariz pontudo, os óculos de gatinha anos sessenta de armação branca, o cabelo preso em rabo de cavalo. Abre a porta, gira nos calcanhares e dirige-se à única cadeira vaga, a cadeira bem em frente ao professor. Senta-se sem cerimônias e cruza as pernas apoiando o caderno em cima, destampa a caneta e olha para cima esperando. Floriano nunca teve problemas em ser interrompido. A lufada de jasmim que sentou-se na cadeira à sua frente, entretanto, o abalou tanto que teve que se sentar na mesa, onde estava somente apoiado. Teve que se controlar, sentindo seu corpo responder ao perfume como não respondia a nada nem ninguém há muitos anos.

A morte, no mundo de hoje, é tão banal quanto a rotina a que nos submetemos. Se quiséssemos nos envenenar antigamente, teríamos que procurar um boticário e suborná-lo muito bem. Hoje, basta avançar o braço na prateleira do mercado e escolher qual dos venenos de rato deve ser o mais rápido e mais poderoso. Floriano, que sempre foi um hedonista nas questões relativas à morte, esmorecia agora no fato de que a dor da rotina finalmente o alcançava com seu habito mais cruel. O grande objetivo da vida é matar. E inevitavelmente a vida alcança seu objetivo final num determinado dia. Assim pensava Floriano, que Isadora era só uma maneira de a vida lhe dizer “chegou sua hora, meu velho.”

Cortejou-a de todas as maneiras possíveis. Mas tudo que ela era capaz de sentir por ele era uma condescendência e uma pena terríveis. O cheiro de morte que os velhos têm não a atraía. A experiência de Floriano e seu conhecimento em nada a afetavam. E embora seus cortejos fossem gentis, puros e bons, eram pueris como de um garoto indefeso que não tivesse a menor ideia do que estava fazendo. E ela era, como toda mulher, minimamente ardilosa e perspicaz, o suficiente para se divertir com a miséria do apaixonado mas não ceder ao ponto que ele gostaria. Ele a amava. Coisa que não sabia fazer, porque nunca havia passado por aquilo. Tinha que ser agora, depois de sessenta e quatro anos. O primeiro amor de Floriano era como todos os primeiros amores, impossível e platônico. Diferente das crianças, por ironia do destino, Floriano não tinha a quem recorrer para consolar-se e as consequências de seu desprazer e a desilusão que o acometia eram muito mais funestas, posto que responderia a elas como um velho adulto; terminaria sua agonia ali mesmo, com suas próprias mãos.

Floriano não possuía uma arma, não teria coragem para cortar os pulsos, não tinha o menor interesse em jogar-se de algum prédio alto por mais poético que parecesse. Floriano queria morrer com veneno para que ele tomasse seu corpo e o tirasse da posse daquele demônio que agora tinha controle de seu coração e de todo o resto.

Foi quando Maria sentiu o peso do seu destino pousar suas mãos nas do patrão. Ele tirou os olhos do copo e ela viu a oportunidade de que precisava. “Não faça isso, Seu Floriano, que a morte não é escolha da gente, é escolha de Deus. E só ele é quem pode dizer quem vai e quem fica. Por mais que a vida lhe pareça inútil, ainda tem muito que se fazer por esse mundo; ainda tem muita coisa em que o senhor tem que meter o bedelho e mudar. Não há nada que justifique essa agonia toda, homem, nada! Seja o que for, vai passar.” Os olhos de Maria brilhavam de admiração pelo patrão. Ela era uma das que o achavam santo e o venerava como tal. Não podia ver tudo se acabar num copo meio vazio.

As propriedades do espírito são ainda um mistério; embora uma coisa existente, nunca ninguém chegou a conclusões razoáveis sobre a matéria de que é feito, por não conseguir superar a contradição de que o espírito não pode ser feito de matéria alguma. Se não fosse a ebulição em que seu espírito entrou, no momento em que ouviu as palavras de Maria, Floriano teria acabado tudo ali mesmo. As palavras da mulher, no entanto, saíram-lhe tão precisas e tão estranhas, tão inesperadas, que Floriano deduziu que aquela era a voz de Deus e não a voz de Maria que falava. E se contasse isso a Maria, ela teria concordado. Foi assim que concluiu que amor nenhum o mataria. Atirou o copo de veneno na pia. Ele estilhaçou-se em pedacinhos.

Desde então, Floriano dedicou-se com ainda mais veemência a suas pesquisas e sua vida acadêmica. Entrou duma vez na política e resolveu virar senador. Foi eleito e reeleito. Isadora casou-se uns anos depois com um colega comunista e vive hoje numa miséria de dar dó, tanto de corpo quanto de alma. O marido é um troglodita que bebe e some por dias. Quando volta ainda lhe bate. Embora ela não conte a ninguém, sonha todos os dias com uma vida melhor e com o dia em que terá coragem de envenenar o marido. Ela às vezes pensa se deveria ter aceitado os cortejos do professor, mas sabe que seu momento passou. Enquanto sua beleza morre, um forte cheiro de jasmim entristece o verão que percebe o seu fim se aproximar mais uma vez.

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