Despertador com Arritmia

Meu amigo Félix Bazus é daquelas pessoas que se pensa duas vezes antes de cumprimentar na rua. A gente nunca sabe que tipo de reação pode gerar um contato próximo com uma pessoa como aquela. Se passamos a seu lado, ele olha de soslaio pensando se é uma boa ideia te reconhecer. Quando se decide, abre um sorriso medonho que parece ter sido ensaiado na frente do espelho milhares de vezes, sem sucesso. Toda vez que vejo algum filme sobre contato humano com extra-terrestres, o sorriso de Félix me vem inevitavelmente à cabeça, como num déjàvu. Félix é de uma família de classe média paulistana: a mãe é estudada, uma acadêmica, vegetariana e esquerdista; o pai é um brutamontes sem muito tato que não comenta sobre a política nada de útil, ou de inovador – o mesmo ocorre quando comenta o futebol, ou qualquer outro assunto. Félix nunca entendeu muito bem o que sua mãe tinha visto naquele infeliz carnívoro que ela dizia ser seu pai. “Os opostos se atraem.” não lhe parecia uma explicação convincente, e Félix nutria, na minha opinião, um certo complexo de Édipo que ele nunca soube resolver, o que me leva à minha segunda observação a seu respeito.

De todos nós, amigos de longa data, do curso de Filosofia, Félix era o único que nunca tinha tido uma namorada ou um namorado. Numa noite em que estávamos um pouco altos, num pub no começo da Rua Augusta, o The Pub, a minha língua perguntou indiscretamente quando é que ele sairia do armário. Todos tínhamos uma certa curiosidade a respeito da sexualidade de Félix, embora, exceto especulações pelas costas, nunca ninguém tivesse a coragem de dizer o que pensava. Sempre apaixonado pelos livros, Félix deixava-se tomar por uma teoria ao ponto de amá-la; depois, quando descobria uma teoria nova, passava a odiá-la como se achasse que ela o tinha possuído. Naquela noite no pub, meu amigo respondeu, simplesmente “a porta está aberta, quando quiser entrar, fique à vontade.” Foi uma resposta de mestre, tenho que admitir. Entretanto, muito tempo se passou depois disso e nada indica que ele tenha se envolvido com alguma mulher além das lombadas dos livros. Nem mesmo com algum homem que não esteja na coleção “Filósofos e Pensadores.”

Certo fato estranho que pretendo contar a seguir só poderia acontecer a essa criatura peculiar. Félix não tinha o hábito de fazer compras, exceto por um dia em que, hipnotizado pela vitrine absurdamente confusa de uma loja chinesa na Liberdade foi tragado para dentro. As lojas chinesas tem uma incrível capacidade de parecerem minúsculas do lado de fora e serem desproporcionalmente enormes por dentro – isso acontece em todo o mundo onde houver uma loja chinesa, embora eu nunca tenha pisado na China para confirmar como funcionam as coisas por lá.

Como era de se esperar havia muita quinquilharia. Dentre esse universo paralelo de tralhas estranhas, meu amigo destacou um exemplar um tanto comum, assim achava ele. Comprou. Um despertador vermelho metálico, nada mais simples, exceto por seu aspecto um pouco antigo, mesmo antiquado. Nem mesmo Félix soube me explicar o que o atraiu naquilo que ele chamava de “meu despertador com arritmia”.

Assim como todas as bizarrias do lugar, o despertador não fugia à regra. A verdade é que a sua particularidade em relação a outros despertadores não estava na aparência.

Quando foi usar o despertador pela primeira vez, Félix se viu numa enrascada e xingou muito a loja imaginando que fora enganado. O despertador não tinha qualquer chave, botão, ou corda aparente para que pudesse colocá-lo para despertar. Achou impossível até mesmo para uma quinquilharia chinesa que ela fosse tão porcaria e um erro crasso de sua parte não ter reparado nisso antes.

Contentou-se com a desgraça por aquela noite e prometeu-se retornar à loja no dia seguinte para reclamar.

Eram oito horas da manhã e doze minutos quando o despertador o acordou aos berros. Pulando da cama assustado, Félix não podia acreditar no que estava vendo. Pôs-se a pé e em direção à loja, sentindo-se mais estúpido – o despertador despertava mas ele não conseguia descobrir como acertar o horário.

Voltou à Liberdade. Subiu e desceu a rua sem compreender absolutamente nada. A loja sumiu. Como se tivesse sido suprimida pelas paredes vizinhas. Mesmo a pequena vitrine e a minúscula porta haviam desaparecido.

Se tivesse pagado mais caro pelo despertador, Félix talvez tivesse dado a ele maior crédito ou tivesse se importado mais com o fato de não encontrar a loja. Acabou por achar que tinha coisas mais relevantes para fazer do que se preocupar com um despertador caquético de um e noventa e nove e que fazia melhor em retornar aos estudos.

No dia seguinte, preparado para ver a indicação das oito e doze no despertador, Félix não pôde compreender. O despertador, dessa vez, tocou às exatas dez horas da manhã. Era sábado, dia em que Félix não precisava acordar senão para colocar em dia sua leitura dos clássicos. No domingo, o despertador tocou ao meio dia, ao que Félix deu graças a Deus – embora não fosse religioso – porque tinha saído para beber conosco, o que sempre fazíamos, uma espécie de café filosófico. Félix chegou à conclusão de que, além de tudo, aquela porcaria estava atrasando e todos os dias o acordava um pouco mais tarde.

Segunda-feira, acostumado ao seu relógio biológico, acordou às seis e meia da manhã para chegar a tempo na faculdade. O que o espantou foi que o despertador tocou na exata hora em que, entre sonho e vida real, pensou que deveria mesmo sair da cama ou chegaria atrasado.

Félix ficou extremamente conturbado com isso. Nos dias que se seguiram forçou-se a prestar mais atenção ao seu despertador. Certa vez, enquanto lia, e o barulho da casa não ia além do tiquetaquear, percebeu que o som se alterava por vezes. Félix colocou o objeto junto ao ouvido para entender melhor. Esses dias declarou-me que, naquele momento, percebeu a grande descoberta que tinha nas mãos. O despertador acelerava quando estava fazendo alguma coisa chata, desacelerava quando estava fazendo o que gostava – lendo seus filósofos, por exemplo – e tocava somente quando ele queria.

Félix sempre foi uma pessoa muito disciplinada, e eu imagino que o despertador, fazendo as vontades de seu dono, esteja condicionado a funcionar não muito diferentemente de outro despertador qualquer. Se eu possuísse tal invenção, duvido que ele me acordasse antes do meio dia, eu que sempre fui uma pessoa noturna. Além disso, ele precisaria estar sempre atento a meus movimentos para combinar o desacelerar e o acelerar. Seria incrível que o tempo obedecesse às minhas vontades e não o contrário. Confesso que se tivesse a oportunidade, roubaria o despertador. Seria um delito perdoável, dadas as circunstâncias. Claro que não pretendo fazer um plano para executar tal roubo, mas se eu fosse Félix, guardaria muito bem escondido o despertador com arritmia.

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