Verona dos Apaixonados – Parte 2

Em menos de dois minutos de conversa com as mãos – que fique claro, bem mais da parte dele do que da minha – ele abre a porta. O meu italiano a essa altura dava para o gasto, eu era compreendida, embora não falasse bem. Ele não falava muito inglês, como qualquer italiano que eu já tivesse conhecido, mas falava devagar, o que já facilitava muito. Cheguei na hora do almoço. Ele cozinhava para um e logo quis cozinhar para dois. Ele era simpático e teve dó de uma pessoa presa na chuva pelo lado de fora. Sentei-me na cadeira da “sala-cozinha” e ele quis saber quem eu era afinal e o que estava fazendo ali. Ele entendeu bem que Ornela tinha se esquecido da minha chegada e que eu precisava de um lugar para ficar por alguns minutos. Colocou um bilhete na porta avisando a minha presença e seu telefone, caso ela chegasse.

Na televisão passava “Guerra dos Mundos” em uma péssima dublagem. Segundo ele, era a milionésima vez que passava na tevê, mas ele nunca conseguia deixar de assistir, porque gostava da ação contida no filme. Acompanhava-nos nesse momento seu gato gordo e inábil com coisas de vidro, cujo nome já não me lembro. O que me lembro é de ter achado que era uma gata pelo nome, e não um macho. Não sei o quanto isso deixou meu anfitrião irritado. Mas a irritação logo passou quando descobrimos uma afinidade inabalável. Éramos os dois arquitetos.

Formado na Universidade de Veneza, o meu colega sustentava uma vida solitária e simples. Eu ousaria até dizer singela. Tinha um certo hábito de consumir álcool, embora o fizesse junto à refeição e não bebesse mais do que qualquer italiano. Não sei, entretanto, dizer o que era aquilo que ele bebia. Sei que era alcoólico e que devia ser das boas, porque ele não me ofereceu, embora tenha me oferecido tudo que tinha na mesa para comer, beber, ou mesmo no final insistiu para que eu pegasse uma das frutas no cesto. Eram bonitas, as frutas. Na Itália, as laranjas são vermelhas por dentro – um vermelho vivo como sangue; e são doces como em nenhum outro lugar do mundo em que eu tenha comido laranjas.

O meu simpático anfitrião, Michel, era um homem de um pouco menos de quarenta anos, alto, com cabelos escuros meio lambidos, e que andava de meias pela casa, que era também seu ateliê pelo pouco que pude perceber. Era um sujeito organizado – para quem foi pego de surpresa numa visita, a casa estava extremamente arrumada – e um pouco inquieto com a minha presença inesperada, nada anormal. Nem meia hora se passou e quando estávamos começando a nos sentir menos desconfortáveis com a situação e conversar sobre as diferenças sobre a arquitetura brasileira e a italiana e o campo de atuação nos dois países, eis que chega minha real anfitriã. Ornela telefonou e avisou que eu poderia descer para ser recebida.

Educadamente, agradeci como pude em italiano macarrônico e despedi-me de Michel que pareceu aliviado de não ter que se preocupar com a minha presença, mas um pouco triste de se ver somente com o gato novamente ao dar as costas – reparei isso pouco antes de ele fechar a porta, quando já descia os degraus; a expressão em seu rosto era de “já que não há coisa melhor, vamos voltar ao normal então…”

Quando entrei no B&B de Ornela, parecia estar tendo um déjà vu. Ela tinha seus trinta anos, cabelos loiros e um apartamento bem decorado que não era nada parecido com um hotel ou com qualquer outro tipo de acomodação em que eu já tivesse estado, exceto pela minha própria casa. Não era um B&B, era um apartamento com um quarto que ela alugava para acomodar turistas. Não estou me queixando. Era bem razoável, embora fosse um pouco estranho, era confortável, arejado e aconchegante. Mas o déjà vu não se deve a essa impressão caseira e sim ao fato de que Ornela era uma mulher solteira que morava sozinha com seu gato, uma espécie de réplica feminina do apartamento acima.

Percebi, quando entrei, uma certa hostilidade de Ornela em relação a seu vizinho de cima. Ela não parecia muito contente com a ideia de dever um favor a ele. Na verdade, ela não fez qualquer expressão de entusiasmo quando eu lhe expliquei que fui bem recebida pelo vizinho e que achava que depois, se ela pudesse, seria interessante agradecê-lo. Devo deixar claro que tudo que conversei com Ornela foi em fracês, uma língua um pouco ingrata para delicadezas, na minha opinião. A “dona do B&B” havia trabalhado alguns anos em uma companhia francesa e, embora tivesse um inglês rudimentar, falava francês impecavelmente.

Um pouco confusa, ela me confundiu com uma hóspede russa que chegaria somente no dia seguinte e praticamente colocou a culpa em mim por não ter avisado a hora em que chegaria. Não me importei, dei de ombros e esperei que ela mudasse de assunto, o que ela fez naturalmente. Interessei-me pela decoração do quarto. Enquanto o gato brincava com o chocolate que ela havia colocado no travesseiro da cama, eu me entretia com desenhos emoldurados presos à parede. Eram da minha vó, diz ela. A avó era modelista e tinha desenhado vestidos incríveis para a realeza. Achei aquilo fantástico. Não só porque os desenhos tinham um quê de extravagância que só mesmo na Itália seria possível se esperar de uma mulher, mas porque aquilo era história pregada na parede do quarto, bem debaixo do meu nariz, e não em um museu com alarmes e luzes próprias para não estragar a tinta.

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