Verona dos Apaixonados – Parte 3

Uma pessoa que nunca foi à Itália e que não conhece sua história acharia, numa primeira impressão, que Vittorio Emanuelle II foi o sujeito que inventou a Itália. E ele não estaria muito longe da verdade. Em todo lugar existe um monumento em homenagem a esse sujeito. Tive o dom. Cheguei à Verona num dos feriados mais importantes do país. O dia da unificação italiana, que foi realizada por ninguém mais e ninguém menos que Vittorio Emanuelle II.

As ruas de Verona estavam lotadas. Entre turistas e moradores, não se via nem o pavimento da calçada coberta por pés. Eu estava adorando tudo aquilo. Praças lindas, um pequeno coliseu – se é que existem coliseus pequenos – monumentos antigos, pontes maravilhosas, construções incrustadas naquele solo, elevadas em tijolo, pedra e muito trabalho árduo que se via na robustez das paredes. E a melhor das minhas vontades, realizada; nem acreditei quando me sentei na mureta. Não pude sequer tirar fotos das paredes, senão do balcão, dada a minha emoção. Estava diante da casa de Julieta. Os amantes fizeram das paredes e muros do jardim um memorial de seu amor. Pichadas, completamente abarrotadas de nomes, declarações, mensagens desesperadas, mensagens correspondidas e outras nem tanto, as paredes eram testemunhas de que paixão e amor são eternos quando resolvem existir, são sentimentos reais que não se apaga, que escritos em pedra ou não, pairam sempre em algum lugar, nem que seja somente numa lembrança.

E os amantes, não sei se pelo feriado, ou pelos ares da cidade, simplesmente criada na memória coletiva como o cenário de uma das maiores histórias de amor já escritas, extravasavam os muros da casa e se espalhavam por toda a cidade, pontes, ruas. Apaixonavam quem passasse e os visse amassadinhos uns contra os outros. A cidade vivia de amor.

Olhei para o lado. Uma garota mantinha há algum tempo os olhos fixos no balcão. Pude jurar ter visto uma lágrima se formar na parte de baixo de seu olho direito. Mas antes que ela pudesse chorar sacudiu-se. Além dela mesma, só uma mochila e uma máquina fotográfica a acompanhavam. Pareceu-me uma criatura triste. Pareceu-me também que aquele lugar era capaz de lhe proporcionar um certo alento, talvez na ideia de um amor tão forte a ponto de enfrentar o mundo para existir. Quando ela se levantou e foi embora, percebi que as outras pessoas começaram a deixar o lugar também. Em poucos minutos uma senhora anunciou em quatro línguas diferentes que o lugar fecharia as portas em cinco minutos. Levantei-me e dei uma última olhada para o balcão. Nesse momento uma senhora, uma das segurança da casa, postou-se sobre ele em pose de serenata, a espera de alguém. Não pude evitar minhas pernas bambearem ao pensar que tudo poderia ser verdade. Que alguém realmente viveu a história de Shakespeare.

Saí dali. Os portões fechados trouxeram a noite. E a cidade se encheu de luzes e de italianos famintos que foram todos para as mesmas pizzerias. Eu estava muito cansada para pleitear um lugar entre as centenas de pessoas e contentei-me em comprar uma pizza para viagem e uma cerveja. Sentei-me no banco da praça, a pessoa mais feliz do mundo, de frente para o Teatro-coliseu e jantei.

Fiquei ali um tempo imaginando o que faria duas pessoas tão parecidas quanto Ornela e Michel viverem tão próximos um do outro e nem sequer se conhecerem. Uma parte de mim mirabolou a ideia de que talvez eles tenham se conhecido e não tenha sido uma experiência tão boa. A outra parte achou absurdo. Ambas as minhas partes entraram em um acordo de que gostariam de dar uma de Amelie Poulin e concertar a vida deles. Não o fiz. Arrependo-me hoje. Deveria ter feito qualquer coisa. Provavelmente os dois ainda estão morando, um no apartamento de cima do outro, sem saberem que partilham do mesmo gosto estranho pela decoração e pelos gatos. Ou talvez, o que me agrada mais, tenham se esbarrado e ele tenha me aproveitado como assunto para conhecê-la; talvez hoje não sejam mais solteiros. Quem sabe? Talvez um dia eu escreva essa história. Talvez um dia eu volte a Verona e descubra o que se passou depois desse tempo todo.

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