A Opinião dos Especialistas

Os especialistas se reúnem. Diante de mais uma questão fundamental para a evolução da sociedade e o desenvolvimento do pensamento crítico, utilizam o procedimento metodológico básico: fumar cigarros, beber “whiskie on the rocks” e discutir prolixamente. Tudo isso feito de maneira bem arrastada; e sem uma dessas três coisas que antes mencionei, nada poderia ser resolvido.

Faziam parte desse evento poltronas de espaldar muito alto, livros que nunca eram consultados e uma lareira que, no clima tropical, não fazia mais do que pose, além de, é claro, os quatro velhos amigos especialistas.

As discussões eram sempre muito ricas; isso porque o ócio resultante desses encontros causava uma prolongada ruminação das variáveis em questão que fomentava ideias originais e realmente brilhantes. A conclusão dos assuntos que discutiam era, antes de tudo, uma premissa para que se propusessem a discuti-los. Eles sabiam que, por serem especialistas, se eles não fossem capazes de resolver uma questão, ninguém seria; mas o que acontecia é que geralmente resolviam todas as questões que lhes eram colocadas. Exceto hoje.

Seguiram como sempre o procedimento padrão. Cada um aboletou-se num canto da sala. Frederico sentou-se de frente para a janela, imaginando o que poderia ser mais intrigante que aquele universo em que resolveram se meter. O mundo era um lugar inóspito, pensava ele; mas o território em que estavam pisando agora era muito mais assustador e cada passo era um salto no vazio, como um mergulho num buraco negro.

Odilon entretia-se imaginando gráficos que pudessem comparar os diversos elementos envolvidos de maneira quantitativa. Naquela sua calma e paciência de quem se propôs um dia a estudar Matemática pura, acreditava que o cálculo aplicado era agora o melhor caminho a seguir. Riscava os gráficos em giz branco sobre o quadro verde-escuro gasto.

Celso acariciava a camurça da própria lapela, alinhando-a, enquanto figurava no espaço vazio de sua mente se o problema era uma questão de térmica, ou se ele se aproximava mais de um problema de física vetorial, direção e sentido.

O literato Gilberto buscava uma referência mental de algum clássico onde estivesse explicitada a questão. “Algum deles deve ter passado pela mesma coisa. De Homero a Romeu, sempre houve uma mulher, então sempre deve ter existido essa dúvida.” Neste momento Gilberto resmungava para si mesmo, porque ninguém o ouvia. Estavam todos absortos no que poderia ser a solução.

Frederico finalmente se deparava com a suposição óbvia que já deveriam ter assumido há muito: “Não seria mais fácil perguntar? Devíamos todos assumir que se depois de nos colocarmos a mesma questão por tanto tempo sem resultar em nada, a opção que nos resta é ir diretamente ao ponto, ir à fonte do problema e questioná-la.”

Era brilhante! Todos entraram em êxtase até que o momento passou e timidamente todos se recolheram novamente a seus pensamentos, porque chegaram todos ao mesmo tempo a mesma conclusão fatídica: se não tinham feito isso até agora é porque não podiam lidar com o constrangimento e a humilhação a que teriam que se submeter indo diretamente à fonte. Logo, Odilon voltou aos gráficos; Celso concluiu que a térmica estava relacionada, mas não tinha tanta influência quanto a velocidade e o ponto de aplicação da força; Gilberto estava perdido em seus poemas, recitando mentalmente Romeu e Julieta. Isso até que Frederico irrompeu no meio do ridículo:

_ Já chega! Estou farto dessas confabulações inúteis. Estar aqui horas pensando na mesma coisa com a resposta bem debaixo dos nossos narizes, isso sim é uma imensa vergonha!

Desacomodou-se da cadeira logo que foi falando, abriu a porta, apagou o cigarro no cinzeiro, tomou num gole só o whiskie que restava no copo e partiu. Os outros amigos olharam-se significativamente e um a um fez a mesma coisa, saindo por último Gilberto que, enquanto trancava a porta, já começava a imaginar, com a sua sorte e a sua bagagem literária de dramas, o que encontraria ao destrancar a porta de casa.

Mas nem ele imaginava a cena que se sucedeu. Entraram todos em suas casas, para ver a mesma coisa. Nas mais diversas e inusitadas posições, suas mulheres aos urros e berros deliciavam-se na cama com rapazes novos, fortes e burros. Os maridos postam-se, como cientistas que são, à porta, encostados ao batente para não cair para trás, observando a atuação dos rapazes. Nem lhes importava mais as mulheres a lhes traírem, mas como é que aqueles imbecis eram capazes de arrancar aquele tipo de gemido delas?

Casamentos desfeitos; depressão de alguns meses – não pela falta da esposa, mas porque todos ficavam pensando nos seus egos feridos: “como foi que não encontrei a resposta antes?”… “como foi que não percebi?”. Os gráficos com seus “como queríamos demonstrar”, pareciam agora uma provocação para Odilon; Celso pensava nesse momento em como era possível realizar aquele tipo de movimento centrípeto a que tinha observado; e Gilberto era o único conformado com o drama da sua vida, que já transformava em um romance.

Frederico, o prático, mais uma vez aponta o óbvio: a solução havia sido encontrada, então era somente uma questão de aplicá-la, não necessariamente com as mesmas mulheres.

Os especialistas reúnem-se novamente. Desta vez, para comemorar. Todos tinham novos casos com mulheres novas, gostosas, e, assim pensavam eles, burras. Não precisavam se preocupar com nenhuma delas; elas gozavam só de encostar, a solução era um sucesso!

Dois andares para baixo, numa sala fechada, em reunião regada a Cosmopolitan e comendo chocolate Belga, discutem cinco especialistas sobre a arte de fingir orgasmos para professores universitários, desquitados e infelizes, e os benefícios da vida acadêmica garantida.

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