A xícara

Um grande estrondo interrompe o som monótono e cadenciado do telejornal misturado à água da torneira que corria. Na pia, o cadáver de algum objeto de louça, agora ensaboado e inútil de qualquer função maquinal, se deixa por um minuto assentar, cada pedaço em um lugar diferente. Olho para a pia numa dor precipitada e num desconfiar ruim, esperando que o cadáver seja retirado e os restos possam ser examinados. Eu torço para que não seja a minha xícara preferida, a xícara que eu trouxe de Barcelona, depois de passar um ano fora de casa, uma das poucas coisas que ainda me lembra que existe um mundo lá fora diferente do mundo em que eu estou – é das poucas coisas que me lembra que eu posso ter uma vida diferente da que eu deixei aqui e reencontrei depois desse um ano: tudo no seu devido lugar, tanto o bom quanto o ruim, exatamente igual.

 

Meu pai levanta os pedaços e os coloca em cima do granito molhado. Quebrou em três pedaços, mas não era a minha xícara. Ufa… por um momento ainda tenho alguma esperança, o que não é de se jogar fora; qualquer esperança agora era válida, afinal, já era pouca. Depois de um dia inteiro procurando motivos para não me deixar afundar no buraco da incerteza ou da falta de perspectiva de futuro que a minha geração enfrenta ao abrir a página dos classificados de emprego, vagueei os olhos pela xícara que não era a minha e fiquei aliviada. Não durou muito.

 

Minha mãe logo lamenta a xícara quebrada. A princípio penso que a chateação é porque quebrou-se a peça de um jogo. Mas não. Olho bem a xícara e percebo que é aquela que ela usa para medir o arroz, a farinha e o açúcar do bolo de quando eu era criança; aquela que fica num canto diferente do armário e em que ninguém se atreveria a tomar café. Ela olha para os pedaços, desconsolada, agora segurando-os na mão. “Eu tenho esse xícara desde que me casei…” E como se isso já não fosse motivo suficiente para me despedaçar como a xícara, continua com “essa xícara era da minha avó…”

 

Houve um silêncio doído e seco. Olho para minha mãe e, nesse momento, eu gostaria de voltar no tempo e fazer a xícara quebrada ser a minha. Não posso. Os olhos dela ficam molhados e brilham. Os meus transbordam, ainda que eu tente esconder.

 

Meu pai diz que cola os pedaços porque não são tantos assim, são só três. Olho para os três pedaços quebrados da xícara e penso na dor que não era minha e virou minha; mas se fosse a minha xícara, a minha tristeza seria também a dela. Nos entendemos por uma fração bem pequena de tempo, sentindo a mesma coisa. O café que eu fazia nesse momento sem medida sai bom mesmo assim, mas ao invés de tomar o café, ele fica na minha xícara preferida e inteira, e esfria enquanto eu tento me entender com o que eu sinto. Engulo depois o café frio e a dor das coisas que são como são e não podemos mudar.

 

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