O Conto que é uma Metáfora, ou, A Superfície

Pulou. Porque era a única solução para a dor que sentia. Nada curaria, nada mudaria, nada faria com que ela se sentisse viva novamente se não fosse o amor que ela tinha. Ela se jogou então. Da segunda ponte do Rio Douro, contando da Ribeira em direção à Foz. Nem pensou para fazê-lo. Ela queria mesmo morrer. E se não fosse a sorte – ou o azar – de pular bem em frente a um corredor que praticava o esporte muito cedo de madrugada, ela teria afundado até fincar os pés na lama do rio. Mas antes que ela pudesse parar de respirar, ele a puxou e, num instinto puramente animal, ela se agarrou à vontade de emergir mais uma vez, apertando os dedos contra a palma das mãos que a puxavam.

Inspirou profundamente. Ele olhava para a garota branca e gélida em seus braços, quase morta pelo frio. E ele também batia os dentes do efeito da madrugada e da água gelada misturados. Levou-a o mais rápido que pôde ao hospital e apoderou-se da responsabilidade de cuidar daquela criatura que, acreditava ele, deveria ter sido colocada em seu caminho por algum motivo.

Nos dias que se sucederam dedicou-se a fazê-la perder o medo de falar, à sua saúde física e a forçá-la tomar sopa todas as noites. Cuidou para que ela não desaparecesse de sua vista, conforme o psiquiatra do hospital havia recomendado e, por precaução, tirou os objetos pontiagudos e os produtos de limpeza, que, por ventura, pudessem virar veneno, de perto da garota.

Apaixonou-se. Porque na tarefa de cuidar dela, baixou sua guarda e abriu-se para escutar o que ela tinha a dizer, coisa que nunca fazia com nenhuma outra mulher por orgulho. Também porque precisava ouvi-la e tentar ajudá-la, viu-se forçado a usar sua própria vida e seus problemas como exemplo de superação. Aproximaram-se, ficaram amigos, confidentes, ele se apaixonou. Mas ela ainda estava presa ao amor antigo que a tinha levado à loucura. Estava cega pela crença de que só havia um amor para si. Lentamente, o corpo se recupera, mas a alma, afunda-se cada vez mais como se nunca tivesse sido retirada de dentro do rio.

Ele se desespera com o amor que vê, que sabe que existe, mas que também acredita que nunca será seu. Envolvido demais para voltar atrás, ele se dirige à mesma ponte de onde um dia tirou a garota e pula. Antes que os pés se descolem completamente do solo, entretanto, é empurrado contra o chão. Cai num baque surdo, pressionado por um corpo leve e perfumado. É ela, pensa ele. Ela viu o bilhete, ela veio me salvar. Mas antes de abrir os olhos, lembra-se de sua própria estupidez: do bilhete que ficou no bolso e nunca em cima da mesa, onde ela pudesse ver. Ele quase pulou só para que ela o pudesse salvar, mas esqueceu-se de avisar o ato desesperado que cometeria por amor.

Abriu os olhos. Não era ela. E ele percebeu que a garota não o amaria. E que ele estaria destinado a nunca amar a pessoa que o salvou se ficasse sempre preso àquela a quem ele, por tanto tempo, tentou salvar. Segurou o rosto da menina por cima dele, que ainda estava tonta com o que tinha acabado de fazer e beijou-a. Surpresa, ela entendeu aquilo como um ato desesperado de agradecimento e, convencida de que não era a melhor opção para ela mesma se apaixonar por alguém que acabara de tentar se matar, levantou-se o mais rápido que pôde e sumiu no mundo antes que ele fosse capaz de explicar.

Parado, beirando a ponte, ele senta na mureta e olha para o rio pensando que se quisesse mesmo se matar daquele jeito, não deixaria um bilhete. Voltou para a casa da garota. Entregou a ela o bilhete que ainda estava dobrado no bolso. Ela leu, mas não havia o que fazer. O que ela sentia não era por ele. Nesse momento ele compreendeu o amor que ela sentia, porque amava também, e percebeu que era inútil se esforçar. Ela não teria amor por ele. Não agora. Era preciso tempo. E quem sabe o que o tempo faria com os dois? Ele deixa a casa dela, prometendo a si mesmo que seria pela última vez. Cada um parte para um sofrimento igual por pessoas diferentes. Até que os dois percebem a ingenuidade um do outro. Os dois se dirigem à ponte que os une. Ninguém pretende se matar, no entanto. Quando ele chega, ela está sentada, na mesma mureta onde ele esteve antes. Ele senta-se ao lado.

Eu te entendo, diz ela, finalmente, quebrando o silêncio. A parede caiu e tudo que os separa é tão fino e transponível quanto a superfície do rio abaixo de seus pés. Eles atravessam, unindo-se por um olhar de compreensão mútua. Tudo que vem a seguir é só mais uma história de amor.


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