Pequenos Delitos

Uma cola na escola, assistir tevê mesmo estando de castigo, enquanto mamãe não vem, pular o muro do vizinho, assaltar a mangueira, a jaboticabeira, a amoreira, tudo que é mais gostoso roubado, inclusive o beijo da menina mais bonita e também a mais metida da escola. Trapacear no esconde-esconde, polícia e ladrão, correr pro banheiro quando o intervalo acaba, fingir uma doença terrível e incurável, que só passa quando deixam faltar na aula, esquecer o dever de casa de propósito, enganar o tempo não olhando no relógio, gastar todo o dinheiro do lanche em bala sete-belo. Tomar coca-cola e arrotar o abecedário, aprontar todo tipo de arte, colocar a culpa até da chuva no irmão mais novo, dizer que o irmão mais novo é adotado (todo dia), tomar banho no tanque primeiro para depois tomar banho de verdade, tomar banho de mangueira no verão, dividir o lanche com o cachorro quando ninguém está vendo.

Muitas colas na faculdade, assistir tevê mesmo tendo prova de Direito Constitucional no dia seguinte, pular o muro da vizinha – de cueca, fugindo do pai dela -, assaltar a geladeira na madrugada, depois da balada, trapacear no truco com os amigos, matar aula para dormir e nem sequer se dar ao trabalho de arrumar uma desculpa melhor, esquecer do mundo de propósito, enganar o tempo dormindo de dia e passando a madrugada acordado. Gastar boa parte do salário em cerveja, beber cerveja e arrotar o abecedário, continuar sacaneando o irmão mais novo que a essa altura duvida seriamente da legitimidade de sua filiação, tomar banho frio para curar ressaca, continuar dividindo o lanche com o cachorro quando ninguém vê.

Fingir que está acordado enquanto o chefe fala, fingir que está acordado enquanto assiste tevê, pular partes chatas dos livros, trapacear no poker com os amigos, matar o trabalho jogando paciência, esquecer das tarefas domésticas de propósito, enganar o tempo usando roupas velhas, gastar boa parte do salário em quinquilharias tecnológicas, beber vinho com o pretexto de ser bom para o coração, tapar os ouvidos quando o irmão mais novo o chama de velho, tomar banho quente para tirar o stress, continuar dividindo o lanche com o cachorro, principalmente quando o prato do dia é fígado.

Depois de passar a vida cometendo infrações quase imperceptíveis, João resolveu cometer o crime de sair meia hora antes do trabalho. Fechou o escritório, o movimento estava baixo, os processos andavam bem, os que não andavam,  não seriam resolvidos agora. Chegando em casa, a mulher tinha saído para a academia. Ele subiu as escadas e entrou no quarto da filha inadvertidamente. Acabou por surpreendê-la cometendo, também, um pequeno delito com o vizinho que pulou pela janela logo que ouviu a maçaneta girar e agora já alcançava o muro. “Um dia da caça, outro do caçador”. João nesse momento tem uma súbita vontade de cometer um delito maior do que aqueles a que estava habituado anteriormente.

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