Hipnose

Reparou na maneira como os amigos a rodeavam. Ela era o centro das atenções. Ela era o leão da tribo. E essa? O amigo ao lado apontava esperando um sinal positivo. Tarde demais. Ele estava seduzido não pela presa, mas pelo pior predador; o louco queria o leão. Seria muito mais difícil; talvez tivesse que esperar muito. Espreitar e cuidar até que o pudesse atacar ou deixar-se ser caçado. Mas ele sabia que compensaria desde o momento em que colocou os olhos nela. A maneira como ela ria tragava todos ao redor e eles saiam como fumaça: apenas o resto abalado do que já foi fogo. Ela tonteava a mancha cinza e homogênea de pessoas a sua volta. A voz soava num tom que lembrava a sensação de passar os dedos pela seda; o riso lembrava a sensação de rasga-la com uma faca afiada. Ela cortava o caos com uma tormenta muito maior. E tudo parecia normal comparado à sua discrepância. Ela era mais.

Não se trata de beleza, veja bem. Trata-se somente da mulher mais sensual que ele já tinha visto. E a beleza era só um adendo agradável que completava o pacote. A maneira como movimentava as mãos que passavam pelo cabelo, apoiavam-se na cintura, acariciavam o interior dos bolsos da jaqueta, não podia senão ser acompanhada por olhos nem sempre atentos ao seu próprio movimento, mas presos, como que por feitiço.

O leão vira-se na sua direção. A primeira reação que tem é abaixar a cabeça e se camuflar. Ele titubeava as consequências de se fazer presa fácil para um predador como aquele. Imaginou sua carne sendo destroçada pelas unhas longas do felino e desistiu. Guardou-se do olhar direto e penetrante. Mas por mais que se escondesse, o leão já o havia farejado.

Ergue-se sorrateiro e o felino finge que não o vê, preparando o bote. Dessa vez não há defesa. Acerta-o em cheio com dois olhos  de vidro verde-amarelados. De rastos, já era tarde. Fulmina-o uma sensação de cheio e vazio ao mesmo tempo, quando sente-se sendo dilacerado aos poucos. Não teve nem tempo de se esquivar, nem de correr. Caiu no vortex daquele vendaval sem destino fixo. Sabia que seria levado, não sabia para onde.

Capturado no momento, vê-se sendo rasgado pelos dentes que ela exibia na boca perfeita. A boca a salivar como um animal sedento sobre a presa. Ele poderia cultuá-la, não fosse tão forte o desejo de possuir seu caçador da mesma maneira que era possuído, uma força mundana dentro dele.

O espaço entre os dois não mais existe. Ele sente ofegar a fera maravilhosa bem debaixo de seu cangote. Não há nada a fazer senão deixar-se levar. Fosse uma cobra, deixaria que o veneno se espalhasse por seu corpo. No lugar, uma descarga elétrica o atravessa – o choque da primeira mordida. É o fim. Ele é dela. Sente o suor espalhar-se pelo corpo cansado da perseguição e misturar-se ao perfume de sangue novo e capim verde molhado de orvalho.

A savana à volta pára a fim de ver a maior guerra que já se levantou. A águia que antes pairava sobre as outras, escolhendo a presa do ponto mais alto do céu, curvou-se e mergulhou de bom grado para as garras do leão.

Anúncios

Um comentário sobre “Hipnose

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s