O Portão

O PORTÃO

por Mariana Martins

O sabor era de bala de hortelã. O sabor fresco de puxar o ar pela boca com a bala em cima da língua. Era esse o sabor do ar que atravessava as barras do portão de ferro. A poeira do ar refletia em amarelo à luz do Sol que também reluzia as barras verdes lustradas com pequenas marcas de ferrugem nas juntas com as barras horizontais e a fechadura.

Era um grande portão de mais ou menos cinco metros de altura. Olhando de baixo para cima perdia-se de vista o seu fim. Tinha no topo um dragão pisoteando uma cobra, também em ferro, porém pintado de dourado. Tinha dois pontaletes em cada lado e enormes dobradiças com parafusos da grossura de um dedo, presas a um muro de pedra que dava a volta num terreno quase quadrado de um pouco menos de mil metros quadrados de área.

Imediatamente após o muro começava o jardim. Era um extenso gramado ponteado por salgueiros preguiçosos que descansavam os ramos e folhas no chão, paus-ferros que desenhavam torres no skyline e um único exemplar de jabuticabeira.

No centro, e compondo o restante do skyline com telhado pintado de azul, ficava uma casa avarandada, em estilo colonial, toda ela branca, exceto pela balaustrada e degraus da varanda que eram de madeira Ipê, assim como era também o piso da casa.

Correndo pelo piso de Ipê vêm três pares de pés. Dois pares pequenos e leves e um grande e atrapalhado. Todos os pés faziam barulhos surdos contra o piso.

Avançam os pares de pés até as mãos alcançarem a balaustrada da varanda. Dois rostos enfiam-se entre os balaústres, fazendo um retrato emoldurado da felicidade ingênua de ser criança. O rosto fora da moldura só observa o movimento com saudade de um sentimento que já foi seu.

Maria desceu do ônibus e andou meio quarteirão passando pela escola de música e pelo boteco no caminho. Chegou à pracinha redonda circundada por casas grandes. Sentou no banco, de frente para o portão. Foi quando olhou para baixo e percebeu que estava um pouco amarrotada. Se ajeitou como pôde. Passou os dedos pelos cabelos. Na volta passou-os pela sobrancelha tateando a própria face e depois pelos lábios. Dobrou os lábios para dentro espalhando o batom. Sentiu o cheiro do seu próprio perfume no pulso, misturado ao cheiro do xampu de laranja com camomila que ficou nos dedos.

Pousou os dedos nos joelhos finalmente, mas eles não ficaram quietos. Os dedos nervosos, suados, tremendo. Hoje é o dia – ela pensou.

Depois de três encontros, ela tinha pensado também que seria o dia. E depois tinha pensado o mesmo no quinto, no sexto, no sétimo. No décimo ela se convenceu de que não precisava que ninguém sentisse nada por ela porque o que ela sentia bastava, ou porque cansou de esperar o dia – o dia em que ele admitiria sentir alguma coisa. Se convenceu de que não era preciso ter certeza de que ficariam juntos. Se ele dissesse alguma coisa ela não acreditaria mais mesmo. De que adiantaria. E vivia a mísera felicidade de ter alguém que amasse, ainda que não fosse amada de volta, uma felicidade meio-amarga.

E agora lá ia ela de novo, achando que seria aquele o dia. Dessa vez ele de fato tinha alguma coisa para dizer. Marcou local e data, horário na agenda, para o fatídico encontro em que diria “uma coisa importante”. E ela esperava em seu vestido meio amarrotado com os cabelos, pulsos e pescoço perfumados.

Sentada no banco ela podia ver o dragão pisoteando a cobra. E o jardim com a casa por detrás do portão. O dragão tinha a serenidade de um monge, enquanto a cobra tinha um olhar desesperado e colocava a língua para fora da boca aberta em grito.

Quando você se propõe a escutar alguém, você sabe que pode escutar o que quer e o que não quer também. Mas esperar o melhor é inevitável. E mesmo ouvindo o pior, tira-se dele pedacinhos esfacelados de tudo aquilo no meio do ruim que ainda pode soar bom, como um prêmio de consolação.

Ele chega, depois de descer no mesmo ponto de ônibus e andar pela mesma rua, confiante na sua decisão. Ele – quem ela aguardava. Ele senta, ele fala, ela escuta. Ela esperava, como todas as mulheres que já amaram no mundo, pelo melhor. “Coisa importante” dita, ele levantou e foi embora sem qualquer promessa.

Ela vagueou os olhos por entre as barras do portão e o ar que antes havia passado ali chegava agora nas suas narinas e na sua boca. Hortelã; não se sabe por quê.

Os três pares de pé correm agora pelo jardim e ela pode vê-los. Ela espera e procura no espaço vazio o quarto par de pés que falta na cena. Não os encontra. A esperança bate o seu coração num último revoltar do oxigênio que respirou deslizando pela corrente sangüínea. Ela se sente dona do seu destino por um segundo. Pensa que o mundo é muito grande para se preocupar com um só banco e um só homem, porque há outros.

É quando se escuta a madeira da varanda ranger com um peso de dois pés não tão leves e não tão atrapalhados quanto os que passaram ali antes. Caminham para encontrar os pés e mãos que brincam no jardim e, quando descem os degraus e esfregam-se na grama, o cheiro do perfume do corpo que os pés carregam fica mais forte no ar – hortelã.

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